"As pessoas não podem ser íntimas e depois contarem coisas "

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A forma como escreve certos textos mostra que faria umas boas memórias.

Não, pelo contrário! Tenho horror a escrever histórias sobre a minha família! A minha preocupação principal quando escrevi sobre ela foi não ofender ninguém e confirmar com o máximo de pessoas, sobretudo com os meus tios, o meu pai e os que naquela altura representavam a família. Escrever sobre a família é muito perigoso. Eu não sei se não tenho um primo que anda aí a dizer que é conde. Nada nos livra disso, percebe? O meu critério foi saber se as pessoas que representavam a minha família estavam de acordo que eu dissesse estas coisas. Acho que ir além disso não é permissível.

Nunca sentiu vontade de fazer a sua história, de contar as suas vivências?

Não, eu contei uma coisa e o Batista-Bastos reagiu logo com uma coluna. Aí, a responsabilidade e a interpretação são minhas, mas, se for em família, não. Qualquer pessoa tem direito à discrição. Quando os meus pais morreram, eu e a minha irmã tivemos dois critérios: separar a correspondência de pessoas com importância na vida política e cultural e ver se essas cartas tinham recordações pessoais. E não lemos as outras, porque não acho que tenha, em nome da história, de ir ler a correspondência pessoal dos meus pais. Eles guardaram aquilo, não sei porquê, mas não tínhamos o direito de investigar a vida pessoal deles.

Regressemos, então, às suas memórias.

Eu não acho a minha vida interessante. Nem creio que as coisas que possa contar sejam muito interessantes.

Mas viveu momentos políticos importantes e teve cargos.

Pois vivi, mas, a não ser que eu faça - que nunca farei - uma pequena história do A e do B, do que fizeram e disseram, a não ser que entre pela indiscrição, as coisas a que eu assisti e fiz não são, por si sós, o suficiente para umas memórias. Ajudaram-me a compreender muitas coisas, educaram-me muito, mas só isso.

Mesmo não entrando pela indiscrição, teria muito que contar.

Se eu fizesse isso, tinha de ser tão bem escrito que não sei se sou capaz. Umas memórias precisam de um tom e de uma sustentação e, principalmente, de uma ideia claríssima sobre o que é que se vai dizer, o que é que se pode dizer e o que é que não se pode. Eu tendo a achar que se pode dizer muito pouco porque as pessoas não podem ser íntimas e amigas do A, B e C e depois contar coisas sobre eles! Aos meus amigos digo muitas coisas presumindo confiança e ficaria muito espantado se a violassem. Portanto, as memórias têm de ter objectivos muito bem definidos, que devem ser redefinidos a cada episódio. Por outro lado, como comecei por dizer, não acho que a minha vida seja assim tão interessante. O que eu podia fazer era uma reconstituição da época…

A Zita Seabra já o deve ter desafiado!

Nem precisou, porque eu às vezes digo: "Um dia destes escrevo." Ela diz-me: "Não escreves nada." E eu: "Escrevo, escrevo." Mas isto são coisas que se dizem, não são forçosamente coisas que se fazem.

Quando será o dia em que essa frase, "um dia escrevo", se tornará realidade?

"Um destes dias vou passar um mês à Madeira" tem o mesmo compromisso.

E o retrato de época com a sua vivência?

O problema é que as pessoas acham que hoje escrever memórias não é fazer o retrato da época. É, com algumas indiscrições eventualmente - que são necessárias ao retrato da época -, mas os que as escrevem acham que se sentam ali em frente ao computador e redigem como se fosse para uma revista. Isso não são memórias. E, para reconstruir uma época, é preciso escrever muito bem. Eu não sei se escrevo bem. Há muitas maneiras de escrever bem, há escrever bem para uma reportagem, para uma coluna, e há escrever bem para um livro de história. E depois há outra natureza de escrever bem, não são escritores as pessoas que só escreveram panfletos políticos e artigos para jornais e que depois escrevem umas memórias…

Dê um exemplo?

O Trotski. Ele nunca escreveu senão panfletos, mas as suas memórias são um grande livro. Literariamente, é um dos grandes livros da literatura russa e do que eu conheço é um dos grandes livros da minha vida. Se tivesse de escolher 20 ou 30 livros, esse estava lá. A quantidade de políticos que escreveram livros que não se podem ler, a quantidade de jornalistas que escreveram livros que não se podem ler? Contra o exemplo do Trotski, eu vou começar a escrever agora? Se ele conseguiu, eu também consigo. Se o Cristiano Ronaldo é o Cristiano Ronaldo, também posso ir lá marcar os golos. É ridículo, não é?

Quando fez uma crítica demolidora ao livro de Miguel Sousa Tavares estava contra os que escrevem sem estar habilitados a fazê-lo.

Não é habilitado, não foi essa a crítica que eu fiz ao Miguel.

Mas ele entendeu-a assim!

Não, acho que não.

Eram quatro páginas de jornal a dar pancada...

O Miguel não reagiu àquilo, houve outras pessoas que o fizeram por ele e foram elas que deram origem a uma polémica idiota, que já está ultrapassada.

Polémicas que os seus artigos habitualmente provocam!

Estávamos a falar de livros...

Sim...

Eu tenho a capacidade de escrever, não sei é se tenho a capacidade de escrever histórias. Não sei se tenho a capacidade de escrever mais alguma coisa para além disso.

Com a sua idade, já se tem noção do que se é capaz.

Não, nunca se tem a noção enquanto não se experimenta. E mesmo quando se o faz só se tem noção muito depois. Acho que sou capaz de escrever boas reportagens, as colunas e sobre história. Para passar à fase seguinte, não sei. Posso vir um dia a tentar. Depende do tempo que viver, do estado de espírito que tiver…

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