Dada a multiplicação de candidatos e de candidatos a candidatos, ninguém, nem o batalhão de videntes brasileiros, se atreve a afirmar quem vai ganhar as eleições. Sabe-se que o presidente do Brasil bate recordes de impopularidade a oito meses do sufrágio. Que a direita nacionalista terá um representante, naturalmente controverso. Que há estrelas de TV a moverem-se. Que Lula da Silva, apesar de tudo, é um dos mais fortes candidatos. Que um tal Collor de Mello vai concorrer..Estas cinco evidências são válidas para 2018 mas referem-se às eleições de 1989, as primeiras desde a redemocratização, há quase 30 anos. Collor e Lula estão lá hoje, como estiveram ontem; o direitista Jair Bolsonaro diz inspirar-se no folclórico Enéas Carneiro daqueles tempos; em vez do patrão da emissora SBT Sílvio Santos, é o apresentador da TV Globo Luciano Huck quem agora reúne apoios; onde havia o detestado presidente José Sarney há hoje Michel Temer, não por acaso os dois do PMDB; e os concorrentes, a julgar pelas ameaças de candidatura, podem em 2018, como em 1989, chegar perto das duas dezenas..O Brasil recuou no tempo? Ou, no mínimo, parou? “Quem se ausenta daqui por três meses, quando volta já mudou tudo; quem se ausenta por 30 anos, quando volta vê que está tudo na mesma”, costuma dizer-se, a propósito do caudal imenso de notícias imediatas do país, por um lado, e do profundo imobilismo social brasileiro, por outro..Mas apesar de todos os dramas, velhos e novos, dos protagonistas de sempre, como o bafiento PMDB, que por acaso este ano voltou a chamar-se MDB para fingir renovação, e dos agora grisalhos Lula e Collor, o Brasil não recuou. Nem sequer parou..Segundo dados recolhidos pelo jornal Folha de S. Paulo, o PIB brasileiro era então o 9º do mundo. Agora é o 8º. Mais importante: o PIB per capita triplicou. A inflação de hoje situa-se em ótimos 4%; na época, em inimagináveis 1973%. A taxa de desemprego subiu mas dados sociais básicos, como a mortalidade infantil, que é em 2018 um quarto do que era em 1989, e a taxa de analfabetismo, que é um terço, dão um sopro de esperança. E se a população, hoje mais urbana, cresceu de 142 para 209 milhões, a sua esperança de vida entretanto passou de 67 para 75,5 anos..Acresce que há 29 anos, poderosos da política ou da economia condenados só em telenovelas, ou nem isso, e hoje, há umas dezenas deles detidos e uns milhares a pensar duas vezes antes de delinquir..O mundo, apesar dos desafios novos a cada ano, tal como o Brasil também terá globalmente evoluído bastante nestes 29 anos: apesar de 1989 ter sido marcado pela queda do Muro de Berlim, erguido precisamente 29 anos antes, e 2018 poder ficar na história como o do início da construção de um muro da vergonha entre os EUA e o México.