"O TGV é sinónimo de coesão"

Publicado a
Atualizado a

Entrevista. Alberto Navarro, embaixador espanhol em Lisboa, antecipa os grandes temas de mais uma cimeira ibérica, que hoje começa em Zamora. O diplomata destaca os investimentos públicos como solução para dar a volta à crise e garante que o TGV mudou a face da Espanha, tornando-a mais próspera

Que temas dominarão a agenda desta cimeira ibérica? Será muito marcada pela crise financeira internacional, que afecta também os dois países...

Sem dúvida, estamos no meio de uma crise sem precedentes. Acho que a melhor resposta que podemos dar a esta crise é com maior cooperação e integração entre os dois países ibéricos.

Que medidas conjuntas de combate à crise é que portugueses e espanhóis podem tomar?

Sobretudo vamos relançar ou acelerar os investimentos públicos em infra-estruturas, investimentos que são estratégicos: a ligação de alta velocidade ou do TGV entre Madrid e Lisboa, Porto e Vigo, para 2013 e 2015, no caso de Lisboa-Porto, e depois a ligação Aveiro-Salamanca e Sevilha-Huelva-Faro. Ligações rodoviárias, vamos anunciar um novo gasoduto entre Espanha e Portugal...

E o MIBEL, em que ponto está?

Vamos duplicar a interconexão eléctrica e vamos relançar o MIBEL. É um projecto no qual os dois países ibéricos podem mostrar ao resto da Europa que é possível um mercado único na área energética e da eléctricidade. Como têm os países nórdicos. O processo vai ser bom para Portugal, para as empresas e para os consumidores, porque a energia aqui é mais cara do que em Espanha. A breve trecho, o preço baixa. Neste momento Portugal está a comprar 20% da electricidade em Espanha. A cimeira de Zamora vai anunciar a criação de um regulador único para este ano e vamos duplicar a interconexão e temos ainda o problema das tarifas.

Como é que tem visto a oposição que há em Portugal ao projecto do TGV. Compreende as reservas, até porque este acordo resulta de compromissos degovernos anteriores?

O que posso dizer é que o TGV mudou completamente o nosso país. Para muitos espanhóis, o TGV é sinónimo de coesão territorial e de prosperidade. Neste momento temos 13 cidades ligadas pelo TGV. Todas as capitais de província espanholas querem o TGV. É uma mudança histórica. Quando Felipe Gonzalez decidiu fazer a ligação Madrid-Sevilha, em 1992, teve uma enorme oposição. Hoje temos o Madrid-Barcelona, que foi inaugurado em Novembro, e já ultrapassou aquela que é a maior ponte aérea do mundo.

Em período de campanha eleitoral, investimentos avultados acabam por servir de bandeira política...

Os acordos fazem-se entre Estados. Respeito e sigo de perto os debates, mas não posso interferir. Digo só que me parece que Portugal não quer ficar na periferia da Europa, que devemos pensar que estes são investimentos europeus, com fundos europeus. No caso de Espanha, 80% do investimento no TGV vem de fundos europeus. Em segundo lugar, não falamos só de passageiros. Falamos de mercadorias. O porto natural de Espanha devia ser Lisboa e não Valência. Com o TGV muda tudo. Deveriam fazer também os cálculos de não ter o TGV. Qual seria o custo de não ter o TGV? Para terminar queria dizer que a Espanha já exporta esta tecnologia, como aconteceu agora com a inauguração pelo presidente Zapatero da linha Ancara-Istambul.

José Sócrates apresentou há dias a sua moção ao congresso do PS onde defende um referendo à regionalização. O que pensa da ideia, dada a experiência da Espanha como estado de autonomias?

Esta é uma decisão que compete aos portugueses.

Pergunto-lhe pela sua experiência como espanhol com as autonomias...

Tivemos os últimos 23 anos na Europa comunitária, onde entrámos juntos, que são, para mim, os melhores anos da Espanha. Recebemos muito da Europa. Portugal recebeu mais ou menos o Plano Marshall, nós também recebemos milhões de euros.

Seria mais fácil a ligação entre as comunidades dos dois países com Portugal como país de regiões e a Espanha com as suas autonomias?

O que precisamos agora é de fazer mais coisas juntos. Temos uma das maiores fronteiras da Europa, com mais de mil e duzentos quilómetros. Esta fronteira separou-nos durante anos, Espanha e Portugal viviam de costas voltadas. Antes de estarmos na Europa, a Espanha era o sexto cliente de Portugal, hoje é o primeiro. É preciso aproveitar o que é bom de um lado e do outro. Em Espanha há preocupação com uma baixa do IRC em Portugal, não entendo porquê. É preferível que uma PME que vai fechar e vai mandar gente para o desemprego passe para o lado português. Com PATRÍCIA VIEGAS

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt