"A grande tragédia da Ilíada é a paz como impossibilidade"

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Quando traduziu a Odisseia, disse que estava a realizar um sonho. E o que é que o levou a traduzir a Ilíada?

Só percebi que tinha de fazer a Ilíada depois de acabar a Odisseia. Achava que não era capaz de me meter numa coisa tão grande.

Demorou cinco anos a traduzir a Odisseia e dois na tradução da Ilíada...

Mas já vinha com a gasolina toda.

A Odisseia preparou-o para a Ilíada?

Sim, totalmente. Nunca seria capaz de traduzir a Ilíada se não tivesse feito a Odisseia. A tradução compacta demorou dois anos, foi um contacto diário com mortes, com sangue, com esse viver no extremo... Isso cria uma relação diferente com o texto, com a noção de morte. O poeta precisa de criar esse mundo de horror para contrapor o mundo humano, o mundo da paz que não existe mas que se deseja mais do que qualquer coisa. A grande tragédia da Ilíada é a paz como impossibilidade. Acho que a vida humana é Tróia. Uma cidade sitiada, com a violência e a crueldade a crescer. É o grande enigma da nossa civilização. Está tudo por resolver como no tempo da Ilíada.

Qual é a grande dificuldade que este poema coloca a um tradutor?

Em primeiro lugar, a extensão. É preciso muita força de vontade, muita disciplina. Mas a grande dificuldade é saber que as traduções ficam sempre muito aquém da beleza do original. Por outro lado, é um texto que se presta a ser traduzido. Pelo menos senti isso, senti o encontro total, como não tinha sentido na experiência de traduzir tragédia grega. Acho que as minhas traduções ficam por aqui porque não vou encontrar nada que esteja ao nível de Homero, nada com uma linguagem que me satisfaça tanto como aconteceu com a Odisseia e com a Ilíada. Acho que foi o meu contributo para a tradução das línguas clássicas. Mas se há muitas dificuldades, haverá também muitas 'facilidades' no sentido em que, por exemplo, não é tão difícil como traduzir um diálogo de Platão, porque a própria língua é mais arrevesada.

E de que se fala quando se fala da linguagem homérica?

Numa definição linguística, é uma forma de grego, uma amálgama de vários dialectos do grego. Um pouco como se eu escrevesse numa mistura de português, catalão e galego. É uma espécie de salada de dialectos e isso ajudou a que fosse compreensível para todos os que falavam grego. É muito diferente do grego da tragédia, do grego da filosofia. Do ponto de vista poético é uma linguagem de uma enorme simplicidade. Nas palavras, nos efeitos, o que contrasta com a grande sofisticação da concretização desses efeitos poéticos.

Refere-se à harmonia, à música dessa língua?

Sim, sobretudo em grego.

E é possível transmitir?

Por vezes consegue-se, mas não nos 16 mil versos que compõem a Ilíada, nem nos 12 mil da Odisseia. Mas na Ilíada há alguns versos em que acho que consegui.

Por exemplo?

Ah... Acho que o leitor quando chega a esse verso sente. Há uma musicalidade diferente. Está sempre no original, mas na tradução nem sempre é possível encontrar palavras portuguesas que, juntas, dêem a música que está no grego. É a questão da musicalidade que cada vez mais me toca mais na poesia da Ilíada e da Odisseia. Esse apelo que faz aos sentidos e às emoções.

E como é que se encontra equivalente português para uma língua que Homero criou há quase 3 mil anos?

É um desafio semelhante ao dos tradutores gregos modernos. Eles têm uma necessidade de modernizar o texto, porque a maior parte dos gregos não consegue ler a Ilíada e a Odisseia no grego antigo original. Nós temos de arranjar códigos que tornem isso possível. Da minha parte foi muito intuitivo. Deixei-me levar pelo que sentia que ficava bem e por muito estudo.

Leu a primeira tradução renascentista, encomendada por Petrarca?

Sim, tenho em casa. É muito interessante, mas essas tradução anteriores são muito menos fiéis.

Não o ajudaram?

Não. São recriação a partir de Homero. Aquilo não é, de forma alguma, a Ilíada de Homero.

Isso tem a ver com uma forma diferente de encarar a tradução?

Sim. Nessa altura, os tradutores traduziam para pessoas que podiam também ler o livro no original e a tradução era uma espécie de jogo literário, jogo poético. Hoje, a minha obrigação é traduzir tudo o que está no original da maneira mais fiel e literal possível, porque os leitores que vão ler a Ilíada, na sua esmagadora maioria, não vão ler no original. Tenho uma responsabilidade muito grande que não é fazer uma fantasia à minha maneira, mas exactamente o que está no texto grego. Esta tradução não é útil para o leitor contemporâneo se não for absolutamente fiel.

Umberto Eco, num livro sobre tradução editado agora em Portugal, fala de um "quase" que fica... Concorda?

Sim, há um 'quase' que aqui é quase nada.

É quase tudo Homero aqui?

É tudo Homero aqui.

Não há a marca Frederico Lourenço?

Não sei se haverá muito. Acredito que se outra pessoa vier traduzir a Ilíada possa fazer coisas um bocadinho diferentes do que faço, mas se traduzir de maneira muito, muito fiel à letra, não fará muito diferente da minha.

Na introdução à Ilíada fala da tradução brasileira de Haroldo de Campos como uma das mais bem conseguidas para português. Falamos de recriação...

Isso é diferente. E digo que é das mais interessantes porque, não sendo absolutamente literal, consegue ter uma extravagância na maneira de pôr as palavras, uma chispa bastante homérica. É um texto muito forte, muito convincente. A tradução dele é admirável, mas não é útil para quem não saiba grego.

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