"Portugal e a República Checa... entre o mar e a terra"

O homem dos sete ofícios, de artes várias, que se tem dividido entre a República Checa, onde nasceu, e Portugal. Encena uma peça para levar ao palco aos 90 anos.
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O professor, o encenador, o escritor, o poeta, o crítico, o cronista, o realizador... Por onde começar quando se trata de traçar o perfil de Jorge Listopad? O visado não dá pistas, como também não se explica se é mais checo ou mais português! Divide-se entre várias artes, da mesma forma que se divide entre Portugal e a República Checa, "entre o mar e a terra". Vive há 52 anos no País e mantém o sotaque eslavo.

"O sotaque é mais uma forma de sedução", assegura José Artur Pestana, que conheceu Jorge Listopad em 1981, quando este fundou o teatro Universitário da Universidade Técnica de Lisboa. Pestana estudava artes. "O Jorge Listopad é um sedutor, um charme em pessoa. Consegue enredar a pessoa e, de uma forma muito subtil, atrair-nos para os seus projectos. Vai muito pela sedução do discurso", explica.

Deixou-se atrair mais uma vez recentemente e será o único actor do próxima peça encenada por Jorge Listopad, a partir de um conto do escritor brasileiro José Guimarães Rosa, "O meu tio jaguar". E, tal como há 30 anos, todo o trabalho de encenação é feito em simultâneo com o de representação. "Vou trabalhando o texto e ele vai cortando, outras vezes não interrompe, deixa as coisas evoluir em cada um dos actores e aproveita o que há de melhor", conta José Artur Pestana.

Jorge Listopad está entusiasmado com o projecto. E com o recomeço da crónica "O coelhinho" no Jornal de Letras, que interrompeu por motivo de doença. Também escreveu no DN. Doutorado em Filosofia, deu aulas em Portugal de Antropologia. Escreve prosa e poesia, encenou peças e óperas na República Checa e em Portugal, mas também em França, na Alemanha e na Suíça. Fundou a Escola Superior de Teatro e Cinema de Lisboa e a Escola Superior de Teatro e Cinema, dirigiu teatros e associações de escritores. Recebeu prémios e distinções.

O director do JL, José Carlos Vasconcelos, conhece-o há 31 anos, numa cooperação iniciada quando Jorge Listopad pertenceu ao conselho editorial do jornal. "É uma figura rara e espantosa e que está sempre a ter revelações. É um indivíduo com uma grande cultura e capacidade de observação, que vai ao fundo das coisas", descreve.

Uma figura algo misteriosa, sobretudo quando chegou a Portugal, em 1959. Contava histórias de um país, na altura, muito distante, lembrava momentos passados com escritores conceituados da Europa do Leste. Vivia então em Paris, onde trabalhava na televisão pública francesa, após uma carreira diplomática interrompida pelo golpe de estado comunista de 1948, em Praga. Conheceu uma portuguesa, com quem se casou e foi por ela que veio para Portugal, para a RTP Porto.

Mas não foi esse o motivo que deu à revista Ler, na edição de Abril. "[Vim para Portugal] porque era autorizado fumar nos eléctricos. O meu cachimbo gostava de olhar através da janela, pela linha da Foz que acompanhava o Douro. Um ano depois, chegou a interdição de fumar, mas já tinha comprado os sapatos para andanças no Porto."

Verdade ou apenas ironia? Característica que quem o conhece lhe encontra. A que juntam logo a atracção pelas mulheres, o principal alvo da sua sedução. "Ainda não encontrei o homem da minha vida", justifica à mesma revista. Pelo menos quatro paixões. Tem seis filhos, o último dos quais uma rapariga, com 16 anos.

Para o encenador Joaquim Benite, que o conhece desde os anos 70, é "um homem dos sete ofícios". Como pessoa, "e muito engraçado, desconcertante, utiliza muito a ironia, um humor que pode não ser compreendido por alguns, mas que é muito próprio dos checos". O encenador vê nele uma pessoa apaixonada e de convicções, o que pode, para alguns, tornar-se num defeito. Mas que não guarda rancor.

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