«Ainda procuro realizar o meu quadro perfeito»

<div>Aos 84 anos, Manuel Cargaleiro, o mais prolixo pintor português, abre não um, mas dois museus. Não foi fácil seleccionar, do seu vasto espólio, as peças que definem a sua longa carreira de ceramista e pintor. </div> <div> </div>
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«Todos os dias pinto, todos os dias sinto a mesma vontade.» Nem era preciso talvez dizê-lo, tendo em conta a sua vastíssima obra e a energia com que se desdobra entre Paris, no atelier da casa na Rue Grands-Augustins, onde vive há cinquenta anos, e Portugal, onde passa cerca de três meses por ano, entre Castelo Branco, a quinta que tem na Costa de Caparica ou a Fábrica Viúva Lamego, em Sintra, onde também trabalha, nos azulejos. Mas Manuel Cargaleiro diz, aos 84 anos, que só se sente tranquilo a trabalhar. E afirma estar «longe do fim de carreira». Mantém uma alegria contagiante, que transpõe para as obras - sejam elas pinturas ou azulejos. Mas diz que não se sente ainda realizado. «Quero continuar a querer fazer a obra perfeita. E isso acho que ainda não consegui.» Quantos quadros já pintou? Nem ele sabe. Já foram tantas as obras que saíram das suas mãos que já perdeu a conta. «A minha obra está no Japão, na China, no Brasil, na Suíça, para onde também trabalhei, e não faço a mínima ideia da quantidade. Devem ter sido, de certeza, mais de três mil quadros e guaches.» Os «cargaleiros», como são familiarmente chamados, têm presença marcada nos mais importantes leilões e são dos que ditam as regras no mercado da arte em Portugal. Os privilegiados têm um na sala. Os outros, podem ainda apreciá-lo em locais públicos: na estação de metro do Colégio Militar/Luz, em Lisboa, no centro comercial Caledoscópio, na estação do metro de Paris Champs Elysées-Clémenceau, no Jardim Municipal de Almada, na fachada da Igreja de Moscavide, no Instituto Franco-Português de Lisboa, na estação de serviço de Óbidos, na auto-estrada do Atlântico, na fonte do Jardim Público de Castelo Branco... A obra de Cargaleiro não mente: ele é um trabalhador incansável. Pinta várias horas por dia e define-se como «um operário como qualquer outro», e por isso trabalha como eles, mesmo aos feriados. «Dia de Natal, Domingo de Páscoa, último dia e primeiro dia do ano, até no dia dos meus anos, tenho necessidade de isolar-me no atelier. Os meus amigos já me conhecem e sabem que é sempre assim.» Quando está entre as tintas e os pincéis perde a noção do tempo. «É frequente nem saber qual o dia da semana...», garante Isabel Dan Mano, sua companheira há décadas. Não usa relógio. Em Portugal, é na Fábrica Viúva Lamego que passa a maior parte dos dias, na pintura de azulejos. Na sua quinta, no Monte de Caparica, tem outro atelier. Uma sala ampla, repleta de móveis cheios de antiguidades e muitos quadros encostados às paredes. Admite que é ali que tem maior isolamento. «Tenho as árvores e as plantas ao pé de mim», diz o mestre. Em Paris, refugia-se no atelier de sua casa até às 17 horas. «Pinto muito pela manhã. Como trabalho muito com o subconsciente, é nesse período que estou mais fresco para criar. De tarde, realizo o que preparei de manhã.» A música só lhe faz companhia em determinadas alturas do ano. Mozart é o compositor preferido. «Sinto uma enorme vibração quando os dias começam a nascer. É a Primavera, aí está a vida de novo presente em tudo o que sou.» Até na sua obra. «Isso é a vida, o movimento», adianta. «Uma vez pintei um quadro ao ritmo de Mozart, na sua composição para flauta e clarinete. Dei por mim estava a seguir com o pincel o ritmo da