Músicos elegem a obra preferida de Beethoven

Eleger uma obra favorita entre todas, e tão diversas, que Ludwig van Beethoven compôs ao longo da sua atribulada existência é tarefa difícil. Mas foi o que pedimos a vários músicos portugueses, que sublinham a intemporalidade deste homem nascido num mundo tão diferente do nosso. Quando se celebram os 250 anos do seu nascimento (foi batizado a 17 de dezembro de 1770), o DN republica este texto originalmente publicado a 13 de janeiro de 2020.

As enciclopédias dão conta dos factos biográficos; músicos e musicólogos acrescentam a leitura que a posterioridade faz da imensa obra de Ludwig van Beethoven. As primeiras dizem-nos que foi um músico alemão, particularmente produtivo apesar da surdez quase total, que viveu na transição do século XVIII para o XIX, contemporâneo, por isso, de grandes nomes do romantismo como Goethe ou Schiller. Os segundos afirmam que o seu legado é de toda a humanidade e que durará para sempre. De Beethoven dirão, afinal, que é um homem para a eternidade.

Osvaldo Ferreira, maestro, diretor artístico da Orquestra Filarmónica Portuguesa, não tem dúvidas em atribuir-lhe a definição absoluta de génio. "Não consigo propriamente eleger uma obra dele como a minha favorita porque é tudo tão bom... mas há excertos que me deixam completamente arrepiado. Lembro sobretudo a fuga do 1.º andamento da 8.ª Sinfonia, o princípio da Quinta, a beleza e a espetacularidade da Sétima."

Quem também elege a 7.ª Sinfonia é Anne Victorino de Almeida, saxofonista, compositora, professora da Escola de Música do Conservatório Nacional: "O que sinto quando ouço esta obra? Eu diria que escutar esta sinfonia é como visualizar um mergulhador explorando o oceano até ao limite da pressão do ser humano. O segundo andamento leva-nos até às maiores profundezas e traz-nos novamente à superfície numa espiral de emoções."

Esta sinfonia é, aliás, um bom exemplo do trabalhador incansável em prol da excelência, e até da perfeição, que Osvaldo Ferreira destaca na personalidade artística de Beethoven. Iniciada em 1811, quando o compositor procurava melhorar a sua debilitada saúde física e psicológica numa estância termal da Boémia, ela revela a capacidade de resistência de um homem que, desde a infância, conhecera uma vida particularmente difícil.

Mas, para os músicos portugueses, o génio de Beethoven não se revela apenas nas sinfonias. Para o compositor português Eurico Carrapatoso, autor de uma vasta obra em vários géneros, que vai da ópera à música sinfónica, elege a Sonata Opus 111 para piano, composta em 1820, enquanto o autor trabalhava na composição da Missa Solemnis: "É uma obra-prima", diz. "Emana aquela luz intensa que reconhecemos apenas nas obras-primas. Tratando-se de Beethoven, esta derradeira sonata é um primus inter pares."

A título de curiosidade, apesar do reconhecimento público que, ao contrário de outros, Beethoven teve em vida, esta composição já da maturidade não obteve logo o aplauso de outras obras. Durante a sua edição em partitura pela casa parisiense de Maurice Schlesinger, em abril de 1823, o trabalho revelar-se-ia particularmente intenso para os copistas, gravadores e revisores, confrontados com uma obra de complexidade até então inédita. As críticas contemporâneas fariam eco dessa estupefação e, na verdade, só na segunda metade do século XIX, vários anos após a morte do compositor, esta sonata atingiu o mesmo reconhecimento público que todo o seu repertório recebeu. Como pianista, Ana Beatriz Ferreira, a concluir o doutoramento em Performance na Universidade de Cardiff, destaca também as obras de Beethoven para aquele instrumento: "A minha obra favorita de Beethoven é o Concerto para Piano N.º 4 em Sol Maior, Opus 58.

