Quando as campanhas viraram do avesso o resultado das eleições

Houve de tudo: agressões, sondagens, debates e perguntas que levaram eleições a ter um resultado diferente daquele que se antecipava. Uma viagem por alguns momentos decisivos.

A paulada

1986: Soares-Freitas

É porventura a mais icónica das campanhas: as eleições presidenciais de 1986 começaram por dividir a esquerda, mas também o país, e perduram, ainda hoje, na memória de muitos, os slogans e os cartazes de então. Como o episódio na Marinha Grande, com a agressão a Mário Soares.

Com a campanha na estrada e as sondagens a atirar o socialista para os 8%, o ex-primeiro-ministro, responsabilizado pela enorme crise económica que o país enfrentava e uma segunda intervenção do FMI, Mário Soares visita a Marinha Grande a doze dias das eleições presidenciais. Corre o ano de 1986, estamos a 14 de janeiro, a direita uniu-se em torno de Diogo Freitas do Amaral, a esquerda (PS incluído) divide-se entre Soares, Salgado Zenha, Maria de Lourdes Pintasilgo e Ângelo Veloso, o candidato do PCP que desiste a favor de Zenha.

Antes de chegar ao concelho, um bastião comunista que vivia tempos duros, com uma indústria do vidro estilhaçada e o desemprego a alastrar, o socialista é advertido para o facto de haver trabalhadores desempregados à sua espera na Marinha Grande, cuja placa à entrada tinha inscrita a palavra "Moscovo".

"Eu ia-lhes a dizer para terem calma, para não se confrontarem com situações de violência, e, de repente, deram-me um murro na cara, que me desequilibrou. Depois, veio um jovem pelas minhas costas e deu-me um murro na cabeça, de cima para baixo, com bastante força. Depois ainda apanhei uma paulada, que é o que me dói mais", contaria mais tarde Mário Soares.

À paulada seguiu-se a acusação: "O povo português pode saber hoje, aqui na Marinha Grande, o que é a violência e o que é o espírito antidemocrático dos partidários de Salgado Zenha e de Álvaro Cunhal e de Ramalho Eanes." As contas ajustavam-se de frente para as câmaras: "Espancaram gente da minha comitiva, eu próprio fui agredido, mas isso não me impediu de circular em Portugal porque Portugal é uma terra de liberdade, não é Moscovo."

Era o impulso que faltava para a campanha ganhar lastro e travar aquilo que Soares chamava de "projetos de radicalização da sociedade portuguesa", referindo-se às candidaturas de Zenha e de Freitas. Foi o "momento decisivo" para a intenção de voto mudar: Soares chega ao dia 26 de janeiro e é o segundo mais votado, o primeiro entre os candidatos de esquerda.

Os números falam por si: Freitas do Amaral, apoiado por PSD e CDS, atinge os 2,62 milhões de votos (46,31%), Soares 1,44 milhões (25,43%), Zenha 1,18 milhões (20,88%) e Pintasilgo 418 mil (7,38%), numa primeira volta com menos de 25% de abstenção.

Na noite eleitoral dá-se o passo que leva à viragem definitiva nas eleições presidenciais de 1986.Álvaro Cunhal anuncia a convocação de um congresso extraordinário do PCP, mas antecipa logo ali uma geringonça pontual e com uma agenda única: votar em Mário Soares, "para derrotar Freitas do Amaral". A 16 de fevereiro, tapando ou não a cara de Soares, o voto de quem tinha votado Zenha e Pintasilgo ajuda à vitória do socialista que tinha partido com 8% nas sondagens. Soares ultrapassa a fasquia dos três milhões de votos (51,18%), apesar de Freitas ainda subir para os 2,87 milhões (48,82%), e com mais gente a votar (acima dos 77% de participação).

O debate

1989: Sampaio-Marcelo

À distância de trinta anos, quando se discute a importância de debates para a decisão do voto de indecisos, as eleições autárquicas em Lisboa mostram que os resultados eleitorais também se jogam na televisão. Eram tempos ainda de TV única (a RTP, com dois canais) e as sondagens colocavam os dois candidatos lado a lado.

Para esses resultados tinha contribuído um verão frenético da parte de Marcelo Rebelo de Sousa, para se dar a conhecer aos lisboetas, como dizia o próprio: mergulhou no rio Tejo, conduziu um táxi pelas ruas da capital, andou na recolha do lixo num camião, promoveu "as noites loucas de Marcelo" no Alcântara-Mar, uma discoteca da moda de então, e fez uma corrida com jovens em Monsanto.