música - e não é que o resultado ficou genial!» Ao fim da tarde, sai para passear pelo seu bairro, Saint-Germain-des-Prés. «Antigamente, os artistas encontravam-se todos os dias à mesma hora no Les Deux Magots ou no Café de Flore. Era lá que estavam sempre Picasso, Giacometti e tantos outros. Hoje, é um bairro mais turístico», recorda. Na sua volta diária, percorre as galerias da zona para ficar a par das últimas novidades artísticas, segue em direcção aos Jardins do Luxemburgo, onde absorve o ar e as cores da natureza, que depois vemos retratadas na sua obra. A pintura para ele é a própria vida. Foi o que fizeram, diz, os homens das cavernas. «Eles deixaram ir a mão. Fizeram aqueles animais muito irregulares, muito livres. Porque é que a gente pinta? Para provocar nas pessoas uma sensação. Acho que isto é tão interessante que quero passá-lo a outro. Onde noto mais isso é em Picasso, porque tudo o que ele faz é genial, quando ele põe a mão, aquilo sai certo. Aí está o grande cerne da criação artística. Ter muita habilidade não interessa, interessa ter a técnica para poder realizar o que pensa.» Recorda-se de uma viagem com um grupo de artistas, a convite de Jorge Amado, a Salvador da Baía, no Brasil. «Quando lá chegámos, uma menina, que nos entregou uma camisola, dizia: "Deixa o teu coração mandar." Acho que é o que nós fazemos aqui. Se o artista pensa muito no que vai fazer, está tramado.» Custe o que custar, o resultado final da peça tem de ficar exactamente como idealizou. «Tenho quadros que levam sete a oito anos a fazer. Só em Paris, tenho vinte quadros começados. Depois paro quando aquilo não está a sair bem, mas nunca deito nada fora, isso nunca. Posso até pintá-lo de branco, para depois recomeçar por cima.» E mostra um exemplo. «Aquele quadro que está no cavalete, já cheguei a não gostar dele e pintei-o todo de branco. Já tem acontecido os galeristas interessarem-se pelo quadro que estou a pintar e, quando regressam, digo- lhes que o quadro está todo branco. Ou seja, é a minha ideia que prevalece. Estou-me completamente nas tintas para a crítica, não vivo para ela. Tenho de estar em paz com o quadro, a peça tem de ficar a meu gosto.»Ele pode ignorá-la, mas a parte comercial é muito importante na sua obra. «Não acompanho (...) Digo-lhe apenas que vivo em Paris da venda das obras que a galeria faz e em Lisboa do que vendo cá.» E bem pode fazê-lo. Cargaleiro é, desde a década de sessenta, um dos artistas mais cotados no mercado. Tem quadros vendidos em todo o mundo, um museu em Itália, o Museu Artístico Industrial Manuel Cargaleiro, dedicado à relação entre a cerâmica e a arquitectura, em Salerno, por iniciativa da Fundação Vietri sul Mare... Só se pode comprar um quadro de Cargaleiro através de duas galerias que o representam. Em Paris, a Galeria Loeb e em Lisboa, a Galeria Valbom. Mas não é difícil, por exemplo, encontrar na Galeria Santo André, no Porto, peças únicas suas. E Cargaleiro não tem um catalogue raisonné.Apesar deste desprendimento em relação à sua obra, a primeira venda ainda está fresca na sua memória. «Foi um quadro à Galeria Março, em Lisboa, gerida por José Augusto França», recorda. Esta peça estava exposta no 1.