Nestes dias de grandes divisões e revolta, em que se sente no ar a fragilidade da democracia, eis que um certo festival volta às comemorações dos 50 anos da Revolução de Abril lembrando uma verdade elementar: não é uma data simbólica que escuda de forma mágica os nossos direitos, é preciso que os valores da sociedade resistam diariamente. Com o tema “Revoluções Quotidianas”, o Olhares do Mediterrâneo - Women’s Film Festival reveste-se pois, na sua 11.ª edição, de um espírito quase intimista, que observa as transformações ocorridas nos contextos mais invisíveis, enquanto testemunha as tensões espalhadas um pouco por toda a realidade mediterrânica. De 31 de outubro a 7 de novembro, é no Cinema São Jorge e na Cinemateca que se concentram as visões femininas de um mundo em luta constante, onde nada pode ser dado como garantido..Logo a abrir, The Teacher (dia 31, 21h30, São Jorge), de Farah Nabulsi, é um bom exemplo das batalhas em questão. A história de um professor na Cisjordânia que tenta controlar o desejo de vingança de um aluno, pela morte do irmão mais velho às mãos de um israelita, ao mesmo tempo que gere o seu próprio compromisso com a resistência palestiniana. Uma espécie de dispositivo moral para falar dos dilemas profundos de quem vive num país ocupado, com a identidade dilacerada..Muito diferente do cenário gentil de Las Chicas Están Bien (dia 3, 19h30), o belíssimo filme de encerramento que nos é oferecido pela atriz espanhola Itsaso Arana, aqui a assinar a sua primeira longa-metragem num ambiente bucólico onde quatro atrizes ensaiam uma peça de época. É daqueles olhares com encantamento suave: uma divagação coral, com monólogos pelo meio, que explora as singularidades e “reino comum” de um grupo de mulheres à procura da sua manifestação interior de conto de fadas. Mais um sinal auspicioso vindo de uma cinematografia que tem revelado imenso talento feminino..Las Chicas Están Bien, de Itsaso Arana..Na competição de longas, destaque ainda para o título português A Mulher que Morreu de Pé (dia 2, 21h30), de Rosa Coutinho Cabral, documentário em tom poético no rasto de Natália Correia. Nas curtas-metragens sugere-se, entre outras, a sessão para as famílias (dia 3, 11h) que exibe Pietra, de Cynthia Levitan (realizadora presente em Lisboa) e Tomorrow, de Estefania Ortiz; a primeira, uma doce animação coproduzida por Espanha, Portugal, Polónia, Brasil e Lituânia, a retratar o poder de um cravo vermelho na empatia entre vizinhas de um prédio tipicamente português; a segunda, um não menos ternurento olhar sobre os afetos de um menino em relação ao seu irmão com síndrome de Down, nas férias que antecipam a entrada de apenas um deles na escola. Na secção Travessias, por sua vez, há debate em torno das representações do colonialismo a seguir à sessão que integra a curta vencedora do Urso de Ouro na Berlinale de 2023, Les Chenilles (dia 3, 16h30), de Michelle e Noel Keserwany, uma reflexão pulsante sobre o ADN histórico de duas mulheres oriundas do Médio Oriente, que trabalham no mesmo restaurante em Lyon..País convidado.No meio das revoluções, exteriores e interiores, este ano o Olhares do Mediterrâneo dedica à Palestina um ângulo especial. Em parceira com a Cinemateca Portuguesa, serão mostradas obras, como se lê no texto do catálogo, “inevitavelmente políticas e profundamente humanas: atos de resistência que reconstroem e interrogam a memória de um povo e de uma luta, ajudam a compreender os factos recentes, revelam as feridas íntimas deixadas pela História e renovadas pelo presente, interrogam sobre o futuro e assombram-nos ao mostrar como os mesmos atos de violência se repetem, ao ponto de História, ficção e crónica acabarem por convergir e confundir-se.”.A partir de dia 4 as atenções voltam-se, assim, para a sala da Barata Salgueiro onde passam filmes como 3000 Noites, de Mai Masri, drama baseado num caso verídico, sobre a jornada martirizante de uma professora palestiniana encarcerada injustamente numa prisão israelita; ou, na abertura (19h), O Sal deste Mar, de Annemarie Jacir, a primeira longa-metragem de ficção realizada por uma mulher palestiniana, que teve estreia no Festival de Cannes de 2008, contando a aventura culturalmente imersiva, muitas vezes frustrante, de uma jovem nascida em Brooklyn que regressa às origens familiares para reclamar o que é seu por direito..Como sempre, o Olhares desdobra-se noutros programas para além dos filmes, e aí é de aproveitar dois workshops de entrada livre, mediante inscrição: um sobre estereótipos de género e sexismo no cinema (dia 2, 10h, São Jorge), o outro de introdução à escrita cinematográfica, focado na criação de personagens femininas e queer (dia 4, 10h, Goethe-Institut). Ambos com convidadas notáveis.