Obalanço de Junqueiro incluído no final da Pátria e que pela sua flagrante oportunidade temos comentado e transcrito, (Uma Pátria ou uma Pia?, 11/11/2004; Portugal, numa au- tópsia, 19/11/2004) pretendeu, segundo o próprio poeta, apresentar em sintético esboço a fisionomia da nacionalidade portuguesa..Resumiu muito daquela fatalidade inexorável que, em momentos cruciais, se torna indisfarçável no comportamento individual e na relação colectiva do homem português, dentro do seu próprio país. A propósito acentuou Os homens que há muito dirigem os destinos da nação, (...) quase sempre democratas vazios aos 20 anos, e cínicos redondos aos 40, são incapazes de um plano de Governo. (...) Eles, francamente, visam, apenas, salvar o seu interesse, o seu egoísmo e as suas lantejoulas de medíocre..Sem margem para equívocos também reconheceu (e voltamos a citar na íntegra) a predominância de um pessimismo canceroso e corrosivo, minando as almas, cristalizado já em fórmulas banais e populares -tão bons são uns como os outros, corja de pantomineiros, cambada de ladrões,tudo uma choldra. Mas destacam-se mais outras anotações bastante significativas O português, apático e fatalista, ajusta-se pela maleabilidade da indolência a qualquer estado ou condição. Capaz de heroísmo, capaz de cobardia, toiro ou burro, leão ou porco, segundo o governante. E, ainda, noutro passo Povo messiânico, mas que não gera o Messias. Não o pariu ainda. Em vez de traduzir o ideal em carne, vai dissolvendo em lágrimas. Sonha a quimera, não a realiza..Denunciou o descalabro dos poderes executivo, legislativo e judicial. A inoperância do Exército e da Marinha, a precariedade da agricultura, a inexistência da indústria, o desastre na educação. Não deixou de mencionar a cultura Mundo de vista baixa, moralmente ordinário e intelectualmente reles. Junqueiro, contudo, estabelecia um confronto entre a frandulagem pelintra da literatura oficial, carimbada para a imortalidade do esquecimento com a Cruz indelével da ordem mendicante de Santiago e a existência d'uma literatura iconoclasta, uma arte de sarcasmo viril e humana. Indicava o exemplo de Fialho, o grande escritor dos Pobres, da Velha e do Idílio Triste que se transformara no panfletário impetuoso e bravio dos Gatos. A águia - acrescenta Junqueiro - baixou a milhafre. O milhafre é útil, depura e limpa. Os Gatos foram, em parte, uma obra de justiça, por vezes de cólera. Mas o rancor dos bons denota aindabondade. Só os grandes idealistas desceram a grandes satíricos. Cristodava chicotadas. E prosseguiu varrer Lisboa nos Gatos, acho bem; varrê-la no Diário do Governo, acharia óptimo..Por tudo isto, Junqueiro, numa parábola feroz, alertava que, se Cristo, entre ladrões, fosse crucificado em Portugal, ao terceiro dia, em vez do Justo, ressuscitariam os bandidos. Ao terceiro dia? Que digo eu! Em 24 horas andavam na rua, sãos como peros, de farda agaloada e a Grã-Cruz de Cristo..Um século depois da caracterização formulada por Junqueiro persistem factores de insegurança e decadência. Esta situação causa, de dia para dia, cada vez maiores apreensões. A todos os níveis...