º Salão Internacional de Arte Abstracta. Um quadro vendido ao Japão por 180 mil contos (cerca de 900 mil euros) é, até ao momento, o valor mais alto registado. O sorriso acompanha tudo o que Cargaleiro diz. Conversar com o mestre é como folhear um livro, um livro de capítulos, em que cada dia se lê um novo episódio dentro da mesma história que é a sua vida. «Participei uma vez num programa para a RTP com David Mourão-Ferreira em que ele lia poemas e eu fazia desenhos a carvão numa folha de metro quadrado. Fiz uma dúzia de desenhos assim, com aquele ambiente perfeito. Dei-os todos aos operadores de câmara e restante equipa, toda a gente me pediu aquilo, foi muito engraçado.» Agora, está a criar alguns trabalhos para uma exposição em Paris, agendada para o próximo ano. E põe todo o seu empenho em mostrar o espólio que reuniu em Castelo Branco, onde abriu recentemente o Museu Manuel Cargaleiro - é um filho da terra, nasceu na aldeia de Chão das Servas, ali ao lado, em Vila Velha de Ródão. No museu está instalada uma colecção de cerâmica, com mais de duzentos «pratos ratinhos», dedicada à Beira Baixa. Nos vários pisos, estão expostas pinturas, tapeçarias e cerâmicas de autores portugueses e estrangeiros, que Cargaleiro foi adquirindo durante os 54 anos em que viveu em Paris. Regressa sempre a Ródão, por altura das férias. Mesmo a viver em Paris, a sua ligação à região é muito forte. «Nunca pensei vir a ser artista. Esta arte surgiu naturalmente, mas tenho a certeza de que esta região, os objectos, a tradição, a cultura, influenciou muito a minha obra», explica convicto de que não seria o artista que é hoje se não tivesse conhecido os cheiros, os sabores e as cores do Sul da Beira Baixa. Castelo Branco ganhou centralidade com este museu: torna-se na cidade portuguesa onde é possível apreciar o maior número de peças de Cargaleiro. O museu, diz o autarca Joaquim Morão, «é um projecto sobre o qual trabalhamos há cinco anos».Mas, como se trata de Cargaleiro, um museu nunca vem só. Em Novembro de 2012 está prevista a abertura do Museu Cargaleiro no Seixal. Um projecto de arquitectura da autoria de Siza Vieira, amigo pessoal do mestre, para a Quinta da Fidalga. O terreno onde ficará o instalado tem uma área envolvente ajardinada e oferece um panorama deslumbrante sobre o rio Tejo e Lisboa. Uma boa paisagem é do que Cargaleiro gosta e o que o inspira. A luz que dá forma aos objectos e paisagens é o traço mais comum em toda a sua obra. Uma característica que lhe ficou, diz, por ter passado parte da sua infância a percorrer as serras da Beira Baixa. Nasceu na aldeia de Chão das Servas, no concelho de Vila Velha de Ródão, Castelo Branco, em 1927. Ali viveu até aos 2 anos, quando se mudou para a Caparica, altura em que conhecida por outros motivos que não a praia. «O meu pai comprou uma quinta para fazer agricultura. Lembro-me de que tínhamos muitos empregados da Beira», conta. A Beira nunca deixou de fazer parte do seu quotidiano. «Passava férias lá, junto das avós. Os meus pais gostavam de Vila Velha, cheirava bem, a rosmaninho e a esteva. Lembro-me do Verão. Aquela gente enchia as aldeias e era tudo muito fresco. Havia muita fruta e muitos cheiros. As ruas tinham, todas, muito mato, que dava cheiro à aldeia. As pessoas ainda iam à fonte. Todas estas coisas marcam a minha vida.»Ainda hoje não passa sem o contacto quase diário com a natureza. «Sou do campo. Vivo numa cidade urbana, Paris, mas moro ao lado do Jardim de Luxemburgo, onde vou muitas vezes passear. Vou lá para seguir a evolução das flores durante todo o ano.» Nas estadas em Portugal, passa longas tardes na Quinta da Silveira de Baixo, que ainda está lá, no Monte de Caparica. «Antigamente, quando estava cansado de pintar, vinha para cá arrancar as ervas das flores. Agora gosto mais de andar por aqui a passear. Tenho necessidade de ver isto, a natureza. Gosto de ver as plantas crescer, porque isto é a vida.»A paixão pelas artes começou com a tapeçaria, transmitida pela mãe sem que ela se