A frase completa

“Se um brasileiro passar um mês fora do Brasil, quando regressa está tudo mudado...” é a primeira metade de uma frase que alguém inventou e muita gente repete.
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De facto, quem conhece Europa e Brasil sabe que a primeira mexe-se mais devagar, às vezes devagar demais, e o segundo mais depressa, às vezes depressa demais. Pode ser o peso do tempo do Velho Continente contra a leveza do tempo no Novo Mundo – mas não interessa aqui filosofar sobre as causas mas cuidar das consequências.

Um brasileiro que se ausente por um mês, é provável que no regresso encontre um novo treinador no seu clube de futebol – de todos os campeonatos importantes no mundo, o Brasileirão é o que mais mexe nos técnicos: este ano vai em 27 mudanças em 32 jornadas, mais do que as ligas portuguesa, italiana, inglesa e alemã juntas no fim da época 2014/15.

E nesse período o seu programa de televisão favorito pode ter acabado ou mudado de horário – o comunicador Serginho Groisman, do programa da TV Globo “Altas Horas”, conta que quando apresentava o “Programa Livre”, no concorrente SBT, sofreu 45 alterações de horário em oito anos.

Na política, Dilma Rousseff perdeu 30 pontos de popularidade na primeira semana de protestos em torno do aumento de 20 centavos de real no preço do transporte público em Junho de 2013. E Aécio Neves passou de terceira escolha atrás de Marina Silva na eleição de Outubro de 2014 a quase o dobro dos votos da ecologista em três semanas.

Na economia, se os mercados mundiais já são nervosinhos, a bolsa de valores brasileira chega a ser maníaco depressiva.

Mais: se estiver um mês ausente pode também ter perdido umas quatro ou cinco grandes entrevistas a Fernando Henrique Cardoso, o ex-presidente mais entrevistado do mundo.

FHC, que, honra lhe seja feita, é sempre um entrevistado interessante, lúcido e moderado, falou ao jornal O Estado de S. Paulo, à revista Veja e à TV Cultura nos últimos dias a propósito do seu novo livro, o volume I dos Diários de Presidência, as anotações que foi fazendo enquanto inquilino do Planalto nos primeiros dois anos de mandato, em 1995 e 1996.

Eis alguns trechos: “Seja eu o presidente ou outro que me venha a suceder, ninguém vai poder governar o Brasil sem ampla base de apoio e eu estendi essa base de apoio ao PMDB, ou uma parte importante do PMDB (...) Se eu quisesse mesmo, poderíamos até fazer uma grande explosão no PMDB mas tenho medo de mexer nessas coisas agora, antes das reformas, e criar dificuldades adicionais para estas. Mas não tenho dúvida de que, depois delas, teremos que dar uma mexida no quadro partidário e o PMDB não pode continuar do jeito que está, sendo uma ameaça”.

Conta ainda que Michel Temer, hoje líder do PMDB e vice-presidente de Dilma, lhe pediu, em troca de apoio às reformas, uns quantos jobs para uns quantos boys. E também que vetou Eduardo Cunha, hoje presidente da Câmara dos Deputados, para um cargo na Petrobrás por estar sempre envolvido em “trapalhadas”.

FHC elogia Emílio Odebrecht, pai de Marcelo Odebrecht, hoje detido no âmbito do caso do Petrolão, “apesar do nome ruim da empresa dele”. E sobre a Petrobrás, a petrolífera envolvida no tal Petrolão, conta que foi avisado de que a sua gestão era “um escândalo”.

Ou seja, já no século passado o PMDB era oportunista, Temer metia cunhas pelos amigos, havia razões para temer Cunha, a Odebrecht tinha má fama e a a gestão da Petrobrás envergonhava.

Está, pois, na hora de usar a versão completa da frase que abre este texto. “Se um brasileiro passar um mês fora do Brasil, quando regressa está tudo mudado, se passar 30 anos fora do Brasil, quando regressa está tudo na mesma...”.

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