Muitas vezes A Flauta Mágica, de Ingmar Bergman, tende a ser inscrita na moda do "filme- -ópera" gerada por Don Giovanni (1979), de Joseph Losey. O certo é que o filme de Bergman (passa hoje às 16.00 na Gulbenkian) precede o de Losey em quatro anos, pouco ou nada tendo que ver com as características dessa moda. Para o cineasta sueco, Mozart é, antes de tudo o mais, um pretexto para filmar o palco. Ou melhor: para revisitar uma teatralidade que não esconde os artifícios do seu espaço. Daí, sem dúvida, a pontuação breve, mas fundamental, dos rostos dos espectadores: dir-se-ia que Bergman procura fixar um estado de comunhão em que todos, graças ao palco, podem reencontrar os valores de uma felicidade sem culpas, anterior à hipocrisia das relações sociais. Essa é, afinal, a mais pura magia. Isto sem esquecer que, nas suas depuradas qualidades cinematográficas, A Flauta Mágica é, na origem, um telefilme. Que é como quem diz: a prova real de que a televisão não tem que ser o palco do tédio e da mediocridade.