apercebesse. «A minha mãe fazia as tapeçarias à noite e depois dava-as às empregadas quando se casavam. Mas não fazia negócio, até se ofendia se lhe falassem em dinheiro. Houve um casal de franceses que quis comprar-lhe uma peça e tanto teimou que ela disse que o dinheiro seria para a Igreja da Sobreda. Ela detestava que quisessem comprar-lhes as colchas. Dizia que descansava a fazer aquilo.» Da mãe herdou a técnica do patchwork, união de pequenas sobras de tecidos ou panos já usados transformados, numa combinação de formas e cores, em peças úteis de utilização doméstica, como as colchas, almofadas e bolsas.Daí também uma faceta de Cargaleiro desconhecida do grande público: o vício do coleccionismo. Compra tudo o que seja antigo e interessante ou que lhe desperte ideias para transformar a peça. Grande parte deste espólio está guardada na quinta da família. «Colecciono desde os meus 14 ou 15 anos. Com o dinheiro que a minha mãe me dava, ia para a Feira da Ladra comprar azulejos a dez ou 15 tostões. Chegava a casa e olhava para eles. É um prazer olhar para eles! Mesmo aqueles que não estão assinados, os autores não deixavam de ser artistas.» Não frequenta, contudo, feiras de antiguidades. «Se lá vou, toda a gente me conhece e eu não gosto. Gosto mais de descobrir as coisas por mim.»Gosta de descobrir e de transformar. «Um dia, a minha mãe mandou-me fazer uns recados, em 1960. A senhora mandou-me entrar e vi que tinha à entrada um tapete muito velho de trapos, feito de vários bocados de tecidos cosidos uns nos outros. Comecei logo a pensar o que poderia fazer com isso. Ela, envergonhada, aceitou dar-mo, mas só depois de o lavar. Nessa altura tentei aproveitar todos os quadradinhos e fazer uma pintura.» Há cerca de três anos, Manuel Cargaleiro encontrou esta peça no fundo de um baú e decidiu continuar o trabalho mantendo o desenho. A equipa do Museu do Seixal gostou tanto da peça que decidiu que transformá-la na capa do catálogo de abertura do museu. «Como é que um trapo para limpar os pés resultou nisto?», pergunta a rir.O despertar para a azulejaria surgiu muito cedo. É tida, aliás, como o primeiro suporte do pensamento artístico de Cargaleiro, que desde pequeno fazia bonecos de barro em casa, cozia-os no forno do pão da família e pintava-os, afincadamente, para depois brincar com eles. Para chegar ao lugar que ocupa hoje, como um dos artistas incontornáveis e de referência na história da cerâmica em Portugal, Cargaleiro deu os primeiros passos na modelação do barro na olaria de Joaquim Trindade. Em seguida foi trabalhar para Fábrica Santana, mudando-se para a Fábrica Viúva Lamego em 1949, pela mão de Luís Reis dos Santos, que viria a ser, mais tarde, director do Museu Machado de Castro, em Coimbra.O gosto pela pintura surgiu mais tarde, já na juventude, graças a Guy Fino, artista que inscreveu Portugal na lista dos grandes produtores internacionais de tapeçaria e com uma enorme capacidade de captação de artistas para a experiência da tapeçaria moderna. O seu nome está associado às Tapeçarias de Portalegre e tem, por isso, um museu com o seu nome naquela cidade do Norte Alentejo. «Ele pedia-me uns cartões de tapeçaria e eu enviava-os de França », recorda.As recordações de infância e juventude trazem-lhe à memória as cores e o contacto com os tecidos, trapos, colchas, que a mãe fazia em casa, ao serão com as empregadas. Ainda jovem, ajudava no que podia, para não faltar material em casa. «Lembro-me de chegar a Portugal vindo de Paris com malas cheias farrapos dos ateliers de Dior ou Yves Saint Laurent. Uma vez, na alfândega obrigaram-me a