"Quando a doença se declarou tudo se mostrou dramático"
A seguir ao 25 de Abril, José Afonso compôs o que queria ou aquilo que lhe foi permitido?
Permitido?
Que os tempos permitiam?
Não. Compôs o que queria.
Fez experiências com outras sonoridades e outro tipo de canção.
Isso fez tudo parte da sua criatividade artística.
Lembra-se de quando compôs Grândola, Vila Morena?
Sim, mas esse assunto é conhecido de todos... Ele foi a Grândola num período muito difícil da vida do País, em que não acontecia coisa nenhuma por causa da repressão pura e clara em todos os sentidos, e ficou impressionado com o que viu numa colectividade. Especialmente com duas pessoas que lá se encontravam e que simbolizaram o acontecimento.
Era das canções que gostava?
Não lhe vou dizer o que é que o Zeca gostava e o que não. Era exactamente isso que ele não gostava…
E a Zélia gostava da canção?
Eu também não tenho opinião.
Qual é a canção de que mais gosta?
Pode perguntar, mas não sei dizer.
Não sabe porque gosta de todas ou porque não quer escolher?
Provavelmente porque não quero escolher uma. Penso que é a resposta mais certa, ou a mais adequada.
As canções marcaram-na muito?
Também porque assisti ao fazê-las...
Partilhava o momento?
Pois! É muito difícil e há umas que são mais tocantes...
E como é que ele era a compor? Precisava de estar em silêncio, de ter pessoas à sua volta…
O Zeca não era uma pessoa muito organizada e como tal não tinha uma forma única de estar.
Começava pela música, versos…
Era tudo muito diferente, podia acontecer a qualquer momento e situação. Podia ser uma palavra, uma frase, uma coisa a espoletar a ideia que depois ia sendo construída. Tanto podia ser uma frase musical que vinha à cabeça como escrita.
Inspirava-se no que via e acordava de noite com uma ideia?
Também.
Como é a sensação de assistir?
Por estar tão perto, as coisas são vividas com naturalidade. É a única coisa que eu lhe posso dizer.
É a mais verdadeira.
É a mais verdadeira. Era com naturalidade porque era algo que gostava de fazer... Estava por perto, ia-se assistindo… O Zeca recusava essa história de que os intelectuais estão nas torres de marfim. O "mau intelectual" é que está na torre de marfim porque o outro é uma pessoa comum em quem, por acaso, o pensamento vai num sentido diferente. Era tudo com naturalidade e claro que quando concluía uma coisa ficava satisfeito. E eu também.
Deixou canções por gravar?
Não. O Zeca esteve doente cinco anos e quando a doença se declarou deixou de poder cantar. E, como tal, tudo se mostrou dramaticamente negativo. Todos os dias diferente, cada dia pior.
E aí já não compunha?
…
José Afonso era muito perseguido pela PIDE. Isso obrigava-o a reformular a escrita?
Não. Nunca foi por a palavra ser ou não aceite que deixou de a utilizar. Os seus critérios eram poéticos - era um grande poeta! -e nunca utilizou uma palavra porque não era permitido usar uma outra. É evidente que ao fazer uma música com referência a Salazar, dizer este nome era impossível. Mas também não tinha graça nenhuma dizer Salazar.
Houve uma época em que achou que o espaço para compor e actuar seria mais na Europa que em Portugal. É verdade?
Posso dizer que os espectáculos do Zeca a que assisti, com esse carácter, foram sempre no estrangeiro.
Sentia que havia uma forma mais profissional de cantar na Europa?
Havia condições técnicas para cantar lá fora que aqui ninguém tinha! Havia quem as tivesse mas o grupo de músicos e cantores em que se inscrevia não tinha acesso a isso.
Mas gostava de gravar lá fora?
Só porque os estúdios eram melhores. Não por causa daquela ideia de que lá fora - o que, infelizmente, era verdade - era tudo melhor. No entanto, o Zeca nunca desejou muito sair do País, senão tê-lo-ia feito. Teve várias oportunidades de pensar isso mas quis sempre viver cá no País, nunca quis ir embora. Isso foi uma decisão que ele tomou.
Tem havido reinterpretações das canções. É bom que aconteça?
Acho que é bom que aconteça. Gosto mais de umas que de outras, até posso às vezes não gostar mesmo nada de algumas, mas é uma posição difícil a minha porque tenho sempre um modelo e está sempre presente aquilo que poderia dizer.
Amália interpretou uma…
Sim.
Deveria ser uma sensação estranha ouvir a alegada cantora do regime interpretar a sua canção!
Alegada!... Até podia achar que aquela música não era para ser cantada daquela maneira...
Mas gostava de ouvir as versões?
Só me lembro que achou graça aos Rádio Macau. Divertiu-se, achou graça que tivessem dado outra roupa.
Diz-se que sabia pouco de notas.
Não sabia música.
Nunca fez questão de aprender?
Não. Na música é preciso ter-se muita paciência e disciplina. O Zeca viveu uma época em que não havia escolas de música e também teve uma vida difícil. Tudo isso não predispôs a que tal pudesse ter acontecido no tempo certo. Claro que se soubesse música podia ter resolvido problemas em vez de pedir ajuda a outros.
Ainda ouve os seus discos?
Não muito. Oiço às vezes.
Em LP ou em CD?
O meu gira-discos estragou-se há uns anos largos.
Não ouve muito porque lhe trazem recordações?
Pode ser por isso...
Se não for por isso, é porquê?
É por isso! Eu não sou uma pessoa muito taxativa nas minhas respostas.
Cada música traz uma memória?
Não é assim, não dessa maneira.
Quase todas as pessoas têm memórias de uma canção.
Trazem-me a memória do Zeca. Mais nada...

