"Neste momento falta tranquilidade"

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Gosta do edifício de Rem Koolhaas?

Adoro-o.

É uma obra que divide opiniões.

Quando um statement arquitectónico é tão marcante como este gera sempre opiniões fortes. Acho que a maioria das pessoas está muito entusiasmada, mas há quem ache o edifício demasiado avant-garde. Se calhar queriam algo mais suave.

A Casa da Música (CM) terá uma filosofia própria em termos programáticos ou seguirá algum modelo? Fala-se, por exemplo, das semelhanças com o conceito da Cité de la Musique, em Paris...

É uma óptima instituição, mas menos abrangente do que a CM. Para mim, o modelo mais próximo é o do Sage Gateshead, que abriu em Dezembro no Reino Unido. É também uma extraordinária peça de arquitectura, assinada pelo Norman Foster, com dois auditórios, na mesma, um maior e um mais pequeno, e um grande serviço educativo. Tem como missão providenciar música de todos os géneros para as pessoas de Gateshead e é realmente um exemplo a seguir pela CM.

Tem lá contactos?

Sim, já tive várias conversas com o director, que é meu amigo. Mas talvez seja bom esclarecer que, apesar das semelhanças, eu tenho os meus próprios pontos de vista, e são esses que vão prevalecer na CM. Director diferente, programa diferente. Não será nunca um programa imposto.

Houve quem o pressionasse no sentido de fazer as coisas de uma forma e não de outra?

Sim, houve algumas pressões, mas eu resisti. E é só o que vou dizer sobre isto.

Encara essas pressões como prova do interesse dos portuenses pela cultura?

Não, eu não estou a falar das pessoas do Porto. Claro que é minha responsabilidade providenciar música às pessoas, música a que elas queiram ter acesso. Mas não se esgota aí a minha função. Cabe-me, também, guiá-las até novas experi-ências, coisas que desconheçam. É muito importante esse equilíbrio.

E acha que neste programa de abertura, por exemplo, essas novas experiência existem?

Eu acho que sim. Se vir, temos quatro premières mundiais e uma série de propostas realmente novas. Até no sector educativo, um campo em que temos, por exemplo, Tod Machover, um importante compositor vindo do Massachussets Institute of Technology e que é, também, um expert em tecnologia ligada à música.Vem cá apresentar um projecto interessantíssimo. E para as crianças há uma ópera chamada Momo, que chega de Paris, onde eu a vi. É uma magnífica performance interactiva entre os artistas e os miúdos, uma experiência nova.

Não será tanto assim, já que durante o Porto 2001 esse conceito foi aplicado. Mas está a falar de novidades vindas de projectos conhecidos. Eu pergunto se não encara a CM como um laboratório, no qual acontecem coisas que as pessoas não conhecem de todo.

Claro que isso é muito importante, e agrada-me que tenha usado a palavra laboratório. Absolutamente, acho que devemos fazer isso. Mas não no programa de abertura, embora o projecto do Tod Machover se possa rotular de laboratorial. No futuro, claro que esse será um aspecto privilegiado. Mas lembre-se sempre de que a CM está no princípio, é uma nova aventura. O que não devemos fazer é ser apenas trendy, ou politicamente correctos.

Foi nesse sentido que eu fiz a pergunta.

Eu sei, não estou a acusá-lo, estou é a dar-lhe o meu ponto de vista. Mas nós temos, claro, de investigar profundamente.

Como sabe, é no underground que surgem as grandes revoluções artísticas, sendo depois absorvidas pelo mainstream. Tem pessoas à sua volta que estejam por dentro do que seanda a fazer subterraneamente no Porto em termos musicais?

Tenho a minha equipa de programadores. Não sei, necessariamente, se eles estão infiltrados no underground do Porto, mas não ficaria surpreso. Tenho o António Jorge Pacheco, que vem sendo parte deste projecto desde início, e o Fernando Sousa na área do pop/rock, de que é muito conhecedor. Estou certo de que não lhe é estranho o mundo de que está a falar. A minha filosofia é a de que qualquer coisa que façamos aqui deve ser, antes de tudo, da mais alta qualidade. Todos têm diferentes opiniões sobre o que é boa música. Se lhe perguntar a si, diz-me uma coisa; se perguntar a outro, diz-me o contrário. Então, eu tenho de escolher uma visão. A minha influência condutora radica no que eu acredito que tem qualidade.

Isso aplica-se à área da clássica...

E não só. Essa é a minha área, mas ao longo da carreira conheci grandes artistas de contextos não-clássicos. Sou, por exemplo, um aficionado de jazz. Outros campos já não domino, e é por isso que tenho programadores.

E confia neles?

Mas claro! Numa instituição como esta, em que vamos fazer 200 a 300 eventos por ano, não há maneira de tudo ser como eu quero. Tenho de confiar.

E vai sectorizar a música ou promover cruzamentos?

Quero cruzar, promover essa fertilização, mas não com a obsessão de ter tudo num evento, porque provavelmente não funcionaria.

Está a trabalhar nas condições ideais?

Santo Deus, não!

Falta-lhe tranquilidade, é isso?

De momento, claro que não se pode falar de tranquilidade [risos], até porque estamos quase a abrir. Mas não só. É o terceiro ou quarto quadro político com que eu me deparo num ano, o novo governo está a tomar decisões definitivas quanto à Fundação, irá nomear as pessoas...

Como lida com toda esta instabilidade?

Não lhe vou dar uma resposta política. Para um inglês é difícil...

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