abrir o saco e viram aqueles tecidos todos recortados e ficaram a pensar que eu era maluquinho», conta a rir. Depois da tapeçaria, que conhece ainda mal sabia andar, Cargaleiro descobre a cerâmica, em 1945, com 18 anos, depois de algumas experiências em olaria, no Monte de Caparica. «Andava no liceu e um colega disse-me que ia realizar-se uma conferência no Museu de Arte Antiga sobre a pintura holandesa do século xvi, feita por Luís Reis Santos.» Gostou tanto do conferencista que, no final, foi ao seu encontro. «Ele convidou-me para ir a sua casa, em Campo de Ourique, e eu lá fui com uma caixinha com serradura e os meus bonecos, para não se partirem.» Seguiu-se um segundo encontro, desta vez na Brasileira do Chiado, o centro artístico da altura em Lisboa. Ali foi apresentado a Jorge Barradas, ceramista, pintor e desenhador, que o convida a visitar o seu atelier. Estava garantida a sua entrada no mundo artístico. No ano seguinte, inscreve-se na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, embora desejasse seguir a carreira diplomática. Nem a oposição dos pais nem a censura do Estado Novo o demoveram de seguir a carreira artística. «Eu não gostava do regime, já falava com artistas, escritores e pensei seguir a carreira diplomática para fugir daqui para fora. Pensei nisso quando saí do liceu. Por isso, concorri a duas faculdades: a de Ciências e de Económicas e Financeiras, onde havia o curso de Diplomáticas, mas não consegui entrar», recorda.Cargaleiro acaba por não concluir a licenciatura em Geografia e Ciências Naturais, pois a vontade de viver das artes plásticas falou mais alto. Decide candidatar-se à Escola de Belas-Artes, à revelia da família. «Arranjei uma professora judia, que estava em Portugal por ter fugido do Hitler. Essa senhora deu-me lições de desenho para concorrer à Escola de Belas-Artes. O meu pai, quando soube, disse-me: "A partir de agora, só tens cama, comida e roupa lavada. Dinheiro não tens!", porque aquilo era um curso que iria atirar-me para a miséria.»Para ter dinheiro para pagar o material de pintura, opta por arranjar um emprego e concorre a uma vaga na Caixa Geral de Depósitos. «Um director que era da zona da Beira Baixa estava na secretaria da Caixa e perguntou-me porque é que queria trabalhar lá. Disse-lhe que era para lá estar o menos tempo possível. Ele achou tanta graça, e por eu ser da zona dele, que deu-me um lugar numa repartição onde eu podia sair quando quisesse para ir às aulas.» Nessa altura, para arranjar dinheiro, vendia algumas peças de cerâmica com figuras de Nossa Senhora, o menino Jesus e o São José. «Fazia as figuras de uma forma diferente e vendia as peças, de vez em quando, numa livraria de Francisco Cunha Leão. Era a Livraria Guimarães, na Rua da Misericórdia, a mesma que lançou Agustina Bessa- Luís. Ainda me lembro do primeiro livro dela.» Em 1954 é-lhe atribuído o Prémio Sebastião de Almeida, que lhe dá novo reconhecimento, abrindo-lhe as portas do ensino de cerâmica em Portugal.Segue-se uma nova página da sua vida, esta dedicada ao ensino. «Havia uma vaga devido à saída, por reforma, de um professor na Escola de Artes Decorativas António Arroio.» Cargaleiro recorda que foi graças à intercessão de dois inspectores do ensino secundário junto do ministro da Educação da época que aí permaneceu. «Fui nomeado por despacho ministerial professor de Pintura de Cerâmica e fiquei nessa escola oito anos.» Esta escola de Lisboa foi rebaptizada com o nome do ceramista beirão.Durante esse período, fez parte do denominado Grupo do Gelo, uma tertúlia que se reunia no Café Gelo e juntava