'Código' de Dan Brown é o primeiro romance Google

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Ponto de partida O Código Da Vinci não é um livro perfeito. Pelo contrário, está cheio de incongruências, meias verdades, lugares-comuns. E, no entanto, mantém-se de pedra e cal nas vendas, multiplicando-se as obras que o tentam dissecar, como, aliás, a sua -Os Segredos do Código, O Que Ainda Não Foi Dito sobre o Código Da Vinci. Como explica este fenómeno?

Há coisas relatadas no livro, tidas como grandes segredos da humanidade, mas que, na verdade, são grandes fraudes. Como o Priorado do Sião , que nunca existiu. Dan Brown não as inventou, porém. Já existiam. Ele limitou-se a pegar nelas, misturando crenças populares e especulações académicas. E fez ficção, muito boa ficção, com boas ideias.

Isso não basta para explicar este fenómeno esmagador a nível mundial o livro, as obras sobre o livro, o filme que aí vem, o merchandising que já aí está, os itinerários turísticos. O amok...

Existem, de facto, outras razões subjacentes a este êxito. Vivemos numa época cada vez mais dominada pela tecnologia, materialista, desprovida de fé, de espiritualidade. Por isso, as pessoas procuram elos que as liguem ao passado da Humanidade. Estão numa busca, como a busca pelo Santo Graal. O livro de Dan Brown insere-se neste caminho. Além disso, o Código está escrito num estilo muito peculiar, que leva o leitor a questionar-se "como é que eu não sabia disto?" É como se, lendo o livro, se entrasse na vida privada de Jesus, se ficasse a conhecer os segredos que a Igreja nos impôs.

Milhões de pessoas em todo o mundo ficaram contagiadas por essa sede de conhecimento algo voyeuristica...

A cultura global é um organismo vivo, não conhece fronteiras, sobretudo no mundo ocidental. A "febre" para encontrar respostas espirituais nestes primeiros anos do novo milénio faz parte dessa cultura global. Faz parte daquilo que, em Física, se chama a Teoria de Tudo, que tenta explicar quem somos cultural, espiritualmente. Abarcar dois mil anos de história, prenhe de segredos, alguns dos quais , por fazerem sentido, passaram de geração para geração. Do género talvez o filho de Jesus e de Madalena esteja entre nós... Quem sabe???

Só a menção dessa hipótese, entre tantas outras, terá provocado uma crise de urticária na comunidade científica...

Os académicos, os professores universitários com os quais falei consideram, de facto, que este livro é de muito má qualidade. Até porque alguns vilipendiam a obra porque há anos e anos que se debruçam sobre os temas abordados no Código sem lograr este tipo de atenção. Mas o mais engraçado é que, de certa forma, Dan Brown deu-lhes uma oportunidade para publicarem ou relançarem as suas obras sobre a matéria, conseguindo um público interessado. E este fenómeno vai ganhar proporções ainda maiores quando aparecer o filme já no próximo ano...

Ainda mais misticismo?

Mais e mais e mais. Para além dos que já leram o livro, que são muitos, outros tantos irão ver o filme e toda esta discussão sobre os temas abordados por Brown surgirá com nova força.

E pensar que estamos a falar de um autor de apenas 41 anos, cuja primeira obra se intitulava, no original, 187 Men To Avoid - A Survival Guide for The Romantically Frustrated Woman...

É um livro bastante divertido, sabe? Uma espécie de "guia de sobrevivência" cheio de conselhos práticos para as mulheres, do tipo "nunca saia com um homem que use um Rolex verdadeiro" e "nunca saia com um homem que use um Rolex falso". Curiosamente, o professor Robert Langdon, o herói do Código, exibe no pulso, não um Rolex, mas sim um relógio do Rato Mickey, personagem-chave do universo da Disney... De Walt Disney, precisamente uma das personalidades apontadas como membro do Priorado do Sião. Aliás, esta referência ao universo da Disney remete-nos para uma das razões subjacentes ao sucesso desta obra junto do público feminino a ausência de sexo entre as personagens principais. A heroína do Código, Sophie Neveu, vale por si própria, pela sua beleza, pela sua inteligência, conseguindo manter uma relação interessante com um homem, Langdon, sem resvalar para o sexo, sem abdicar do seu corpo, ao contrário do que, normalmente, costuma acontecer neste tipo de literatura.

Em tudo o resto o livro é patchwork, uma manta de retalhos um bocadinho de lenda, um bocadinho de crendice, outro de superstição, bem cerzida com linhas de suspense e de mistério...

É isso, mas muito bem feito, elaborado de uma forma fascinante. É, como diz um amigo meu, o primeiro romance Google. Dan Brown, tal como quando estamos a fazer uma pesquisa no Google, salta de um assunto para outro. Dá ideia de que os vários elementos não se encaixam, mas ele consegue dar-lhes uma ligação lógica. Eu li o livro de um fôlego, confesso, tal como na década de 60 já tinha lido outro livro fascinante, The Passover Plot, de Christian Courier, igualmente best-seller. Também se abordava a perspectiva de que Jesus Cristo não terá morrido na cruz, que tomou drogas, provavelmente ópio, para aguentar as dores e que, intencionalmente, procurou surgir como o Messias, dando início ao mito. São ideias que, ciclicamente, cativam seguidores. E com a minha obra, Segredos do Código, mais do que criticar ou elogiar, procurei apontar pistas aos leitores, o mais completas e fundamentadas possível. Para levantarem as pontas do véu, para entenderem melhor as múltiplas e fascinantes questões suscitadas por Dan Brown, a começar pelo sagrado feminino, o misticismo em torno dos templários, os signos e os símbolos, a natureza espiritual e divina do sexo e da fertilidade. O sexo enquanto manifestação do sagrado.

Tanta propensão para o misticismo não se afasta um pouco da imagem pragmática que se tem dos jornalistas, como é o seu caso?

Por hábito, não me costumo debruçar muito sobre estes assuntos. Interesso-me mais por religião em geral, porque no meu país assistimos a um intenso debate sobre o papel da religião na cultura, que se manifesta, nomeadamente, na forma como nalgumas escolas se passou a ensinar a teoria da evolução das espécies. Numa versão muito pouco científica. E perturbadora...

Não há uma overdose de religião nas vidas das pessoas e das nações? No Ocidente, por exemplo, não se romantiza demasiado o tempo das Cruzadas, desconhecendo-se o lado negro que teve para os árabes?

O perigo está nos extremistas de cada uma das religiões, que pensam que só eles têm a Palavra de Deus.

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