Há pouco falámos de como é que lhe aparecia a música. Agora eu gostava de saber como é que aparecem os seus vestidos, como é que escolhe a roupa, qual é o processo que conduz à escolha da indumentária e também ao look que tem em palco..Antes do disco, antes de as pessoas me conhecerem, quando eu ia cantar ao Senhor Vinho já levava as criações do João Rôlo, que é um amigo. Eu entrava no Senhor Vinho e eles diziam "Esta mulher é louca. Quem é esta louca que vem cantar hoje?" Eu gosto muito de moda. Não sou uma fanática, mas gosto. Acho que também faz parte, é uma cultura. E o João foi-me mostrando um mundo novo, que eu fui apreciando, gostando e utilizando nos meus concertos. E as pessoas começaram a falar... E hoje eu já falo muito, já dou muito a opinião do que quero vestir em palco..Acrescenta?.Acrescento muito! Tem muito a ver com os tecidos, o que é que eu sinto....Com as cores também?.Com as cores, com quais é que eu gosto de cantar, com as que eu não gosto de cantar, em que tecidos me sinto confortável, com os que dão para levar em viagem - porque eu levo uma mala pequeníssima!.Tem alguém que leva as outras?.Não, não! Ninguém leva nada, pelo amor de Deus! Nada disso! Eu carrego as minhas coisas. Não é isso. Esta é uma mala que eu carrego sempre comigo. Eu entro num avião e os vestidos andam sempre comigo. Perder a minha mala pessoal, uma escova de dentes, um pente, um perfume... isso eu posso comprar em qualquer lado. Agora, aqueles vestidos feitos especialmente pelo João Rôlo eu não os posso comprar em lado nenhum, portanto eles andam sempre comigo. E na mão..Li que era a Mariza que passava a sua própria roupa antes dos espectáculos....Agora já não passo porque eu e o João arranjámos uns tecidos que são o tipo de um tecido para pára-quedas. E o feitio do próprio vestido é amarrotado. Já não tenho esse peso de passar. Mas durante muitos anos passei os vestidos..Era para ficar mais tranquila quanto à imagem?.Era também uma forma de relaxar antes de entrar em palco. Ficava ali com os meus pensamentos, cantarolava um pouquinho, ia engomando. Era uma forma de relaxar..Muitas das pessoas que estão no mundo do espectáculo têm rotinas. Tem alguma?.Rotineira?.Sim. Algo rotineiro antes de cada um desses espectáculos.Não. Eu acho que de rotineiro só tenho o que como quase todos os dias. Isso é que é rotineiro..Já agora....Eu como quase tudo à base de peixe, saladas, sopas. E há uma coisa que não falha: chá, muito chá!.Tem um cuidado extremo com essa parte?.Eu nasci de seis meses, tenho um organismo muito estranho. Muito estranho, mesmo. Por exemplo, quinze dias antes de eu saber que íamos fazer os coliseus e que tinha de montar o concerto, o meu estômago virou-se ao contrário e eu andava sempre mal disposta e com dor de cabeça. O meu organismo é muito estranho, mesmo. Então eu tenho de ter sempre esse cuidado para poder estar em boa forma e subir ao palco..Que cuidados tem com a sua voz? Como é que se cuida?.Nada! Durmo..Se não se tivesse virado para a música, qual teria sido a sua carreira alternativa? Alguma vez pensou nisso? .Eu acho que nunca escolhi nada. A sério. Nunca foi escolhido, eu nunca pensei que ia tornar-me cantora e pudesse cantar em salas fantásticas como a Ópera de Sydney, ou Carnegie Hall, Royal Albert Hall... Nunca me passou pela cabeça fazer tournées. Nem dar entrevistas, por exemplo! Mas hoje, perto dos 40, começo a pensar. Se a vida desse uma volta e eu tivesse de fazer outra coisa qualquer, o que é que eu gostaria de fazer? Cantar é para mim como respirar. É a minha pele..Chegou a tirar um curso de manequim aos 13 anos. Nessa altura pensou?.Sim, mas eu nunca exerci isso. Acho que foi mais para ter uma confiança, para ficar com mais autoconfiança, porque eu era extremamente tímida e o meu pai achava que eu deveria deixar essa timidez..Mas só fez isso, também, porque se achava uma mulher bonita. Ou não?.Não, nunca. Oh! se vocês soubessem... Eu não me acho uma mulher bonita. Se eu me achasse uma mulher bonita, onde é que eu já estava! (risos) Não, nada disso. Mas talvez gostasse de ter uma taberninha, talvez gostasse de cozinhar. Adoro cozinhar!.Estive a ouvir o seu disco e citava-lhe estas passagens: "vivo muito bem dentro de mim", "a vida, que é só minha, ainda me espera". A última pergunta é: até que ponto este disco é autobiográfico, até que ponto é marcado pela sua vida pessoal?.Todos são marcados pela minha vida pessoal. E quem me conhece melhor, sabe que aquilo que eu canto tem sempre a ver com algo que eu vivi, algo que eu senti, muito de perto de algum familiar ou de uma amiga muito próxima. Eu não posso cantar nada que não possa sentir ou que não sinta. Isso é impossível para mim. Este disco é muito pessoal, e quem me conhece percebe porquê.