'GRAN FINALE' (E SAUDADES)

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Se fizermos contas, o melhor da carreira de Rui Costa, que ontem se despediu como jogador de futebol, perante mais de 50 mil incondicionais e entre lágrimas e suspiros, nem sequer foi passado no Benfica. Saiu da Luz em 1994, porque o dinheiro da sua transferência fazia falta ao clube; levou na bagagem um título nacional e uma Taça de Portugal. Foi em Itália que ele se tornou enorme: na Fiorentina, primeiro, e sobretudo no AC Milan ("a melhor equipa do mundo", diz Rui Costa, mesmo quando os resultados não o evidenciam), onde ganhou títulos italianos, europeus e mundiais, entre 2001 e 2006. Nos mais de 10 anos que levou de exílio e glória, não se passou uma temporada sem que corressem boatos sobre a possibilidade do regresso ao Benfica. Porquê?

Numa noite de 1997, no bar de um hotel de Milão, conheci Rui Costa. Poucas vezes estabeleci um tão imediato e entusiástico contacto com alguém como com ele. Com uma simpatia e uma alegria desarmantes, o Rui contou histórias, riu-se, deu réplicas rapidíssimas, simulou jogadas, fez passes imaginários; e ambos proclamámos, com juvenil fanatismo, que todos os amanhãs que nos esperavam seriam à medida do clube glorioso que temos no coração. Se eu estava ali como comissário da Expo'98 e ele, gentilmente, como embaixador da exposição em Itália, ninguém deu pela diferença. Éramos apenas dois ferrenhos benfiquistas. E isso, essa maneira tão simples, directa e contagiante de manifestar as suas emoções e os seus afectos, foi o que fez dele o mais amado de todos os jogadores do Benfica, desde que Eusébio se retirou, em meados dos anos setenta. A 13 de Agosto de 1996 protagonizou um dos momentos mais insólitos e grandiosos do antigo Estádio: marcou pela Fiorentina contra o Benfica, desatou a chorar e recebeu a maior e mais longa ovação alguma vez dispensada pela plateia da Luz a um jogador adversário. Foi o ídolo das claques porque, mesmo não estando cá, nunca deixou de estar connosco. Foi a esperança das massas porque, pressentia-se, se ele cá jogasse as coisas seriam diferentes.

Porém, quando voltou, em 2006, muitos pensaram que o seu regresso apenas preparava uma discreta saída de cena. Erro clamoroso: com a idade, Rui Costa ganhou fôlego e o seu futebol decantou-se numa série quase infinita de variações daquilo que o tornara um jogador extraordinário: perfeito controlo da bola, largueza de visão e uma precisão de passe raras vezes igualada em Portugal. Mais: aos 35 anos, Rui Costa "rendia" 90 minutos e não poucas vezes, nestas duas gloriosas épocas que cumpriu no Benfica, ajudou a resolver nos instantes finais, como se o tempo, o do jogo e o da vida, não tivesse passado por ele.

Há quem pense que a pálida carreira da equipa nestes dois anos não faz justiça à sua classe e à sua carreira. Percebo, mas não concordo: porque, quaisquer que fossem as oscilações do colectivo, Rui Costa sobressaiu sempre como o mais esclarecido dos jogadores do Benfica. Fez assistências fenomenais; marcou golos decisivos; contagiou as bancadas; tornou-se o "maestro" e, por isso, após o gran finale da sua brilhante carreira, já nos roem as saudades.