'Gil Eannes', a história de um navio-hospital

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Pescadores chegaram a fingir estar doentes para entrar no navio

A reputação de que o Gil Eannes gozou durante duas décadas como navio-hospital de apoio à frota bacalhoeira, levou pescadores a fingirem--se doentes para obterem mais conforto, melhor comida, aguardente, cigarros e reencontrarem amigos e familiares.

Pedro Lima Ribeiro, 74 anos, embarcou em 1958 como electricista. Durante os oito meses em que esteve a bordo do Gil Eannes, apanhou "muitos sustos com os temporais" mas conseguiu resgatar, com os companheiros de viagem, os tripulantes de oito navios portugueses que, nesse ano, naufragaram nos mares gélidos da Terra Nova e da Gronelândia. O antigo tripulante refere-se ao Gil Eannes como um "barco de luxo", comparando-o aos navios da frota bacalhoeira, onde "os pescadores passavam muitas privações e comiam feijão, batata, arroz e carne de barrica". "No Gil Eannes não faltava nada. Havia fabrico diário de pão com farinha americana, camarotes isolados, lavagem de roupa, água para o banho, telegrafistas em permanência e uma das melhores salas de operações do País", salienta, adiantando que, duas vezes por semana, a tripulação comia acepipes como salsichas, ovos e doces. Não admira, pois, que "alguns pescadores fingissem dores de estômago e de dentes" para poderem visitar a embarcação e "ganhar conforto, reencontrar companheiros doentes, amigos, familiares, comer melhor, pedir aguardente, cigarros, mudar de ambiente e falar de outros assuntos com outras pessoas", conta Pedro Ribeiro.

Pedro Loureiro, que era ainda um médico recém-licenciado quando prestou serviço no navio nos anos 70, confirma que "um ou outro caso" de "falsos doentes" ocorria entre os rapazes que, sem experiência de pesca, partiam para a faina do bacalhau para escapar à Guerra Colonial. "Mas também havia doentes que minimizavam os sintomas" para não perderem o salário, adianta.

Construído nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo pelo Grémio de Armadores de Navios de Pesca do Bacalhau, o Gil Eannes foi lançado ao mar em 1955, ano em que o País tinha uma frota pesqueira na Terra Nova e na Gronelândia de 70 barcos e cerca de cinco mil homens. O navio esteve ao serviço da frota bacalhoeira até 1973. Contudo, dez anos antes, por dificuldades de exploração, suportada pelos armadores, foi autorizado, por decreto governamental, a efectuar, fora das campanhas da pesca do bacalhau, viagens de comércio, como navio-frigorífico e de passageiros para África do Sul, Canadá, Noruega e Austrália. Mais tarde, transportou refugiados de Angola. Até ser recuperado em finais da década de 90, o navio enfrentou diversas vicissitudes: esteve arrestado e abandonado durante vários anos na Doca de Alcântara, em Lisboa, antes de ser resgatado a um sucateiro de Alhos Vedros, Moita. Actualmente, a embarcação é propriedade da Fundação "Gil Eannes", que a mantém ancorada em Viana do Castelo como museu e pousada da juventude. Lusa

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