Vincent Price. Que melhor mestre de cerimónias para o Halloween?

A voz de Vincent Price é a supercola que une há seis décadas o mundo do horror. O actor morreu há precisamente 25 anos, mas a lenda vive. Que melhor mestre de cerimónias para presidir ao Halloween?

O Halloween sem Vincent Leonard Price Jr. (ou sem o fantasma dele) é como uma festa de aniversário sem o aniversariante. Houve Bela Lugosi (Drácula de Tod Browning), Boris Karloff (Frankenstein de James Whale) e Christopher Lee (Drácula de novo, desta vez para a produtora britânica Hammer, a grande fábrica europeia de terror nos sixties), mas só Price atravessou perto de seis décadas a pregar-nos sustos de meia-noite e viveu para o contar - os grandes ícones do cinema não morrem, mantêm-se em movimento cada vez que contemplamos o seu brilho refletido na escuridão.

Vincent Price é um ícone com 1,93 m e voz de caverna habitada por morcegos, como o Halloween aprecia. Nasceu, murmura-se, a 27 de Maio de 1911 em St. Louis, no Missouri, e aos 24 anos já trabalhava no mítico Mercury Theatre de Orson Welles. Tinha todos os atributos para ser a ameaça que foi: descendente da primeira criança nascida na nova colónia do Massachusetts, ainda a bordo do Mayflower, então atracado no porto de Provincetown - o universo do horror adora assombrações com linhagem -, foi aluno emérito de História da Arte, primeiro em Yale, depois no Courtauld Institute of Art, em Londres (os espíritos literatos, que conhecem a arqueologia do medo, são sempre os mais assustadores). A paixão inicial foram os palcos: fez inúmeras personagens históricas, incluindo um monólogo como Oscar Wilde que muitos consideram o seu melhor trabalho dramático, embora jamais tenha interpretado os clássicos de Shakespeare, nos quais a dicção cuidada mas retumbante seria perfeita. Mas o cinema não podia dispensar uma personagem cativante, de inquietadora sedução, que tanto parecia prestes a levar a protagonista para a cama como pronto para a cortar aos pedaços ("Trick or treat"?).

Estreou-se no grande ecrã em 1938, num anódino Como Ele Se Enganou, e foi conquistando reputação enquanto secundário ora romântico ora ameaçador (ou ambos em simultâneo), um character actor na linha dos perturbadores John Carradine e Peter Lorre (contracenaria várias vezes com os dois). Mas Price tinha timbre de câmara de tortura, um doce mas mortal abusador, e a figura longa, esguia, projectava manchas que infectavam de gótica mordacidade as vivendas e apartamentos dos grandes clássicos, como Laura (1944), de Otto Preminger, ou esse monumento à maldade que foi e será Amar Foi a Minha Perdição (1945), no venenoso Technicolor de John M. Stahl, ambos ao lado da irreal Gene Tierney. É também com a actriz dos olhos verdes-absinto que contracenará na sua primeira incursão pela demência fantasmagórica, o Castelo de Dragonwick (1946) de Joseph L. Mankiewicz: estávamos em 1946, e começa aí a meter medo ao susto. O facto de ter uma memória prodigiosa também ajudava: sabia não apenas as suas cenas de cor como decorava as linhas de diálogo de todas as outras personagens.

Penará, porém, década e meia em projectos menores - com excepções como a versão de Cecil B. De Mille de Os Dez Mandamentos (1956), em que interpreta um arquitecto das pirâmides que destila desdém pelos escravos, incluindo Moisés -, mas o percurso terrorífico vai-se cimentando em fitas hoje indispensáveis ao género: A Casa Assombrada (1959), do alucinado mas lucrativo William Castle (que transformava as sessões dos seus filmes em performances e atracções de feira, com efeitos mecânicos e eléctricos nas cadeiras - cócegas, pequenos choques - ou esqueletos suspensos por redes a atravessarem a plateia); Máscaras de Cera (1953), já para ser visionado com óculos 3D, do veterano zarolho das fitas de série B André de Toth - Price brincava que "só em Hollywood se contrataria um realizador com um único olho para um filme a três dimensões"; como o Diabo (esse mesmo, o próprio, quem mais o poderia interpretar?) no de resto insuportável A História da Humanidade (1957), de Irwin Allen, culminando numa longa-metragem de pequeno orçamento e efeitos especiais pedestres, mas cujo apelo principal incrementaria a lenda, A Mosca (1958), de Kurt Neumann, com toda uma ascendência kafkiana (munido de outros recursos e sentido inventivo, o mestre da monstruosidade interior, David Cronenberg, recuperaria a personagem nos anos 80).

Em 1960, dá-se o encontro que transformaria a vida de Price: Roger Corman, jovem produtor com dedo firme no pulso dos baby boomers (a primeira geração de adolescentes nascidos após a II Guerra Mundial), príncipe dos trabalhos de micro-budget para os drive-in que então brotavam como cogumelos, quer lançar uma série de projectos baseada em contos, poemas e narrativas do genial mestre do macabro do século XIX Edgar Allan Poe. O actor é o homem certo no tempo ideal: será um ciclo de sucesso financeiro e artístico que marca a história do cinema de terror, autêntica marca de água do sobrenatural - se o Halloween fosse um cinema ao ar livre, os filmes de Price com Corman passariam em eterno loop -, com sete títulos em quatro anos, incluindo uma obra-prima do excesso escarlate, A Máscara da Morte Vermelha (1964).

Price torna-se o rei incontestado do Grand Guignol, e os anos 70 e 80 preencher-se-ão entre deliciosos regressos à mansão do susto - de que A Noite das Facas Longas, no qual contracena pela primeira e última vez em simultâneo com John Carradine, Christopher Lee e o caçador de vampiros Peter Cushing, é imortal testamento - e dezenas de presenças televisivas em antologias horroríficas ou séries como Night Gallery e Columbo.

Os anos 80 encerram-se com duas derradeiras entradas rumo à imortalidade: o rap mortífero do Thriller de Michael Jackson (1983) - tema principal do álbum mais vendido da história, com 66 milhões de exemplares - e a personificação do inventor de Eduardo Mãos de Tesoura (1990), um doutor Frankenstein invertido, face irónica da malevolência dos criadores de monstros, que conceberá o mais frágil, benigno e comovente dos freaks. A gargalhada de gelar o sangue mantinha-se, mas o culto, cavalheiresco, amante de arte e cozinheiro gourmet (Price organizou o seu próprio museu aberto ao público, que incluía obras de Picasso ou Dalí, e lançou vários livros de gastronomia) triunfava pela generosidade incompreendida do púbere Eduardo. No fim de contas, o Halloween é sobretudo uma brincadeira de crianças.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG