Ano Novo: Fazer sair a Rússia da Ucrânia sem mais demoras

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Vladimir Putin começou o ano com toda a violência: lançou dia e noite sem parar um grande número de mísseis e de drones sobre múltiplas localidades ucranianas. Contrariamente ao que alguns analistas afirmam, deu assim a entender que tem pressa em impor a rendição da Ucrânia. E lembrou-nos que os ditadores não respeitam linhas vermelhas. Acreditar que se pode negociar com déspotas é ilusão que sai cara.

A Rússia preside este ano ao grupo dos BRICS. Vai querer mostrar que é capaz de liderar com sucesso e fazer expandir uma organização que considera como uma alternativa possível à ordem mundial atual. No âmbito da presidência russa, estão previstas uma série de reuniões internacionais, que deverão culminar com uma cimeira em outubro, na cidade emblemática de Kazan. Para poder atrair os hesitantes, a Rússia tem de aparecer como um país vitorioso, poderoso, mas em paz, após ter restabelecido o domínio sobre territórios a que se arroga direitos à luz de um passadismo imperialista. Ou seja, depois de ter roubado à Ucrânia a soberania sobre as quatro províncias do Leste e conservado a Crimeia, usurpada em 2014. À lei e aos tratados internacionais, Putin contrapõe uma narrativa histórica arcaica e absurda, para tentar justificar a hostilidade, a agressão e a guerra de fronteiras contra países vizinhos.

No início do ano, juntaram-se aos BRICS cinco novos países: a Arábia Saudita, o Egipto, os Emirados Árabes Unidos, a Etiópia e o Irão. O grupo tem agora 10 membros, na sua maioria de reputação democrática duvidosa. Putin gostaria de chegar ao fim do seu ano de presidência com pelo menos o dobro de países como membros dos BRICS. Mencionou, há dias, que existem cerca de 30 países interessados em aderir. Considero essa afirmação pouco mais que mera propaganda. Revela, no entanto, a intenção de fraturar a comunidade internacional e destruir as normas de cooperação que foram sendo construídas, no quadro das Nações Unidas e de outras organizações multilaterais, desde 1945.

Não cabe à Europa democrática nem aos outros Estados aliados intervir na adesão, nas políticas e nas práticas dos BRICS, se tudo isso ocorrer segundo as normas internacionais. Por exemplo, se o Brasil achar que está mais bem amparado numa aliança com a Rússia ou o Irão, em vez de numa relação estreita com o G7, a escolha é sua. Não pode, no entanto, ao mesmo tempo esperar um tratamento preferencial dos países da órbita do G7 ou da UE. Nem mesmo da CPLP, que não deve oferecer sol na eira e chuva no beiral, se um dia vier a ser dirigida com a coragem necessária.

Mas a questão fundamental, neste início de ano, é outra: a Rússia tem de sair da Ucrânia, sem mais demoras, e respeitar a sua soberania e integridade territorial. Essa deve ser a preocupação número um da UE e dos seus aliados.

Os indícios mais recentes parecem mostrar que ambos os partidos nos EUA estão perto de um entendimento sobre essa matéria e prontos para renovar a assistência à Ucrânia. Falta a UE. Os líderes da Europa falam muito e bem, mas não agem como seria de esperar. É uma liderança de conversa, alimentada pelo temor perante a Rússia. O Estado-membro que mais tem ajudado e mais conta -- a Alemanha -- tem medo de tomar a decisão que se impõe e que modificaria de modo significativo o cenário existente: o fornecimento à Ucrânia de mísseis Taurus de longo alcance. Esse é um equipamento que permitirá golpear com peso e profundidade o invasor russo, e isolar a Crimeia do resto da Rússia. Quando decidi escrever este texto, pensei sublinhar a indecisão demonstrada até agora por Olaf Scholz. Entretanto, o chanceler fez esta semana uma exortação aos outros parceiros europeus e uma declaração de concordância com o plano de ajuda da UE de 50 mil milhões à Ucrânia, que deverá ser aprovado na Cimeira Europeia de 1 de fevereiro.

Numa Europa sem uma liderança clara, as palavras de Scholz são animadoras. Mas sabem a pouco e a tardias. Há urgência. É preciso avançar com os Taurus, com mais munições, com novos sistemas de defesa antiaérea, com drones de combate e uma força aérea de defesa baseada nos F16. E acompanhar toda essa ajuda com novas decisões políticas, que acentuem de vez o isolamento financeiro e diplomático do regime de Putin. Explicando sem cessar aos cidadãos europeus o que tem sido o heroísmo ucraniano, os avanços no Mar Negro, nos portos da Crimeia, nos ataques à frota naval russa e em matéria de defesa perante a brutalidade.

Também pensara criticar os dirigentes da França, Itália e Espanha: são economias de peso que têm sido atores menores quando comparados com a Dinamarca, os Países Baixos, a Suécia e os Bálticos, sem esquecer o Reino Unido. Mas veremos como se comportarão nos próximos tempos, perante o desafio de Scholz. Se perceberam ou não que também deles depende evitar que Putin continue a ser uma ameaça para a estabilidade e a paz na Europa.

Conselheiro em segurança internacional.

Ex-secretário-geral-adjunto da ONU

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