Como pianista, e apesar de admirar imensamente as sinfonias, tenho, de facto, especial afinidade com a sua obra pianística. O acorde inicial deste quarto concerto, tocado pelo solista, é, para mim, algo de outro mundo; é de uma singeleza, de uma luz, de uma paz imensas. A forma como, por exemplo, o primeiro andamento se vai desenvolvendo desde este acorde até momentos de pura tempestade, tão típicos de Beethoven, é, na minha opinião, sinónimo de pura mestria. E, claro, independentemente da qualidade intrínseca da obra, existe sempre uma componente muito emocional e pessoal no que diz respeito à escolha de obras favoritas. E, a este nível mais do "coração", este concerto diz-me muitíssimo. Por alguma razão, que não consigo explicar, é o que mais me faz sentir emocionada, quer quando o ouço quer quando o toco."

A incansável demanda da perfeição é o que, para Osvaldo Ferreira, torna Beethoven um caso único na história da música. "Sabemos que Mozart, por exemplo, finalizava as obras tal como elas lhe surgiam; Beethoven, não, era um homem que trabalhava arduamente para fazer sempre mais e melhor. Escrevia e reescrevia quantas versões considerasse necessárias. E eram sempre muitas. Foi, se quisermos, o que hoje chamamos um perfeccionista." Para o maestro, a própria vida do compositor e as dificuldades que ele conheceu ajudam a explicar a complexidade da obra: "Creio que não podemos compreender Beethoven se usarmos apenas as lentes da musicologia, importa também conhecer a sua biografia."

Nascido em Bona, no principado de Colónia (um dos pequenos reinos em que se dividia a Alemanha antes da unificação na segunda metade do século XIX), em dezembro de 1770, Ludwig viveu num ambiente de agressividade e maus-tratos. Pai e avô acreditavam nas potencialidades de uma educação musical à base de castigos físicos e torturas psicológicas. O objetivo era transformá-lo numa criança-prodígio capaz de encantar, à imagem do que acontecera com Mozart, os grandes e poderosos das cortes europeias, contribuindo, assim, para o enriquecimento da família. Sem o sucesso do genial austríaco, Ludwig ter-se-á tornado um excelente intérprete de cravo, mas pagou um elevado preço emocional por tal excelência.

Anos mais tarde, já adulto, a ameaça da surdez, que se manifestaria por volta dos 26 anos, agravaria o sofrimento do compositor. Submeteu-se a todo o tipo de recomendações médicas que lhe foram sendo endereçadas: curativos, cornetas acústicas, balneoterapia, mudança de ares. Em vão. Num dos seus escritos, admitiu a amargura que o tomava: "Devo viver como um exilado. Se me acerco de um grupo, sinto-me preso de uma pungente angústia, pelo receio de que descubram meu triste estado. E assim vivi este meio ano em que passei no campo. Mas que humilhação quando ao meu lado alguém percebia o som longínquo de uma flauta e eu nada ouvia! Ou escutava o canto de um pastor e eu nada escutava! Esses incidentes levaram-me quase ao desespero e pouco faltou para que, por minhas próprias mãos, eu pusesse fim à minha existência. Só a arte me amparou!"

Osvaldo Ferreira acredita que estas dificuldades, que tornaram o seu carácter mais complexo, trouxeram outra densidade à obra. Não crê, porém, na imagem de homem ressentido e carrancudo que a posterioridade guardou de Beethoven. "A sua música contraria-a. Ele viveu numa época extraordinária, a do romantismo alemão, foi contemporâneo de poetas como Schiller, autor da letra de Hino à Alegria, ou Goethe. Todos acreditavam na possibilidade de a humanidade evoluir para uma sociedade mais justa, batiam-se, através da arte, pelos ideais da fraternidade e da igualdade entre os homens. Beethoven será sempre um grande nome do humanismo."

Em passagens como o final da 5.ª Sinfonia ou na letra da 9.ª Sinfonia, Osvaldo Ferreira não encontra qualquer eco desse mítico azedume. "Acredito plenamente que sentiu um profundo júbilo ao compô-las. O mesmo júbilo que ainda hoje sentimos quando as interpretamos ou escutamos."

Nascido há quase 250 anos, num mundo totalmente diverso do nosso, Ludwig van Beethoven foi com certeza um homem maior do que a vida que parecia estar-lhe reservada. Mas, nas palavras de Osvaldo Ferreira, foi "também alguém que mudou para sempre a sua arte", e isso durará para sempre.

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