Ursula Meier, cineasta franco-suíça, filma uma família à beira de um ataque de nervos: vivendo à beira de uma auto-estrada, eles são uma espécie de sobreviventes da sua própria loucura.Home é um retrato realista de uma família contemporânea ou uma fábula sobre a evolução do nosso mundo?.É uma fábula contemporânea sobre a família. A abertura da auto-estrada, um mundo barulhento, perigoso, poluente e ameaçador, funciona como revelador de conflitos e doenças profundas. A fim de manter a unidade e a coesão familiar, cada personagem esconde os seus sofrimentos, "descendo" ao interior de si mesma, mergulhando na sua própria loucura..Nesse sentido, Home será um filme nostálgico ?.Não creio, de modo algum, que seja nostálgico. Quis mostrar uma família que se ama, porque Home é, antes do mais, um grande filme de amor. Até onde podemos ir por amor? Eles amam-se, talvez até demais: fundem-se entre si, como na cena em que dormem todos juntos, uns sobre os outros, no único quarto virado para o campo e, por isso, mais silencioso..Considera que há felicidade nas suas personagens? Ou esta é uma história de desespero absoluto ?.No começo, a família vive num pequeno paraíso, longe do mundo. O certo é que mostra já sinais de desequilíbrios, como a irmã mais velha de 18 anos que passa os dias a apanhar sol e a ouvir heavy metal altíssimo. Ninguém lhe diz: "Mexe-te! Vai arranjar trabalho! Põe a música mais baixo!" O mesmo se pode dizer da estranha mãe, interpretada por Isabelle Huppert, que nunca sai de casa, a não ser para ir esperar os filhos à paragem do autocarro. Home não é um road movie, mas a sua imagem invertida: a viagem é para os outros....Como encontrou o cenário ? Alguma vez imaginou fazer o filme num estúdio fechado?.Deliberadamente, o filme não é datado nem localizado. Procurámos na França, Bélgica, Suíça: estradas abandonadas, pistas de aeródromos militares, auto-estradas em construção... Até que demos com este cenário na Bulgária: possui a abstracção necessária a uma fábula, mas é também realista e universal. Era uma estrada larga, pouco arranjada, que se estendia por 2,3 km, tinha sido alargada para servir de pista para os aviões que regavam as culturas à volta. Pudemos alterá-la, alcatroá-la, desenhar linhas brancas, colocar barreiras de segurança e pôr carros, caravanas, motos, camiões... Na cena das férias, utilizámos um máximo de 300 carros! Quanto à casa, foi totalmente construída: funcionava como um estúdio gigante, mas ao ar livre. Normalmente, numa rodagem, os assistentes preocupam-se em cortar a circulação por causa do barulho. Connosco, era ao contrário. O meu primeiro assistente ordenava aos carros: "Motor!" E de facto era: "Motores!".Como é que a equipa conviveu com essa situação?.Embora numa escala menor, como é óbvio, técnicos e actores viviam como as personagens. Na parte final, os alimentos tinham realmente apodrecido, o cheiro era horrível, havia ratos na casa e toda a equipa se coçava por causa da poeira. O espaço estava reduzido por causa das camadas de isolamento, o calor era imenso e o ar começava mesmo a faltar... Acredito que o facto de termos rodado em situação quase real ajudou actores e técnicos..Porque escolheu Isabelle Huppert? O efeito da estrela era importante para si?.Estou-me sinceramente nas tintas para o "efeito-estrela" que, por vezes, pode jogar mesmo contra um filme. Acontece que considero Isabelle Huppert uma das nossas melhores actrizes. Escrevi o papel da mãe a pensar nela. A mãe é o nó daquela família. Não sabemos nada do seu passado, mas era preciso sentir que, se a família vive num lugar tão bizarro, é por causa dela. É também por causa dela que não se vão embora quando a auto-estrada abre. Uma actriz como Isabelle Huppert é alguém que permite fazer sentir tal personagem em profundidade, sem necessidade de longos diálogos.