Há um problema global nos jornais. Assinamos?

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Quem diz jornais, diz revistas, rádios ou até televisões, e mesma a internet é um sofrimento, uma coisa tantas vezes superficial, porque... não há dinheiro. É isto. Os média são um sector grátis -- alguém teve esta péssima ideia e infelizmente nunca mais daqui saímos. Ou melhor, sabemos exatamente quem ajudou a apoiar esta ideia: primeiro as empresas de telecomunicações, ansiosas por nos fazerem pagar por internet em casa, no telemóvel, nos tablets, uma internet com tudo grátis aqui ou na Lua - exceto o custo dos dados. Depois as googles grátis e as redes sociais facebookizadas começaram a colorir as suas páginas com notícias, supostamente boas para dar visibilidade e cliques aos títulos, até chegarmos ao ponto indigente em que as notícias já são apenas o título e, vai daí, os próprios média começaram a vender alertas “última hora” que nos fazem saber tudo o que aconteceu 24/24 horas sem sequer abrir uma única notícia.

Mas, sendo honestos, há que reconhecer que é fácil contar a história depois de ela acontecer. Ninguém tinha a certeza de qual era o real modelo de negócio capaz de salvar os jornais e os jornalistas, mantendo as democracias informadas e livres.

Que os grupos de média foram constituídos, desde sempre, por gente que tinha algum dinheiro de sobra e quis afirmar o seu lugar na sociedade é olhar para as suas histórias -- aqui e no mundo inteiro. “Para quê” é que se tornou sempre na grande questão -- e, depois do Brexit, Trump e outras trapalhadas, já não há anjinhos. A tentativa de verdade imperfeitamente narrada pelos jornalistas esbarra no poder tecnológico e financeiro de quem pretende a manipulação e vai muito mais longe.

Resta pouco tempo. Os títulos desta casa fazem parte da mais extraordinária história da imprensa e rádio portuguesa. Como salvá-los -- independentemente das culpas -- é por agora o mais urgente, porque eles significam vidas, salários por pagar, futuros por manter.

Não sei o suficiente sobre as boas ou más intenções dos atuais, anteriores ou futuros donos destes títulos da Global. Deixo apenas aqui uma sugestão para resolver o maior problema no curto prazo. Uma solidariedade concreta: precisamos de assinar. Se quem gere os títulos pudesse fazer um pack de assinatura das quatro marcas -- DN, JN, O Jogo, Açoriano Oriental - por 99 euros por um ano, talvez com 10 mil assinaturas conseguíssemos obter rapidamente um milhão de euros que ajudem a resolver estes pagamentos em atraso. É um valor que já parece estratosférico para algo visto como grátis, mas, quem sabe, com apoio de instituições, empresas e cidadãos a Global saia rapidamente do ponto onde está. E pode ser que uma ação maior, com o dobro ou o triplo de angariação de assinaturas, consiga estancar esta hemorragia por mais meses, gerar mais receitas publicitárias pelo maior contacto digital com as marcas editoriais e assim ir tentando fazer o avião levantar voo de novo.

Quem contacta com o empenho destes jornalistas sabe o quão grande esforço está a ser feito para manter uma produção editorial mínima e independente, por mais cortes que se façam. O mesmo se passa na TSF, uma rádio que atravessa a nossa vida e cujo modelo de negócio é ainda mais difícil do que o da imprensa. A rádio é hoje muitas vezes o altifalante de um grupo maior. Consegue encontrar um grupo interessado em fazer sinergias com a força da marca TSF?

Finalmente: são precisas mudanças no grupo? Os acionistas irão certamente resolver o problema -- vendendo ou não os títulos.

Mas, no imediato, restaurar a paz laboral e o futuro destas pessoas não é tarefa para amanhã. Assinamos?


Jornalista

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