personalidades como os pintores José Escada, René Bertholo, João Rodrigues, os poetas Herberto Helder e Mário Cesariny. Por essa altura, ocorreu um episódio curioso que impediu, talvez, o grande público de o conhecer mais cedo. Manuel Cargaleiro vê um trabalho que lhe tinha sido encomendado para a Cidade Universitária ser anulado. Os azulejos tinham sido encomendados pelo arquitecto Pardal Monteiro, para decorar toda a zona da Universidade de Lisboa. «Pagavam mil escudos por mês, durante um ano, para fazer os estudos de decoração. Ganhei o concurso. Mas o Estado anulou o projecto para o entregar a outro artista, que tinha convidado, com muita influência política... e eu tinha zero.» Cargaleiro, a trabalhar com a Fábrica Viúva Lamego, já tinha alguns moldes feitos e os operários andaram a trabalhar naquilo durante três anos. Amigo de Cargaleiro, o escritor Ruben Leitão lança o desafio de enviar uma carta de protesto a Salazar. «A resposta que me deram foi que eu não faria o trabalho mas também ninguém o faria.» Alguns dos azulejos acabaram por ser aproveitados. Por exemplo, toda a entrada do centro comercial Apolo 70 tem alguns dos azulejos que eram para a Cidade Universitária.O mestre conta que, para tentar calar a sua revolta, um membro do governo tenta oferece-lhe uma bolsa, através do Instituto de Alta Cultura, o organismo responsável pela condução da política cultural, de divulgação da língua e cultura portuguesas no estrangeiro, durante o Estado Novo. «Ele explicou-me que não tinha bolsa para entregar, mas que tinha uma bolsa oferecida pelo Estado italiano para um português fazer um estágio no campo das artes em Itália.» Foi mal que deu em bem. Cargaleiro frequenta durante dois anos a Escola Superior de Cerâmica em Faenza e tem a possibilidade de aprender mais sobre a arte cerâmica também em Roma e Florença. «Já tinha alguma técnica. Tinha feito muitas experiências, quer em Lisboa quer em Paris», conta. Mais tarde, e por causa de outra bolsa, desta vez da Fundação Calouste Gulbenkian, cumpre um sonho antigo, frequentar um estágio na Fábrica de Faiencerie em Gien, França, e gerida por Roger Bernard. «Passei a fazer muitas coisas, mas nada se vendia», recorda. «Depois veio um alemão e comprou aquilo tudo. Ainda hoje penso onde possam estar essas peças.»É na estada em França que conhece Edouard Loeb, que se interessa pelas suas peças e o convida para trabalhar na sua galeria em Paris. «Loeb acreditou em mim. Muito modestamente, comecei a viver da vida artística depois de o conhecer», admite. Em Paris, instala-se num hotel modesto. «Levava de Portugal uma mala com vinte quilos com conservas, roupas, enfim... Tinha de subir cinco andares com aquilo. Passei muitos sacrifícios, com pouco dinheiro, mas eu queria lá estar.»Em 1957, em Paris, Cargaleiro está no centro da vida artística mundial. Conhece Chagal e priva com Miró, mas recorda que era o mestre do cubismo que mais o intimidava. «Uma vez vi Picasso no talho da minha rua, porque ele morava ao pé de mim. Fiquei tão tímido que não tive coragem de falar com ele. Picasso tinha um ar altivo, não era fácil...» Do outro lado havia uma enorme timidez, traço da personalidade de Cargaleiro. «O meu marchand em Paris fez um livro há pouco. E perguntou-me pelas fotos fabulosas que eu devia ter. Mas não tenho e por uma razão: quando estávamos num grupo de artistas, punha-me sempre lá atrás. Não queria estar na linha da frente. Detesto! Essa não é a minha forma de estar. Gosto de estar no meu cantinho.»