'Morangos' renovou um "mercado de curtas asas"

Nove anos. É esta a idade da série juvenil da TVI que descobriu talentos e estrelas, mas correm rumores de que o formato pode acabar. José Eduardo Moniz, que lançou o programa, lamenta.
Publicado a
Atualizado a

João Catarré e Benedita Pereira foram os primeiros protagonistas de Morangos com Açúcar. O amor dos dois cativou os jovens adolescentes e prendeu milhares de espectadores ao ecrã, em 2003. Tanto um como outro estavam longe de imaginar que a série ia ser emitida até hoje, nove anos depois. Eles, Cláudia Vieira, Diana Chaves, Rita Pereira, Mariana Monteiro, Isaac Alfaiate, Diogo Amaral, Marta Melro, Sara Prata, Sofia Ribeiro, Pedro Barroso, Lourenço Ortigão, Sara Matos, Jorge Corrula, Pedro Teixeira e tantos outros que iniciaram o seu percurso profissional no colégio da Barra, dos Navegantes, do Forte, D. Sebastião...

Agora que se ouve falar que a série juvenil da TVI vai terminar, todos lamentam e recordam com saudade cada episódio que os fez crescer enquanto atores. Até José Eduardo Moniz lamenta, diretor-geral da estação na altura em que a série começou. "Tudo na vida tem um fim. Se a série morrer, ao menos restará a lembrança dessa vontade de ter tentado, sem medo, imprimir renovação a um mercado habituado a asas curtas", sublinhou à Notícias TV o agora vice-presidente da Ongoing Media. Sempre entre os programas mais vistos do dia, Hugo de Sousa, coordenador do projeto desde o início, garante que o produto ainda hoje é rentável, estando ao "nível das produções de horário nobre", apesar de as audiências terem diminuído um bocadinho. "Muita gente não sabe, mas tem custos semelhantes, assim como o retorno", disse.

Para Mariana Monteiro a série "foi a descoberta da paixão pela arte de representar". "Uma experiência única e uma escola. Um local de grande aprendizagem que mudou a minha vida, troquei o Porto por Lisboa, deixei a minha família e amigos para agarrar uma experiência que pensava que não iria passar disso mesmo. Na altura estudava Economia e alterei por completo o meu rumo profissional. Devo a minha curta carreira aos Morangos", disse à imprensa Mariana Monteiro, que hoje é exclusiva da TVI e protagoniza a novela da noite Doce Tentação. Mas antes desta, a atriz que entrou na terceira série de Morangos em 2005 deu cartas em Doce Fugitiva, Fascínios, na série de época Equador, Deixa Que Te Leve e Espírito Indomável.

Hugo de Sousa contraria as notícias que têm saído a dar conta do fim "do laboratório de atores", como José Eduardo Moniz lhe chamava, e garante que a série está para ficar... pelo menos por enquanto. "Essa é uma notícia que não é confirmada. Os Morangos não acabaram de todo. Ainda temos muita coisa para fazer. O máximo que pode acontecer é uma paragem de reestruturação. Para mudar. Ao fim de tantos anos é preciso mudar. Em termos criativos é importante que isso aconteça. Essa paragem pode ser de três meses, 15 dias, um mês. Até eu, às vezes, tenho dificuldade em saber como e o que fazer. Não tem fundo de verdade existir outra série. Ainda consigo pensar em Morangos até Setembro e o que quero fazer em Outubro. E cada série é pensada de série em série, por isso...", disse à Notícias TV.

Todos eram completamente desconhecidos do público, mas depressa se tornaram um fenómeno no mundo mediático. Aliás, como o próprio Hugo de Sousa sublinha: "Reconheço a evolução de algumas pessoas, de muitas caras. É com orgulho que digo que eles se estrearam comigo. Rita Pereira, Mariana Monteiro, João Catarré... são os mais mediáticos, talvez. Mas há muitos mais, Pedro Carvalho, Sara Barradas, Joana Solnado... Aliás, os exclusivos do canal, os mais novos, saíram dos Morangos. À exceção de Joana Solnado, que se estreou no Último Beijo e Sara Barradas em Amanhecer, os outros foram fruto dos Morangos", afiança.

Diana Chaves, que foi mãe há menos de um mês, orgulha-se de o seu percurso profissional ter começado na série juvenil e agradece a oportunidade. "Foi uma altura muito divertida. Conheci atores e técnicos com quem ainda trabalho. Foram tempos de grande aprendizagem, porque gravávamos de segunda a sábado, 12 horas por dia", disse a atriz que protagonizou a novela Laços de Sangue, SIC, depois de ter assinado contrato de exclusividade, mas agora no canal de Carnaxide.

Também Rita Pereira é figura assídua no ecrã da TVI. Depois de interpretar a Soraia em Morangos com Açúcar, em 2004 (irmã da personagem de Cláudia Vieira), protagonizou Doce Fugitiva, Feitiço de Amor e Meu Amor, faz agora de vilã em Remédio Santo. É das atrizes mais desejadas do mundo televisivo e das mais polémicas na imprensa. A atriz também se estreou na apresentação, na Morangomania e, mais tarde, conduziu o programa em direto Canta Comigo, que passava aos domingos à noite.

José Eduardo Moniz, o grande impulsionador da série, sempre disse que "os Morangos foram uma opção estratégica para satisfazer públicos jovens". "A série ficará na história da televisão portuguesa como marco de criatividade, ousadia e oportunidade. Descobriu autores e atores dando abertura ao surgimento de talentos em muitas áreas, transformou-se num produto que não se limitou ao ecrã e se converteu mesmo, em muitos aspetos, num fenómeno social", disse o agora vice-presidente da Ongoing Media à Notícias TV. Hugo de Sousa, sem estar frente a frente, concordou com as palavras e explicou que ao início a série tinha sido pensada para estar no ar seis anos. "Em 2003 falávamos que era um projeto que gostávamos que tivesse uma dimensão de seis anos. O próprio Moniz às vezes punha em causa se era para continuar ou não e como ia continuar. É normal que assim seja. São muitos anos. Queríamos que fosse uma marca, agora não pensávamos que durasse tantos anos..." Muitas vezes alvo de críticas pelos conteúdos que a série aborda, como namoros, sexo, drogas e a rebeldia própria dos jovens, Morangos com Açúcar sempre passou indiferente a tudo. "Criticado positiva ou negativamente, transportou o atrevimento de romper com padrões estabilizados e convencionais de fazer televisão", afirmou Moniz, que apesar de já ter ouvido falar do fim, ressalva que os Morangos marcaram a forma como se faz televisão em Portugal.

Além de atores, também boysbands saíram dos Morangos é o caso dos D'ZRT, com as personagens David (Angélico Vieira), Zé Milho (Vítor Fonseca), Topê (Paulo Vintém) e Ruca (Edmundo Vieira). As carreiras de ambos foram lançadas na série e bem recebidas pelo público. Entretanto, a banda acabou, tal como os 4Taste ou a solo, como FF (Fernando Fernandes).

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt