A morte súbita do impeachment

<strong>Nos EUA só Richard Nixon caiu, em 1974, por via de <em>impeachment</em> apesar da modalidade estar prevista desde a constituição de 1787. </strong>
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Ficou célebre no processo que levou à queda do presidente republicano a expressão "follow the money" [siga o dinheiro], a chave, segundo a fonte do jornalista Bob Woodward, do Washington Post, para se chegar às respostas do Caso Watergate, que deu corpo ao impeachment.

No entanto, a expressão popularizada no filme Os Homens do Presidente, de Alan J. Pakula, não consta do livro que o precedeu e, provavelmente, nunca foi proferida na vida real pelo "garganta funda" que alimentava Woodward. Uma situação diferente mas que lembra a do "play it again, Sam", eternizado pelo Casablanca, de Michael Curtiz, sem nunca ter sido usado na fita. Mas isto é um parêntesis.

Como Nixon, em Washington, Collor de Mello caiu em Brasília, em 1989, por impeachment. E agora Dilma Rousseff, do PT, corre, ou correu, o mesmo risco.

A pressão tem sido sufocante.

Em primeiro lugar, a das ruas, onde milhões de brasileiros se manifestaram a favor da queda, num tremor de terra mediático com início em Março e réplicas em Abril e Agosto.

Depois, a do plano político onde Aécio Neves, o candidato tangencialmente derrotado pela presidente nas eleições de há 10 meses, foi trabalhando nesse sentido, ora às escâncaras, ora em surdina, dependendo de ter o amém, ou não, de Fernando Henrique Cardoso, que funciona como tutor do presidente do oposicionista PSDB.

Nos últimos meses, Aécio saiu do armário de vez e colocou mesmo uma ação contra Dilma no Tribunal Eleitoral, sob o argumento de que o financiamento da campanha dela foi contaminado por dinheiro sujo do Petrolão, o escândalo de corrupção da Petrobrás, matéria passível de impeachment.

Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados e oposição na prática à presidente apesar de ser do parceiro de governo PMDB, também alimenta como pode o impeachment, no seu caso, ameaçando chumbar as contas com indícios irregulares de 2014.

Sim, a pressão continua mas, de repente, raios de sol de diversas procedências iluminaram o horizonte de Dilma e empalideceram a força das ruas e dos jogos de salão políticos.

De Wall Street, chegam notícias a dar conta de que os investidores vêem o impeachment como uma quebra de legalidade e uma perda de investimentos.

Umas centenas de metros ao lado, o The New York Times escreveu em editorial que a queda da presidente seria um recuo na consolidação democrática do país.

Em paralelo, Luiz Carlos Trabuco e Roberto Setúbal, presidentes respetivamente de Bradesco e Itaú, os dois maiores bancos privados do Brasil, deram entrevistas aos jornais a defender que não há razão para impeachment.

A câmara alta do Congresso, o Senado, que além de aprovar leis tem como função informal defender interesses dos poderosos que financiam as suas campanhas, deu a mão à presidente.

Analistas garantem que a palavra "crise" foi banida do principal noticiário da poderosa TV Globo, o campeão de audiências Jornal Nacional, por, consta, afastar audiências.

O jornal O Estado de S. Paulo, que chegou a parecer tolerar Eduardo Cunha passou a execrá-lo nos editoriais. E o concorrente Folha de S. Paulo escreveu que não se deve banalizar o instituto do impeachment. Mais ou menos o que o conservador articulista Maílson da Nóbrega, da revista Veja, publicação radicalmente anti-PT, afirmou no texto da semana passada "A Banalização do Impeachment".

Do grande capital internacional para o nacional, dos bancos para o Senado, do poder para a opinião pública, o pedido de impeachment de Dilma que chegou a parecer capítulo importante da história do Brasil pode afinal passar a nota de rodapé. Porquê? Porque o dinheiro mandou. No fundo, noutro país, noutros tempos, noutra perspetiva, por outros motivos, a chave continua a de sempre: follow the money.

Jornalista em São Paulo, escreve todas as quartas-feiras

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