"Não vejam o filme se acham que vão ficar incomodados"

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Afinal, Dan Brown não apareceu ontem na concorridíssima mas muito calma conferência de imprensa de O Código Da Vinci, em que o realizador Ron Howard se fez acompanhar pelo elenco em peso - Tom Hanks, a espirra-canivetes Audrey Tautou, Ian McKellen, Jean Reno, Paul Bettany e Alfred Molina -, e em que o índice de perguntas patetas foi o habitual neste ritual dos festivais: muito alto.

Tirando um jornalista indiano que perguntou a Howard o que achava da reacção invulgarmente hostil da hierarquia católica do seu país a O Código Da Vinci, e de um irlandês que inquiriu se já tinha havido "projecções do filme para a Opus Dei", mais ninguém se mostrou interessado na "polémica" - imensamente alimentada pelos media mundiais - que envolve a fita na sua chegada aos cinemas do planeta. Na resposta à primeira pergunta, o realizador deixou a sua opinião bem clara: "Este filme não é teologia, é entretenimento. É um filme de Verão, uma obra de ficção e um empreendimento comercial." E frisou: "Admito que dada a natureza controversa do enredo, o filme poderá incomodar algumas pessoas. Nesse caso, o meu conselho é: não vão vê-lo se acham que vão ficar incomodados. Perguntem a opinião a conhecidos vossos que o tenham visto e depois decidam ir vê-lo. Ou não."

Para dar bem a ideia do nível destas conferências de imprensa, mesmo em festivais como o de Cannes, a única vez que uma das sete pessoas envolvidas no filme se engasgou com uma pergunta foi quando um jornalista disparou a Tom Hanks: "Tom, porque é que gosta tanto da Islândia?" (Pela sua reacção, Hanks não sabia que gostava.)

O actor foi, aliás, a grande vedeta da conferência de imprensa, pela paciência e pelo sentido de humor com que respondeu às questões mais banais, mais tontas ou mais óbvias que lhe puseram. Até quando uma jornalista chinesa muito estridente e excitada lhe disse que tinha a edição em chinês de O Código Da Vinci para lhe oferecer, e puxou do livro, Hanks sorriu e respondeu: "Eu agradeço-lhe muito, mas duvido muito que perceba uma só palavra." Ou quando um chileno de voz aflautada e inglês manhoso perguntou aos seis actores: "Algum de vocês acredita que Jesus foi casado?", Tom Hanks retorquiu: "Lamento, mas eu não estava por cá nessa altura."

Na sequência, Sir Ian McKellen, que é gay e militante da causa, seguiu o exemplo do seu colega americano, e puxando do sentido de humor, comentou: "A Igreja Católica tem muitos problemas com os homossexuais, e este filme diz que Jesus era casado. Por esse lado não têm que ficar incomodados."

O único padre presente na conferência de imprensa não falou, não tomou notas e no final saiu tão discretamente como tinha entrado. EB

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