"A sida deixou de ser visível. Saiu de moda"

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Quando Amílcar Soares disse à médica que queria fazer o teste da sida, ela chamou-lhe louco. Mas no dia em que recebeu os resultados tinha um ar grave. "Percebi logo que o resultado era positivo", conta Amílcar, 51 anos, seropositivo há 20.

Na altura, em 1986, quando o pouco que se sabia da sida em Portugal chegava através das revistas estrangeiras e de boatos nem sempre confirmados, ele foi um dos primeiros a fazer voluntariamente o teste de VIH, porque era dador de sangue e porque tinha uma ideia sobre os comportamentos de risco. Hoje, o fundador da associação Positivo não se cansa de avisar: "É importante fazer o teste, não para entrar em pânico mas porque quanto mais cedo se souber, mais cedo se pode iniciar a medicação."

A Comissão Nacional de Luta contra a Sida tem 20 CAD - centros de aconselhamento e detecção precoce do VIH em todo o País que, além de aconselhamento, permitem o acesso voluntário, confidencial e gratuito ao teste de VIH. O número de pessoas que recorrem a estes testes tem aumentado de ano para ano: em 2000, fizeram-se mais de 2300 testes; dois anos depois as colheitas aumentaram para quase seis mil; e em 2004 foram feitos mais de 8700 testes. Estes números não incluem, obviamente, os milhares de pessoas que fazem o teste da sida noutros laboratórios. No ano passado, mais de 23 mil pessoas foram atendidas nos CAD. Destas, 11 539 fizeram testes de VIH, por suspeitarem estarem infectadas ou apenas como medida de precaução, como se confirma pela baixa percentagem de resultados seropositivos: 1,85%.

Foi há 25 anos

A 5 de Junho de 1981 o Morbility and Mortality Weekly Report, um jornal médico publicado pelos centersfor disease control, nos Estados Unidos, publicou um artigo sobre cinco homens homossexuais de Los Angeles que desenvolveram um tipo raro de pneumonia. Foi a primeira vez que o mundo foi alertado para a doença que mais tarde ficaria conhecida como sida - síndroma da imunodeficiência adquirida, causada pelo VIH.

Em Portugal, em meados dos anos 80, falava-se da sida "à boca pequena", lembra Amílcar Soares. Quando soube que era seropositivo, pensou que não teria mais de dois anos de vida. "Porque era o que se sabia, todas as pessoas que descobriam que tinham sida morriam pouco depois. Hoje sabemos que isso acontecia porque as pessoas só descobriam que estavam doentes quando tinham uma primeira infecção, quando a doença já estava tão avançada que era difícil fazer algumas coisa."

Combater a ignorância

Na parede por trás da sua secretária, Margarida Martins, fundadora da Abraço, tem um painel repleto de fotografias, a cores e a preto e branco, de crianças e adultos, famílias felizes. "São os meus mortos e os meus vivos", comenta. Foi ao acompanhar a doença e a morte de um amigo que, em 1991, Margarida Martins tomou consciência da necessidade de fazer alguma coisa por estes doentes. Combater a ignorância e o preconceito sempre foi uma prioridade. Num tempo em que não havia Internet e em que ainda se achava que a sida era uma doença dos homossexuais e das prostitutas, as campanhas para o uso do preservativo causaram polémica.

Depois do período do medo, seguiu-se uma fase de aceitação. A doença existe mas pode ser controlada, quase sempre. O perigo reside aí - "A sida deixou de ser visível, não está na cara, não se fala dela. Saiu de moda", acusa Margarida Martins. "Eu só sirvo de exemplo para mostrar que é possível sobreviver, mas a mensagem não pode ser que é fácil, que não faz mal estar infectado", alerta Amílcar Soares, deixando um aviso aos jovens que já não assistiram à "mortandade" dos anos 80.

A sida ainda mata

"Ainda há muita gente a morrer de sida", garante Amílcar Soares. "Porque não tomam a medicação como deve ser ou a medicação é rejeitada ou o seu organismo chegou a um estado que já não aguenta. Quanto mais velhos estamos, mais frágil é o sistema imunitário."

Quase 15 anos depois da fundação da Abraço e "tantos milhões gastos em campanhas e acções no terreno", Margarida Martins angustia-se por ver que Portugal é o país da União Europa com a mais elevada taxa de incidência de VIH na população: 79,6 casos por milhão de habitantes, segundo dados de 2004 do Centro Europeu para a Vigilância Epidemiológica da Sida (a Espanha, que ocupa o segundo lugar, tem 43 casos; o Reino Unido tem 13,6). "A prevenção continua a ser a grande aposta e a grande necessidade", diz Margarida Martins. "Se não houver prevenção, vão continuar a aparecer mais casos." E o dinheiro que não se gasta hoje em prevenção será gasto, mais tarde, em tratamentos.

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