A cinco meses das eleições, Jorge Sampaio, então líder do PS, tinha resolvido avançar. Em julho de 1989 disse aos jornalistas: "O candidato sou eu." E consegue um acordo inédito (muito tempo antes da geringonça), ao apresentar uma coligação de PS, PCP, "Os Verdes" e MDP/CDE.

O debate seria decisivo, lê-se na imprensa da época. E essa memória perdurou. Em abril de 2017, o atual secretário-geral do PS, António Costa - que estava a seu lado em 1989 - enquadrava os receios do socialista. "Jorge Sampaio estava preocupado com esse debate, achando que inevitavelmente o levaria à derrota", contou então António Costa. "Dizia que o professor Marcelo é brilhante, fala muito bem, é criativo e, como tal, é imbatível em debate. Nós dissemos a Jorge Sampaio que o debate, pelo contrário, era o momento para ele marcar a diferença. Dissemos-lhe que havia uma coisa fundamental a fazer no debate: ser autêntico."

Já aquele que hoje é Presidente da República falhou. "Marcelo Rebelo de Sousa entrou nesse debate a querer ser outra pessoa, outra pessoa que ele não é ainda hoje", explicou Costa. Sampaio "foi tão esmagador que inverteu depois as sondagens e ganhou as eleições", completou. "Depois de já ter mergulhado no Tejo e de ter conduzido um táxi, num frenesim bastante intenso, provavelmente disseram a Marcelo Rebelo de Sousa que tinha ali de mostrar uma grande ponderação, porque Jorge Sampaio é mais velho e figura de respeitabilidade."

As sondagens

2001: Rio-Gomes (Porto); João Soares-Santana Lopes (Lisboa)

As eleições autárquicas de dezembro de 2001 constituíram uma pesada derrota para o PS, levando o então primeiro-ministro socialista, António Guterres, a pedir a demissão para "evitar o pântano". Mas houve dois resultados que ainda mais contribuíram para a onda de choque no PS: em Lisboa, João Soares era apeado da Câmara de Lisboa, que tinha assumido depois de Sampaio partir para se candidatar à Presidência da República, contra Cavaco Silva (e ganhar em 1996), e no Porto, Fernando Gomes falhava a recandidatura depois de ter deixado a autarquia para uma passagem (malsucedida) no governo de Guterres.

Fernando Gomes assumiria, anos mais tarde, que esse tinha sido o seu erro. "Nunca assumi perante a cidade um pedido de desculpas por ter errado no caminho que tracei. Eu errei, foi um erro daqueles que as pessoas têm na vida. Não devia ter feito isso daquela forma. Quando muito acabava o mandato, não me recandidatava. Agora sair antes do final do mandato...", explicou-se em 2012. As sondagens davam a vitória ao socialista, que se convenceu de que a cidade lhe perdoava a aventura em Lisboa.

Mas não perdoou e hoje essa noite é a que dá conforto a Rui Rio na hora de falar das sondagens. Há largos meses que assim é. No jantar de Natal do grupo parlamentar do PSD, o líder social-democrata regressou a 2001 - à sua vitória, à de Santana em Lisboa e de Durão Barroso em 2002 - para se dizer esperançado para as eleições de 6 de outubro.

Em Lisboa, João Soares achou que a sua reeleição eram favas contadas e que o trabalho da esquerda (numa coligação mais curta, sem BE) falaria por si na hora de pôr a cruzinha. Não falou e Santana chegou ao poder com menos de mil votos de diferença em relação ao socialista. Paulo Portas anunciava que ficava pelo CDS e Miguel Portas era o candidato bloquista.

A pergunta

2015: Costa-Passos

Depois de um debate na TV que mantinha tudo como as sondagens, ou seja, em aberto, António Costa chegou ao debate com Passos Coelho nas rádios preparado para insistir no lado mais irritado do então primeiro-ministro social-democrata e para continuar a fazer passar a mensagem sobre o cenário macroeconómico e a agenda para a década que os socialistas tinham preparado. Mas Costa não estava preparado para uma pergunta, de uma das moderadoras, Graça Franco, que questionou o socialista sobre a proposta de limitar as prestações não contributivas.

Costa titubeou, não conseguiu responder, e Passos saltou para a arena, acabando o debate por cima, a querer saber se Costa estava disponível para negociar a reforma da Segurança Social. E ensaiou um KO magnânimo: mesmo ganhando as eleições estava disponível para fazer essa conversa. Passos só não antecipou o abraço da esquerda e a geringonça que lhe tiraria o tapete, mesmo tendo ganho as eleições.

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