"Este 'pó branco' também mata"

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O sal contribui para o aumento dos casos de hipertensão arterial, acidentes vasculares cerebrais (AVC), insuficiência cardíaca, cancro do estômago e osteoporose. No entanto, está em praticamente todos os alimentos, muitos dos quais nem imaginamos, como os cereais. Os europeus consomem o dobro das cinco doses diárias aconselhadas pela OMS e Portugal está entre os piores, segundo um estudo feito a hipertensos. "Este 'pó branco' também mata", alertam os especialistas.

A mensagem sobre a gravidade do consumo de sal em excesso foi passada, ontem, num encontro organizado pela Agência Portuguesa de Segurança Alimentar (APSA), o quarto sob o lema "Comunicar Ciência", para assinalar o Dia Mundial da Alimentação, que amanhã se comemora.

Uma investigação realizada no Reino Unido indica que, se as pessoas reduzissem de 12 para três gramas a quantidade de sal que comem por dia, diminuía em um terço os AVC, o que neste país equivale a 20 500 mortes, e em um quarto as doenças coronárias (31 400 mortes). Apesar daquela realidade, alerta Carla Lopes, do Serviço de Higiene e Epidemiologia da Faculdade de Medicina (SHEFM) da Universidade do Porto (UP), uma das peritas presentes no encontro, não existe prevenção para os riscos do consumo exagerado de sal, ao contrário do que acontece com o açúcar, por exemplo. E as consequências para a saúde pública de uma alimentação salgada são piores do que a ingestão de doces. Mas o Plano Nacional de Saúde limita-se a sugerir a redução do consumo de sal, sem indicar as quantidades e as medidas para o conseguir. "A primeira causa de morte em Portugal, o AVC (30 mil mortes anuais) está mais relacionada com o consumo de sal do que com o de açúcar, portanto a sua diminuição na alimentação é prioritária", justifica Carla Lopes, autora da frase "Este 'pó branco' também mata".

Sobrinho Simões, do Instituto de Patalogia e Imunologia Molecular da UP (IPIMUT), referiu que há três mil mortes anuais de cancro do estômago, o que se deve ao consumo de sal em sinergia com outros factores, nomeadamente de ordem genética. Além de que "a grande maioria das nossas doenças começam muito mais cedo do que se pensa, no útero", devendo ser dedicada especial atenção à alimentação das grávidas.

A Universidade do Porto (SHEFM e o IPIMUT) tem um projecto de investigação, a realizar em três anos, sobre a interacção do cloreto de sódio com a infecção por helicobater no cancro do estômago e que também pretende avaliar a quantidade de sal consumida pela população portuguesa, já que os estudos existentes dizem respeito a grupos muito específicos.

Um estudo europeu da Interselt, em que se analisou a urina a hipertensos de 14 países, indica que os doentes portugueses consomem 12 mg de sal diárias, o que nos coloca entre os três piores, sendo os outros dois a Polónia (12,3) e a Hungria (13,6). Um inquérito da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (UP) à alimentação de adultos indica que estes ingerem 5,3 mg por dia. Entre estes dois resultados estão as estimativas da Autoridade Europeia de Segurança Alimentar, de oito a 11 gramas por dia.

Publicidade. O facto de os portugueses cozinharem as refeições é uma mais valia para a prevenção de doenças que se devia fomentar, defendeu Ana Miranda, técnica da APSA, porque se controla a quantidade de sal. Mas 70 a 75% deste ingrediente provém de alimentos processados, como os cereais de pequeno-almoço, as sopas instantâneas, os enchidos, os molhos, os pré-cozinhadas, as bolachas, os biscoitos e o pão. E, para o evitar, é preciso informação nos rótulos e resistência a apelos publicitários.

Neste sentido, o secretário de Estado de Estado do Comércio, Serviços e Defesa do Consumidor, Fernando Serrasqueiro, disse que o Instituto do Consumidor está a estudar alterações à lei da publicidade, sobretudo a dirigida a menores. "A auto-disciplina não tem cumprido o seu papel", justificou.

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