Quando pensamos nos filmes da década de 1920, apetece dizer que toda a história do cinema se decidiu durante esses anos de muitas e fascinantes atribulações criativas, a começar pelo nascimento do cinema sonoro. À distância, poderá parecer uma evolução quase natural. O certo é que foi vivida através de acalorados contrastes. Charles Chaplin, referência universal desse tempo, mostrou-se mesmo desencantado com a viragem da indústria quando, em 1931, num célebre artigo publicado no The New York Times, reagiu contra aquela que foi a principal revolução técnica da década anterior. Para ele, os filmes constituíam um "meio universal de expressão" e não careciam de qualquer complemento, já que para ele a base de qualquer forma dramática de encenação não era o som, mas a "pantomima"..A memória enciclopédica obriga-nos a citar a produção norte-americana O Cantor de Jazz (1927), de Alan Crosland, com Al Jolson, como o primeiro filme sonoro a ser comercializado. A par, por exemplo, de Chantagem (1929), de Alfred Hitchcock, na Grã-Bretanha (em Portugal, a novidade do som só chegaria em 1931, com A Severa, de Leitão de Barros)..Uma coisa é certa: mesmo não ignorando o significado artístico, industrial e comercial dessa novidade, o que genericamente caracteriza a produção dos anos 1920 é a consolidação de uma arte realmente nova e, é caso para dizer, silenciosa (mesmo se sabemos que, partir de certa altura, muitas projeções passaram a ter acompanhamento musical). Tudo aconteceu através de duas vias fundamentais: a invenção de uma linguagem especificamente cinematográfica, superando qualquer dependência de outras artes, e o nascimento do gigantesco mercado global das salas escuras, muito para além das origens do cinema como espetáculo de feira..Este é também o período em que o cinema adquire uma consciência - prática e teórica - das suas potencialidades expressivas. Demonstram-no dois títulos clássicos separados por apenas um ano. Assim, em 1928, nos EUA, o genial Buster Keaton surgia na comédia The Cameraman (entre nós O Homem da Manivela), assumindo a personagem de um operador de imagem assombrado por muitos problemas técnicos e amorosos. Na União Soviética, as transformações cinematográficas decorrentes da Revolução de 1917 - com Sergei Eisenstein a realizar, entre outros, o lendário O Couraçado Potemkine (1925) - geraram, em 1929, o emblemático O Homem da Câmara de Filmar, de Dziga Vertov, ainda e sempre uma referência modelar das potencialidades do género documental..Tradicionalmente apontado como o "inventor" da gramática cinematográfica, o americano David W. Griffith revelava-se decisivo na definição de novas narrativas, com títulos melodramáticos como As Duas Órfãs (1921), a par, por exemplo, de Vsevolod Pudovkine, na URSS, com o grandioso Mãe (1926), adaptado de Maximo Gorki, ou Fritz Lang, na Alemanha, criando essa intemporal parábola política que é Metropolis (1927). Os exemplos podiam multiplicar-se, incluindo obras-primas tão universais como O Circo (1928), de Chaplin, ainda um projeto mudo, ironicamente lançado três meses depois da estreia de O Cantor de Jazz..Para lá das suas diferentes temáticas e raízes culturais, o que distingue exemplos como estes é a singularidade das suas linguagens. Dito de outro modo: o cinema nasceu marcado pelas mais variadas heranças (literárias, teatrais, etc.), mas foi-se impondo como um meio de expressão sem equivalente, construindo novas visões do mundo, para mais com uma importante dimensão popular..Para tal popularidade, os rostos foram fundamentais. A Paixão de Joana d"Arc (1928), produção francesa protagonizada por Renée Falconetti, com realização do dinamarquês Carl Th. Dreyer, persiste como exemplo modelar: o rosto de Falconetti possui uma vibração emocional que transcende as épocas. Mais do que uma história de estrelas, o cinema foi, por isso, desde o princípio, uma paisagem marcada pelos atores e atrizes com que os espectadores se identificavam (e identificam). Sem esquecer que foi durante os anos 1920 que, através de filmes como O Demónio e a Carne (1926) ou Anna Karenina (1927), Greta Garbo, a sueca que triunfou em Hollywood, se definiu e consolidou como modelo absoluto da star..Dir-se-ia que uma arte em tão fulgurante diversificação necessitava de definir e promover o seu próprio sistema mitológico. Como? Celebrando os seus profissionais através de prémios como os Óscares. As estatuetas douradas da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood ficaram mesmo como uma espécie de encerramento simbólico da década: a primeira cerimónia dos Óscares realizou-se a 16 de maio de 1929 no Hotel Hollywood Roosevelt, em Los Angeles. Wings/Asas, de William A. Wellman, arrebatou o Óscar de melhor filme - era ainda uma produção muda.