'BORDA D'ÁGUA' MANDA NAS PRESIDENCIAIS AMERICANAS

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Os estrangeiros são úteis aos cronistas porque têm costumes bizarros. Com eles, nunca falta assunto. Os indianos, por exemplo, tinham o sati, que valia sempre uma boa história. Infelizmente, a última vez que eu soube de um sati foi em 1987. E tenho de escrever esta coluna todas as semanas. Não é, pois, o sacrifício de uma viúva hindu queimando-se viva com o marido na pira funerária que me traz aqui hoje.

Em compensação há as eleições americanas - essas nunca falham, acontecem todos os quatro anos. Vocês vão dizer-me: mas o que há para contar de esquisito com os americanos, que são tão práticos? Calo-vos já: as presidenciais americanas calham a uma terça-feira. Sempre. Marcar uma eleição nacional para um dia de trabalho no país mais desenvolvido parece-me uma bizarria comparada com a qual o chanzu, o enfaixar dos pezinhos das antigas meninas chinesas, é de bocejar.

É com interesse antropológico que no 4 de Novembro vou analisar, nas filas de voto, os indígenas americanos. Uma terça-feira! Em Detroit, os aborígenes de fato-macaco acabam de apertar uma rosca no modelo H3 de um Hummer e correm a votar; em Nova Iorque, os nativos de fato Armani param os seus sinais cabalísticos em Wall Street e vão votar. Este ano, com as linhas de montagem a andar devagarinho e a venda das acções paradinha, não deve baixar grande produtividade por se sair três horas do local de trabalho. O problema é que os americanos, mesmo nos anos de glória, votam sempre na terça-feira seguinte à primeira segunda-feira do mês de Novembro.

A 4 de Novembro, pois, eu hei-de virar-me para vocês e sussurrar (assim se fala quando se está numa cerimónia de nativos), contando-vos tudo: "Sabem, estes cidadãos do país mais industrial do mundo e com as melhores orquestras sinfónicas votam por regras ditadas pelos camponeses do Kentucky dos meados do século XIX..."

É, as eleições do único país que já mandou um homem à Lua são regidas pelo Borda d'Água. As presidenciais são em princípio de Novembro porque nessa altura já acabaram as colheitas e ainda não vieram os grandes nevões. Sim, mas em que dia da semana? Ao domingo, não, porque é Sabbath, o Dia do Senhor. E era preciso um dia para ir até à vila de carroça, um dia para dar o voto e um dia para regressar. Fazendo as contas, para nenhum desses três dias ocupar o sagrado domingo, as eleições presidenciais só podiam ser terça-feira ou quarta. Mas quarta era dia do mercado. Ficou terça.

Em 1845, foi estabelecido que era assim, até hoje. E tal como há islâmicos que acham que a mulher deve esconder a cara porque o Alcorão o diz e Sarah Palin acha que os dinossauros existiam há seis mil anos porque a Bíblia põe aí a criação do mundo, é na tal terça que se vota.

Para a semana vou falar-vos dos sacrifícios humanos entre os incas. |

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