"Quem se vai governando já nasceu de camisa branca"

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"Quem se vai governando já nasceu de camisa branca"

Diz que é um homem de causas, cheio de dúvidas. E em constante interrogação

"As pessoas valem pelo que são e não pelo que fazem. Gostaria de ver uma Igreja politicamente empenhada. A Igreja aburguesou-se. Não precisamos de mais partidos, precisamos é de uma sociedade civil mais exigente e implacável. Temos um país de bananas onde quem se vai governando já nasceu de camisa branca." Eis Henrique Pinto em discurso directo, um discurso difícil de catalogar. Parece estar contra tudo e contra nada. Provavelmente, estará num momento de viragem, para regressar à casa de partida: os Missionários da Consolata.

Mas para regressar precisa de resolver as questões por que deixou definitivamente a congregação, em 2001. As dúvidas começaram em 1994. "Entrei em crise. Comecei a questionar as verdades absolutas da Igreja, a forma como se hierarquiza, o poder que dá ao sacerdote, por exemplo. Porque é que, perante uma sociedade com tantas desigualdades, a hierarquia mantém todos os privilégios?" diz. E, logo de seguida, adverte que não defende que é preciso viver em dificuldades para apoiar os desfavorecidos: "Não sou dos doidos que dizem que a Igreja deveria vender tudo. O que digo é que a Igreja deveria ser testemunho do desapego." Ou seja, tem dificuldade em perceber que alguém defenda a igualdade social e tenha rendimentos elevados. Por isso, diz que não poderia ser do Bloco de Esquerda. Também não se identifica com o Partido Comunista. Sabe é que é um homem de esquerda. Um homem de causas.

A vida civil deu-lhe outra liberdade intelectual, um valor de que tem relutância em abdicar, sobretudo porque foi educado "para converter tudo e todos ao cristianismo". Liberdade para ser a favor dos métodos contraceptivos, dos casamentos e da adopção pelos homossexuais, por exemplo.

Se voltar aos Missionários da Consolata é porque não nasceu para viver sozinho. O ideal seria partilhar uma vida a dois, mas ainda não conseguiu encontrar a outra parte. E tem dúvidas se o conseguirá. "Sendo uma pessoa de causas, teria de encontrar uma pessoa de causas. Se não, é sempre um choque. Há sempre uma cobrança", justifica. E as pessoas com quem se tem cruzado "vivem muito agarradas à terra". Ele vive de forma despegada. O que não quer dizer destituída de bens, mas capaz de deles se desfazer. Está a pagar uma casa, recebe ordenado como director da revista Cais e é investigador e professor da Universidade Lusófona.

Tudo começou há 35 anos, quando Henrique Pinto ingressou no seminário da Consolata em Vila Nova de Poiares. Tinha dez anos. Foi ordenado padre em Fátima, aos 25. Entrou em crise vocacional cinco anos depois. Esteve fora da comunidade um ano, para sair novamente. Desta vez para tirar um doutoramento em Londres, onde viveu entre 1995 e 2001 e trabalhou num restaurante para pagar os estudos. Aprofundou os conhecimentos sobre filósofos que já admirava. Entre outros, recorda Michel Foucault, que dizia: "A Igreja é uma força política." Não viu isso e saiu definitivamente dos Missionários da Consolata.

Enquanto missionário, viveu em Itália, no Quénia, na Tanzânia e esteve em Timor-Leste. O italiano e o inglês são as suas segundas línguas e até aprendeu suaíli (na Tanzânia). Sempre acompanhado de uma viola. Compunha e cantava e acharam que tinha jeito para a animação. Chegou ao topo da hierarquia. Tudo ficou para trás há sete anos. Regressou a Portugal para "agarrar a Cais" em Outubro de 2001. Um ano depois fundou a Universos, uma associação para o diálogo inter-religioso, "entendido como relação apreciativa, respeitosa e crítica entre diferentes tradições religiosas, e outras formas de estar na vida".

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