A nova geografia global

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Na sociedade ocidental democrática, que partilha genericamente os mesmos princípios, valores e instituições, estamos em nova fase de adaptação. Previsivelmente, não falamos de um par de anos, mas sim de uma década.

Esta visão ficou bem patente numa recente apresentação de Luís Amado, ex-ministro da Defesa, de Estado e dos Negócios Estrangeiros, na AESE Business School. Na ocasião, chamado a pronunciar-se sobre os "Principais conflitos internacionais e a economia portuguesa", desenhou dois blocos opostos, no hemisfério Norte. Contudo, os limites e as lideranças não seriam exatamente os mesmos do período posterior à Segunda Guerra Mundial. Essa reorganização mundial vai confrontar os EUA com a China: um bloco Euro-Atlântico - EUA e Europa - e um bloco Euroasiático, que junta a Rússia e a China com os seus países satélites. Neste segundo bloco, as fortes sanções impostas pelo Ocidente à Rússia retirar-lhe-iam o protagonismo das últimas décadas, não obstante a muito provável próxima reeleição de Putin, impondo-se a liderança de Xi Jinping, a caminho de um "inesperado" terceiro mandato.

Desde logo, surpreende a presença do continente europeu nos dois blocos, mas com uma nova "Cortina de Ferro" nas fronteiras dos países bálticos e a passar pela Ucrânia, aceitando-se uma redução da sua extensão, a Leste, em ordem a congelar ou pacificar essa atual frente de guerra. E essa separação também poderá incluir uma Palestina a Leste de Israel, imposta pelos blocos.

Nesta mudança, sublinha-se que a atitude da nova liderança chinesa é muito diferente da assumida pela União Soviética e Rússia, apoiada no potencial militar e, sobretudo, na sua condição de potência nuclear. Ora, num renovado mecanismo de dissuasão nuclear incluindo a China operacionalmente, essa sua anterior predominância esbate-se desenvolvendo-se um rearranjo de poderes mundiais, com a inclusão de outros protagonistas como Índia, Coreia do Sul e Paquistão (i). Além disso, a China traz novos fatores culturais, anteriores genericamente aos europeus, como o respeito mútuo, a relação pessoal e a busca da harmonia, com relação a uma transcendência vaga e comunitária, não pessoal.

Face a este confronto, pode ser admitido um terceiro bloco "não alinhado", ao Sul, ainda com esse nome do final do século XX, tendo novas e diferentes ferramentas diplomáticas, estando aberto à colaboração com ambos e fortalecendo-se com contrapartidas variadas. Neste panorama, insere-se uma potência gigante em população, a Índia, mas que ainda não tem estruturas militares e de projeção que possam competir com as lideranças referidas.

Será neste terceiro bloco que Portugal pode desempenhar um papel relevante pelas suas ligações históricas, longe dos saudosismos, envolvendo a África e a América Latina, com uma posição ativa na União Europeia.

Como confirmação deste desenho, olhemos para a reunião extraordinária, realizada nos dias 11 e 12 de novembro, que reuniu a Liga Árabe e a Organização para a Cooperação Islâmica (OCI) em Riade, na capital saudita, sendo a primeira vez, numa década de guerras e rebeliões, em que o país anfitrião, Egito, Irão, Palestina, Turquia e Síria estiveram juntos. Uma discreta presença da China terá sido importante para atenuar um clima bélico agressivo, que faria espoletar uma guerra.

Estas conferências de especialistas fazem pensar e deixo aqui três reflexões. Com um mesmo alinhamento de atenuação de animosidades, ainda em novembro, decorreu o primeiro encontro entre Joe Biden e Xi Jinping no espaço de um ano, em São Francisco, como resultado de uma série de reuniões entre representantes dos dois governos nos últimos meses, indicando o desejo de Washington e Pequim estabilizarem a relação e prevenir um desfecho que muitos especialistas considerariam inevitável, a Armadilha de Tucídides (ii), na qual a rápida ascensão de uma nova potência coloca em risco o equilíbrio de poder estabelecido, gerando medo e insegurança na potência dominante, frequentemente resultando em confrontos agressivos. Nesta situação, muitos observadores veem Joe Biden a carregar o mundo às costas, porventura, uma carga excessiva para um octogenário.

Neste contexto de certa atenuação, como inserir o ataque relâmpago do Hamas a Israel, com um múltiplo impacto mundial porventura mais grave do que o da Ucrânia? A existência de novas forças ideológicas com capacidade de projeção que têm agendas próprias não alinhadas com os dois blocos apresentados como dominantes. Tanto quanto se pode apreciar, este novo foco bélico não interessava nem ao bloco euro-americano nem ao asiático, podendo apenas ser útil à Rússia que pode atacar a Ucrânia mais impunemente.

Sem deixar de recordar o Papa Francisco, outro octogenário a carregar o mesmo mundo, embora com outro celeste apoio, há uma sensação mista de alívio e não guerra global como reflexão final. Mas sente-se o peso de um combate à liberdade, à legítima diversidade. Pode prever-se a continuidade duma sociedade onde se vivem os princípios que se radicam na cultura e tradição greco-cristã, mas constata-se a consolidação das tendências contrárias ao respeito pelas pessoas, agora com uma liderança chinesa aparentemente mais suave, mas igualmente dissolvente e desumana, e algumas dinâmicas muçulmanas radicais, não alinhadas, mas agressivas.

O desvio consumista e de desperdício que afetam a cultura ocidental, o seu desrespeito pela natureza humana e pelas suas regras, que debilitam as instituições democráticas exigem uma revitalização autêntica e profunda dos seus princípios históricos que contrariem e opor-se ao autoritário rolo opressor sino-russo.

(i ) Refira-se, contudo, que os maiores fabricantes de centrais nucleares são a Rosatom, da Rússia, com 45% da capacidade instalada, a Urenco (do Reino Unido, Alemanha e Países Baixos) com 31%, a Orano da França, 12%, e a China com os restantes 12%. Foi esta enorme dependência da Rússia que impediu a Europa de colocar o combustível nuclear na lista das sanções, uma dependência difícil de romper, quando os EUA, por exemplo, importam da Rússia 25,5% do urânio enriquecido e têm apenas o objetivo de reduzir este valor para 15%. (ii) * Historiador e militar ateniense (460 - 400 AC) que postulou que a guerra do Peloponeso entre Atenas e Esparta tinha sido causada pela preocupação espartana pelo rápido poder ateniense, como resposta preventiva.

Presidente da AESE Business School

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