Com 14 metros de altura e quatro toneladas (50 se incluirmos a estrutura de suporte!), a figura negra não passa despercebida a ninguém que viaje pelas estradas espanholas. De Badajoz a Barcelona por autovia aparece uma meia dúzia, mestres a quebrar a monotonia paisagística da meseta ibérica. Ao todo são 90, incluindo um nas Canárias e outro nas Baleares. O famoso "El Toro", como os espanhóis muito naturalmente lhe chamam, faz este mês 50 anos. Meio século em que conseguiu também confundir-se com a imagem de Espanha. Demasiado até, dirão alguns. Ainda em Agosto, o único touro gigante que sobrevive na Catalunha foi alvo de um ataque de um grupo nacionalista. Deitaram-no ao chão..Não tem sido fácil a vida de "El Toro". Começou por ser um cartaz publicitário do grupo Osborne a promover o brandy Veterano. Aliás, os primeiros touros tinham o nome da bebida escrito em letras brancas. Depois, à medida que invadia as bermas das estradas, começaram as implicações. Primeiro as legais - ficar a mais de 125 metros do alcatrão, deixar de ter referências à marca, ser pura e simplesmente expulso da paisagem espanhola. Contra esta última ideia, pronunciou-se há dez anos o Supremo Tribunal, reconhecendo o valor cultural da imensa figura negra, muito além do seu "sentido publicitário inicial". Em defesa do touro tinham saído figuras das artes, dos jornais e da política. E a Junta da Andaluzia, para o proteger, classificou-o como património. Na região existem 22, diz o El País..Depois vieram as implicações políticas, paralelas ao ganhar de força dos nacionalismos, sobretudo o basco e o catalão. Não será apenas coincidência que em duas das províncias do País Basco (Vizcaya e Guipuzkoa) não haja qualquer touro e que na Catalunha só exista um, aquele que foi atacado na madrugada de 2 de Agosto pelo grupo Bandera Catalana. No comunicado a reivindicar a acção, a motivação ficou bem clara - a identificação entre "El Toro" e a Espanha: "Limpámos a silhueta da sagrada montanha de Montserrat daquela imundície cornuda espanhola." Uma linguagem tão absurda como o apelo que circulou há três anos entre os internautas madrilenos para se deixar de beber cava em retaliação pelas palavras de um político catalão contra Madrid albergar os Jogos Olímpicos de 2012..Para os portugueses, muitos dos quais apreciam "El Toro" e admiram a Espanha, é por vezes difícil perceber a força dos nacionalismos no país vizinho. Ninguém imaginaria por cá um algarvio ou um alentejano a atacar o "Don", o célebre homem da Sandeman que um dia brilhou nas estradas portuguesas, só porque além do chapéu andaluz usava a capa negra dos estudantes de Coimbra.