"Passou a um metro de mim. Parecia um saca-rolhas..."
É considerado um fenómeno raro, mas ontem houve não um, mas dois tornados em Portugal. Em Tavira, o turbilhão de vento varreu a zona das Quatro Águas, destruindo barcos e atirando mesas e cadeiras pelo ar. Ao largo de Cascais foi avistada uma tromba de água - nome dado aos tornados quando se formam sobre o mar. Bem mais fraca, acabou por não causar estragos. Isto, dois dias depois de um tornado formado sobre o Tejo ter assustado Lisboa.
No Clube Náutico de Tavira, o tornado deixou um rasto de destruição. "De repente, os barcos, que estavam no porto de recreio ficaram uns por cima dos outros, tombados. Foi um pandemónio", contou ao DN um popular. Entre os barcos arrastados estavam até alguns veleiros de grande porte. No total, 25 a 30 embarcações sofreram danos. "Estimamos cerca de cem mil euros de prejuízos", disse João Rodrigues, presidente do clube. E o Campeonato do Algarve de Vela Ligeira, que estava marcado para este fim-de-semana em Tavira, acabou por ser cancelado.
"Foi muito rápido, em poucos segundos, e muito assustador. Ouvi um grande estrondo, o restaurante começou a abanar e vi uma coisa preta. Passou a cerca de um metro de distância. Parecia um saca-rolhas... nem sei explicar", contou Manuela Baptista, cozinheira de um restaurante na doca. O resto da manhã foi passado a pescar mesas e cadeiras da água.
Em Cascais, o tornado não chegou a terra e não causou danos materiais, garantiu o vereador da Protecção Civil municipal, Pedro Mendonça. Por se ter formado e dissipado sobre o mar, este fenómeno é chamado de tromba de água.
O Instituto de Meteorologia (IM) já tinha alertado que a instabilidade atmosférica poderia originar mais fenómenos como o de quarta-feira em Lisboa. Condições que se vão manter até domingo, sobretudo no Centro e no Sul do País, avança ao DN o meteorologista Nuno Moreira.
Por isso, para este fim-de-semana, são de esperar chuvas fortes, granizo, trovoadas. E não se pode afastar o aparecimento de novos tornados. "Existe sempre essa possibilidade, mas é muito difícil de prever", admite.
A instabilidade é causada por uma "depressão complexa", localizada sobre o mar, entre Continente e Madeira. A Primavera, sendo uma estação de transição, como o Outono, é fértil nestas situações", explica Nuno Moreira, lembrando que Abril e Maio são meses conhecidos pelas trovoadas, outra manifestação de instabilidade.
Por outro lado, estes fenómenos são mais frequentes do que se julga, explica Paula Leitão, que investiga os tornados em Portugal, num trabalho de 2003. Só no último trimestre de 2002, por exemplo, a meteorologista conseguiu detectar nove.
Como geralmente afectam uma área muito pequena a probabilidade de serem registados por uma estação meteorológica é muito pequena, acrescenta Nuno Moreira. E muitos passam completamente despercebidos se não houver ninguém por perto.
Segundo a recolha de informação histórica feita pelo IM, de 1936 a 2004 foram registados 42 tornados e trombas de água. A ideia de criar uma base de dados surgiu em 1999, na sequência de um tornado em Vila do Conde.
Desde então, a recolha de dados de campo melhorou e aponta para a existência de mais tornados fracos do que os registos históricos indicavam. Alguns têm percursos curtos, de cerca de um quilómetro, mas outros chegam a fazer 22.
A maior parte é de fraca intensidade - F0 ou F1 na escala de Fujita - e ocorrem entre Outubro e Dezembro.
O tornado mais intenso de que há registo em Portugal ocorreu em Castelo Branco, a 6 de Novembro de 1954, estimando-se que tenha atingido a intensidade F3 (ver caixa). Fez cinco mortos, 220 feridos e destruiu a estação meteorológica local e parte da cidade.

