2009 podia ter sido um ano decisivo na sua carreira. O Chelsea, a Juventus e o Barcelona tentaram contratá-lo, assim como o Sporting. Mas foi também o ano de uma lesão que o fez parar durante seis meses....É verdade. Foi um ano em que tudo podia ter mudado, um ano de muita coisa boa e de muita coisa má. A lesão fez-me viver momentos muito difíceis. Foi essa ruptura dos ligamentos cruzados que impediu a minha transferência para o Chelsea, por exemplo, e ainda antes da lesão, só não fui para a Juventus porque o Zenit não aceitou negociar o meu passe por menos de 30 milhões de euros. Foi um ano estranho - podia ter conseguido muita coisa, acabei por ter uma lesão, recuperar em quatro meses e ver-me obrigado a estar parado sete. .O que é que se passou?.O contrato entre o Zenit Sampetersburgo e a seguradora não permitia que eu jogasse ou sequer treinasse nos seis meses após a lesão. Nunca percebi as razões, e por isso ainda mais me custou aceitar a decisão. Só aconteceu comigo. Foi talvez o pior momento da minha carreira..Já recuperado, teve a possibilidade de ir para o Barcelona....Sim, os dirigentes do Barcelona falaram com o meu empresário porque devido à Taça das Nações Africanas iam perder alguns jogadores. Isso foi já no início de 2010. Mas não era uma solução boa para mim - sabia que não seria titular e, portanto, iria estar seis meses sem jogar. Já me bastou o sofrimento por que passei devido à lesão. Sem jogar não sou feliz..A conselho do Zenit ficou em Portugal até poder voltar a competir. Foi nessa altura que surgiu o convite do Sporting?.Não queria ficar parado. Recusava-me a aceitar essa ideia e, por isso, pedi ao meu empresário que procurasse soluções, inclusivamente no mercado português. Houve três clubes portugueses que mostraram interesse e falaram com ele. Mas, que eu saiba, pelo menos, nunca falaram com o Zenit. E o clube nunca me emprestaria a custo zero..Sporting, Sporting de Braga e Marítimo?.Sim, foram esses três..O facto de estarmos a poucos meses do Mundial criou um stress acrescido na paragem forçada?.Muito stress. Aliás, coloquei a questão aos responsáveis do Zenit. Disse-lhes que gostaria de sair durante seis meses e voltar após o Mundial, isto se Carlos Queiroz entender chamar-me. Mas agora essa fase muito difícil foi ultrapassada, estou concentrado na pré-época e nos objectivos do Zenit que são o título russo, garantindo, assim, um lugar na Liga dos Campeões, e a conquista da Liga Europa..De todos os negócios que não se concretizaram qual o que lhe agradou mais?.O Chelsea. Apesar de o campeonato espanhol ser o que mais me atrai, gosto muito da Liga inglesa. Mas também compreendo a posição deles - há que pensar duas vezes antes de contratar um jogador que tem uma lesão..Na fase de recuperação, qual foi o momento em que mais lhe custou estar de fora?.No jogo com o Nacional. Custou--me muito perder esse jogo, voltar a jogar na Madeira. Custou--me ver o Zenit ser afastado da prova, também..Estando presente no Mundial, acredita que 2010 vai ser o ano da sua carreira?.Acredito nisso e espero que aconteça. Tenho condições para fazer um bom trabalho no Zenit, de forma a ganhar um lugar na selecção; se for convocado, espero fazer um grande Mundial e depois, como consequência, um grande contrato. Gostaria muito de em 2010 fazer o contrato da minha vida, se possível na Liga espanhola..Não espera falhar o Mundial....Espero estar lá. Sinto-me bem e tenho três meses para trabalhar..O grupo de Portugal é assim tão difícil?.Há grupos mais difíceis. Já se sabe da excelência do Brasil, que a Costa do Marfim é uma equipa muito táctica, que a Coreia, sendo mais frágil, pode surpreender, mas Portugal tem grandes jogadores, todos eles jogam em grandes clubes e, por isso, é, obrigatoriamente, um candidato ao título. Não podemos perder um lance, uma jogada, uma bola. Mas essa é a nossa obrigação. Depois, é preciso ter um bocadinho de sorte. Sem ela também não há campeões..Rúben Micael já merece uma convocatória?.É um excelente jogador e seria muito bom para a Madeira ter três jogadores na selecção. Está em grande destaque no FC Porto. Ainda agora chegou à equipa e parece que já lá joga há anos. E não esqueço, ajudou à eliminação do Zenit marcando um golo. Não fiquei feliz, mas pelo menos foi com um golo de um madeirense..São já conhecidos os adversários da selecção portuguesa na fase de qualificação para o Europeu de 2012. Prevê uma qualifica- ção mais fácil do que a última?.Uma fase de qualificação nunca é fácil - na última ganhámos jogos em que jogámos menos bem e perdemos jogos que merecemos ganhar. Mas à partida parece-me um grupo acessível..Em 2008 esteve muito perto de se tornar cidadão russo e de participar no Europeu daquele ano pela selecção russa. Acabou