«Foi sem publicidade», diz, que conseguiu colocar a sua obra em Itália, França e Portugal. «O que consegui foi sem pressa e sem publicidade. Não me interessa ser mediático. Gosto de viver no meu mundo, tranquilamente e de vez em quando fazer um contacto.» Mas na sua casa em Paris eram frequentes as tertúlias com artistas, muitos deles portugueses, como Vieira da Silva, de quem se torna amigo e é para ele uma influência óbvia. O mestre dá a receita para o seu êxito na capital francesa. «Em Paris vinga toda a gente que tenha originalidade. Ir para Paris fazer o que eles estão a fazer não vale a pena.» Para ele essa originalidade sempre teve que ver com a tradição. «Havia um galerista muito conhecido em Paris que gostava de convidar outros artistas para almoçar e que dizia muitas vezes: "Ó rapazes, vocês têm de fazer sempre a mesma coisa, mas de outra maneira." Ele tem razão, fazer de outra maneira é aplicar a imaginação na criação.»Recentemente, Manuel Cargaleiro descobriu na reserva da Fábrica Viúva Lamego um conjunto de azulejos do século xviii. «São peças que as pessoas já não utilizam, mas se os juntarmos a outros azulejos, de várias técnicas e de vários estilos, conseguimos uma fabulosa composição.» Numa parede do seu atelier está uma dessas composições de azulejos antigos e actuais, num perfeito equilíbrio de desenhos e cores. Um dos azulejos comprova a adaptação da peça: «Composição de Cargaleiro.»«Gosto das artes tradicionais do ponto de vista técnico. Por exemplo, os desenhos para os bordados de Castelo Branco são fantásticos, mas se passassem a ser feitos pela Escola Superior de Artes Aplicadas da cidade e aproveitados com as técnicas do bordado, que são fabulosas, resultariam em peças fabulosas. Temos de saber aproveitar as artes antigas, mas em peças do nosso tempo. É o mesmo que se fizer hoje um painel de azulejo como os do século xvii, ninguém os utiliza», diz. Das ideias já passou à prática. Na sua terra natal, em Vila Velha de Ródão, abriu o Centro de Formação Artística Manuel Cargaleiro, para a produção de peças de tecelagem e tapeçaria com base nos seus desenhos.Azulejos para todos Poucos sabem que Manuel Cargaleiro tem um atelier na Fábrica Viúva Lamego, na Abrunheira, em Sintra, onde são reproduzidos os seus painéis de azulejos. Latas de tinta e pincéis enchem uma pequena mesa, ao lado um banquinho - para os poucos minutos de descanso. «Aqui é que estou bem», diz. Recusa vestir bata. Por isso estraga muita roupa com a tinta. «Prefiro usar as calças. São produtos químicos e a roupa fica marcada, mas que me importa? Prefiro estar à minha vontade.» No atelier não entra ruído, não há relógios e um pequeno rádio serve apenas para decoração. «Não gosto que me interrompam! Só aqui vêm para me chamar para almoçar ou para ir embora, ao final da tarde.»Na Fábrica Viúva Lamego os seus desenhos transformam-se em painéis de azulejos, como aconteceu com o que ornamenta a estação do metro Champs Elysées/Clemenceau, na mais importante avenida de Paris. A sua ligação à Fábrica Viúva Lamego é quase de uma vida inteira. «Sou o funcionário mais antigo», diz com humor. Ali dentro, todos o conhecem. «Um espectáculo, cinco estrelas. Ele está sempre presente junto de nós», diz Manuela Guerreiro, uma das mais antigas funcionárias da unidade, que conhece as técnicas do mestre como as suas próprias mãos. «Os trabalhos dele são diferentes na técnica. Ele aplica muito as pinceladas, há cores de que gosta mais, como o azul-inglês, os amarelos, os vermelhos e que nós conhecemos.»Os painéis desenhados, azulejo a azulejo, pelos funcionários têm a presença quase diária do mestre, que faz questão de acompanhar o trabalho e, claro, assinar o último