A abertura do Brasil à representação artística

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Amultiplicidade de autores e de registos demonstra o fascínio que o Brasil exercia, no princípio do século XIX, sobre os espíritos aventureiros europeus. Assim que a Corte portuguesa lá se instalou e abriu as portas ao comércio com as nações amigas, foi considerável o afluxo de curiosos que, dados às artes, logo começaram a representar o país. É desses trabalhos que se faz a exposição "Artistas Viajantes e o Brasil no Século XIX", patente no Museu Nacional de Soares dos Reis (MNSR), no Porto, de hoje a 16 de Abril.

Promovida pela Fundação Estudar, sediada em São Paulo, a mostra contempla a denominada Colecção Brasiliana, parte importante da qual foi adquirida e reunida por Jacques Kugel, um coleccionador francês de origem judaica russa que, durante a II Guerra Mundial, fugiu da invasão de Paris por parte das tropas de Hitler e veio viver para Portugal. Curioso é o facto de, sendo obras do século XIX, só há pouco tempo, já na posse da Fundação Estudar, terem ficado disponíveis para exposição.

Reforça-se, assim, o interesse de visitar o MNSR, tanto mais que foi ali que D. Pedro, duque de Bragança, se abrigou quando voltou do Brasil para reivindicar o trono português ao seu irmão, D. Miguel. Era então Palácio dos Carrancas, depois convertido por aquele mesmo soberano em Museu Portuense, o primeiro museu de arte do País. Um factor simbólico levado em conta na escolha do espaço para a exposição.

Entrada nobre

Ao todo são 122 obras, divididas por módulos. O primeiro, intitulado O Rio de Janeiro e a Corte, abre com representações da família real, entre as quais um retrato de D. Miguel pedido de empréstimo pela Fundação Estudar ao acervo do MNSR. Há ali uma genealogia organizada da família imperial, com D. João VI e D. Carlota Joaquina à cabeça, seguidos pela descendência. E há também, ainda no capítulo da aristocracia, registos dos ícones fundamentais do sítio e de quem nele manda, como um quadro curiosíssimo onde surge retratado um embaixador francês na corte de D. Pedro II, com o Pão de Açúcar em fundo, uma arara de um lado e o busto do monarca do outro.

A isto, no mesmo módulo, acrescentam-se panorâmicas do Rio de Janeiro, inevitável porta de entrada daquela fatia do novo mundo. São essas e outras obras, dispostas no módulo seguinte, as que melhor demonstram a diversidade de interesses/funções profissionais dos seus autores. Uma delas, feita com o rigor de um espírito científico, mostra como a implantação da "cidade maravilhosa" segue o molde de Lisboa; outra, por exemplo, puxa a vegetação para primeiro plano, expondo com detalhe diversos exemplares da flora brasileira, sem pejo de "desfocar" a parte edificada.

Seguem-se desenhos preparativos, aguarelas e gravuras dedicadas a paisagens, usos e costumes da época. Sinety, oficial da marinha francesa, um artista amador, assina uma série de gravuras com panorâmicas do Rio de Janeiro num formato cartão-postal, posteriormente editadas em álbum. Outro amador, mas desta feita suíço, interessou-se apenas pelo que o circundava, mostrando-o num tipo de representação mais afectiva. Distante, por exemplo, do rigor profissional do alemão Planitz, autor de um conjunto de desenhos preparatórios que viria a ser publicado.

Chamberlain, um dos primeiros europeus a editar livros sobre o Brasil, denota nas suas aguarelas maior fidelidade aos elementos naturais do que à parte urbana, submetida a veleidades fantasiosas. Mais integrada é a perspectiva do académico alemão Rugendas, discípulo de Humboldt, um revolucionário na época e o primeiro naturalista a estudar a vegetação no seu ambiente - um precursor da ecologia. Nas suas obras, produto de uma visão holística, homem, clima e vegetação estão todos ligados.

Outras memórias

Não só do Rio de Janeiro, porém, dão conta os trabalhos exploratórios de Artistas Viajantes e o Brasil do Século XIX. Houve gente mais aventureira que, ali chegada, partiu à descoberta, como o italiano Righini, que representa a Amazónia num quadro dominado por índios pregando ao Rei Sol. Aí é impressionante o cuidado de anotação, patente nos adereços dos nativos e, mais uma vez, nas espécies vegetais. Convém não esquecer, como aliás ressalva Carlos Martins, comissário da exposição, que no Brasil se faziam os esboços, as anotações, sendo a pintura depois efectuada nos ateliers europeus.

Parte importante está ainda reservada ao trabalho escravo. Menos relevante para a vaidade aristocrática, a presença maciça do trabalho escravo foi bem representada, como prova do interesse que suscitava nestes artistas. Domina, aliás, a última parte da exposição, no que pode ser interpretado como um contraponto à primeira, que transpira nobreza.

Documentada está também, já a fechar, a obra de Landseer, irmão do pintor preferido da rainha Vitória, habituado a pintar cães, animais e cenários vitorianos. Foi para terras de Vera Cruz com o embaixador Charles Stuart, que negociou o reconhecimento da independência do Brasil, e lá fez 90 desenhos que estão hoje na colecção do Instituto Moreira Salles, pai do cineasta Walter Salles (Central do Brasil e Diários de Che Guevara).

Nem todos os artistas estão reconhecidos, mas pouco falta. Há casos em que não se chegou ao nome mas, por determinados elementos, se encontrou uma provável nacionalidade, como o do suíço atido à sua situação particular, "desmascarado" pela bandeira.

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