por estar presente na prova pela selecção portuguesa. Se não for convocado para o Mundial, vai arrepender-se de ter dado um passo atrás?.De maneira nenhuma. Estive perto, é verdade, de me naturalizar russo e, antes de mais, por uma questão pessoal e familiar. Eu e a minha mulher queríamos adoptar uma criança e uma vez que em Portugal só se pode adoptar a partir dos 25 anos e a minha mulher tinha na altura 23, pensámos adoptar na Rússia. E se nos naturalizássemos, o processo seria mais rápido e fácil para todos, como é compreensível. Além disso, em conversas com o seleccionador russo, ficou claro que teria lugar na equipa e poderia estar no Europeu de 2008 pela Rússia. Entretanto, surgiu a chamada de Carlos Queiroz que me levou a reconsiderar. Estava em causa o País dos meus, o País onde fui criado porque deixei muito cedo a Venezuela e, portanto, não podia deixar de tomar a decisão que tomei. Sem prejuízo de um dia voltar a pensar na hipótese de adoptar uma criança..Ainda em 2008 troca o Dínamo de Moscovo pelo Zenit Sampetersburgo. A transacção é a mais cara da história do futebol russo. Mais do que Rui Costa custou ao AC Milan ou Cristiano Ronaldo ao Manchester United. Foi um preço justo?.Saí do Sporting para o Dínamo de Moscovo por dois milhões de euros e três anos depois fui de Moscovo para Sampetersburgo por 30 milhões. O que posso dizer é que é, de facto, um grande motivo de orgulho. Mas não posso deixar de considerar que é um exagero. A mim compete-me trabalhar todos os dias de forma a honrar a aposta que os dirigentes fizeram..Foi um negócio polémico, que levantou muitas dúvidas, incluindo uma queixa ao Tribunal de Contas da Rússia....Sim, muitos disseram que estava a ser usado dinheiro dos contribuintes mas, felizmente, esses assuntos passaram-me ao lado. Na altura estava feliz, ia disputar a Liga dos Campeões e a Supertaça Europeia, motivo que me levou a trocar o Dínamo pelo Zenit. Foram motivos desportivos que me convenceram e não os económicos porque, em rigor, pouco mais fui ganhar para o Zenit. Mas não me queixo. Tenho um bom contrato e jogo num grande clube..Dois dias depois da contratação, no jogo da Supertaça Europeia com o Manchester marcou um golo. É, até agora, o golo da sua vida?.Foi o golo mais importante da minha carreira, sim. Ganhámos o jogo, marquei um golo e fui considerado o melhor em campo. Foi um dia feliz..Ainda no Dínamo, ganhava vinte vezes menos que jogadores destacados no futebol português como Maniche, Costinha, Derlei ou Seitaridis. Percebia essa diferença salarial?.Não sei se seriam vinte vezes menos, mas que era bastante menos, era. Quanto a mim, nada a opor. Cada um faz o contrato que consegue fazer. Eu, por exemplo, fui ganhar para o Dínamo três vezes mais do que ganhava no Sporting..Os adeptos do Dínamo nunca gostaram daqueles jogadores. .Chamavam-lhes "mercenários" e eles, por sua vez, não se adaptaram ao campeonato russo nem à falta de condições do Dínamo. Mas você resistiu. Como?.Tudo depende da necessidade de cada um. Costinha ou Maniche não se adaptaram porque não precisavam de se adaptar. Eu precisava de dinheiro e, portanto, tive de me adaptar. E tive a sorte de ter tido sempre o apoio dos adeptos que me elegeram o melhor jogador do ano por duas vezes em três anos..O que são condições muito difíceis?.Basta dizer que os jogadores não tinham balneário. Equipávamo--nos e deixávamos as coisas num quartinho do tempo dos Jogos Olímpicos de Moscovo, onde havia apenas uma mesa. Hoje, o Dínamo tem outras condições. Evoluiu muito..Numa recente entrevista ao DN, Rúben Micael salientou a dificuldade de um júnior subir a sénior na Madeira. Consigo foi diferente..Tive a sorte de ter treinadores que apostaram em mim. Cheguei ao Marítimo com 16 anos e dois anos depois estava a jogar na equipa principal por vontade do técnico Nelo Vingada. Uma aposta que continuou com Manuel Cajuda..No Sporting foi mal aproveitado?.A minha vida no Sporting foi atribulada. Conheci três treinadores. Laszlo Bölöni apostou em mim. Com Fernando Santos regressei ao Marítimo; com José Peseiro voltei a Alvalade, estava a jogar, mas surgiu a proposta do Dínamo de Moscovo e o Sporting fechou negócio pelos tais dois milhões de euros. Se fui mal aproveitado, não sei. É passado, e portanto não há muito a dizer sobre isso..Mesmo tendo como objectivo principal jogar na Liga espanhola, gostaria de um dia voltar a jogar em Portugal?.Tenho um carinho especial pelo Marítimo, o clube que me foi buscar à Venezuela e gostava de um dia regressar lá. Fico muito contente com os bons resultados do Van der Gaag [o actual treinador da equipa]. É um amigo, mas é sem favor que digo que é um grande conhecedor do futebol. Com o Carlos Carvalhal, a equipa não funcionava tão bem.