azulejo com o seu nome e data. Os painéis, pintados peça a peça, são marcados com algarismos, para que a composição, após a saída do forno, não seja afectada. «Aqui não existem decalques. Sigo como se pintasse um óleo, numa linguagem gestual. O painel fica dividido em quadrados, que são os azulejos, fila A 1 e por aí fora e fila B 1 é a mesma coisa. Quando são retirados do forno é só unir as marcações.» O mestre não segue nenhum desenho, apenas a imagem mental. «Ainda hoje, estava em casa e vi um ramo de verdura numa planta que era o caule muito fino e só se viam as folhas. Se eu fizer uma pintura ou uma foto destas folhas, fica giríssimo porque vêem-se estas folhas suspensas sem nada que as prenda. É uma coisa perfeitinha da natureza», define o mestre. A relação de Cargaleiro com a natureza é semelhante à que existe entre pai e filho. E a inspiração artística surge de forma natural, sem ser muito pensada. «Há azulejos que tenho que é só um gesto, isso é rápido. Mas, se forem mais trabalhados, demora mais tempo.»Os azulejos da Fábrica Viúva Lamego são famosos pelas reproduções da azulejaria portuguesa dos séculos xvii e xviii. Diversos painéis da autoria de pintores de renome foram aqui feitos, nomeadamente a obra de Vieira da Silva Paris 1940, que se encontra na estação do metro da Cidade Universitária, em Lisboa. DATAS1927 - Nasce a 16 de em Março em Chão das Servas, em Vila Velha de Ródão.1928 - Muda-se com os pais para a Quinta da Silveira de Baixo, no Monte de Caparica.1945 - Contacto com a cerâmica na olaria de José Trindade, na Caparica.1946 - Matricula-se na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, no curso de Geografia e Ciências Naturais, que dois anos depois abandona para se dedicar exclusivamente às artes plásticas. Ao mesmo tempo, inicia a actividade como ceramista na Fábrica Santana, em Lisboa.1949 - Participa pela primeira vez numa exposição colectiva, o Primeiro Salão de Cerâmica, em Lisboa.1954 - É convidado para professor de Cerâmica na Escola de Artes Decorativas António Arroio. Nesse ano, conhece Maria Helena Vieira da Silva e faz a sua primeira viagem a Paris.1957 - Recebe uma bolsa do governo italiano, através do Instituto de Alta Cultura, que lhe permite visitar Itália e estudar a arte da cerâmica em Faenza, Roma e Florença. Fixa residência em Paris.1959 - É eleito vereador da Câmara Municipal de Almada para o triénio 1960-1963; adquire um atelier na Rue des Grands-Augustins 19, em Paris, onde passa a residir.1974 - Homenagem a três artistas da Beira Baixa: Eugénio de Andrade, José Cardoso Pires e Manuel Cargaleiro, organizada pelo Jornal do Fundão.1980 - Executa o cartão original de uma tapeçaria para o novo edifício- sede da Organização Internacional do Trabalho, em Genebra, por encomenda do governo português.1982 - É galardoado com a Ordem de Santiago da Espada, no Dia de Portugal.1984 - Oferece 41 obras inéditas ao Museu Tavares Proença Júnior, de Castelo Branco, destinadas à realização de exposições itinerantes.1987 - Dirige os trabalhos de passagem para azulejos de uma obra de Maria Helena Vieira da Silva para a estacão do metro da Cidade Universitária, Lisboa;1989 - É galardoado com a Medalha de Ouro do concelho de Vila Velha de Ródão.2004 - Inauguração do Museu Artístico Industrial Manuel Cargaleiro, em Itália, e criação do Museu Cargaleiro, em Castelo Branco.2011 - Abertura do Museu Cargaleiro em Castelo Branco, com instalações ampliadas e onde estão seis mil das dez mil obras, suas e de outros autores, que pertencem à Fundação Cargaleiro.

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