"É verdade que durante o meu treino nos tanques, que me embruteceu durante o Outono e o Inverno, não se sabia nada dos crimes de guerra que depressa vieram à luz, mas a afirmação da minha ignorância não pode ocultar a consciência de ter estado integrado num sistema que planificou, organizou e levou a cabo a aniquilação de milhões de seres humanos. Mesmo que me pudesse convencer de não ter tido uma responsabilidade activa, sempre ficava algo, que até hoje não se apagou, que com demasiada frequência se chama responsabilidade compartilhada. Viverei com ela até ao fim dos meus dias, isto é certo". .Este parágrafo pertence a Descascando a Cebola, a autobiografia de Günter Grass, em que o autor revela ter pertencido às Waffen-SS nos últimos dias da II Guerra Mundial. O diário El País publicou ontem os fragmentos mais significativos dos capítulos em que o escritor fala da sua experiência militar, enquanto adolescente numa Alemanha à beira da queda. .Grass recorda assim o seu contacto com a Divisão Frundsberg das Waffen-SS, em que foi colocado aos 17 anos, após se ter apresentado como voluntário para os submarinos e sido recusado: "Conhecia esse nome [Frundsberg] por ser o do líder da Liga da Suábia na época da Guerra dos Camponeses e 'pai dos lansquenetes'. Alguém que lutou pela liberdade e pela libertação. Além disso, das Waffen-SS desprendia-se algo europeu: agrupados em divisões, na Frente Leste combatiam voluntários franceses, valões, flamengos e holandeses, muitos noruegueses, dinamarqueses e até suecos neutrais, numa guerra defensiva que, segundo diziam, salvaria o Ocidente da ofensiva bolchevique."..E comenta: "O que eu havia aceitado com o tonto orgulho dos meus anos jovens, quis calar depois da guerra, por vergonha sempre renovada. Não obstante, a carga subsistia e nada a podia aligeirar."