Marvila. A mudança ainda vai no adro

Marvila, já se sabe, está a mudar e a ser redescoberta pelo resto da cidade. O cozinheiro Chakall, um dos pioneiros desta mudança, tornou-se uma espécie de embaixador da zona.

Foi e continua a ser uma espécie de enclave na zona oriental de Lisboa. O bairro que parece estar ainda a acordar da ressaca do abandono industrial está em plena transformação. Tal como aconteceu em várias cidades, noutros bairros, noutras geografias. A herança industrial transforma-se em tendência. Como aconteceu em Brooklyn (Nova Iorque) ou Shoreditch (Londres) ou mesmo na margem norte de Amesterdão.

Marvila tem vindo a mudar e tudo terá começado no início desta década. Talvez mais lentamente do que o esperado, o antigo bairro operário começou a tornar-se atrativo para as indústrias criativas. As rendas baixas comparadas com o resto da cidade e os inúmeros espaços disponíveis foram a fórmula certa para se tornar local irresistível para artistas, arquitetos, espaços de cowork e, mais tarde, fábricas de cerveja artesanal e lojas de mobiliário vintage, entre outros.

E Marvila voltou a entrar no mapa da cidade.

Hoje há nova vida junto aos armazéns decrépitos e às tascas que, de repente, passaram a ter mais clientes.

Um dos primeiros inquilinos a apostar na zona foi o cozinheiro argentino Chakall. "Quando cheguei a Portugal, em 1997, levaram-me a uma festa num armazém em Marvila, nem sei bem como lá cheguei, mas fiquei maravilhado com os espaços. Pensei logo que seria um dos melhores locais de Lisboa para ter restaurantes."

Anos mais tarde, no início de 2016, Chakall abriu na Praça David Leandro da Silva, em pleno Poço do Bispo, o restaurante El Bulo Social Club, paredes-meias com o edifício dos antigos armazéns Abel Pereira da Fonseca. O espaço, que por vezes também tem música ao vivo, começou a levar e a fidelizar novos públicos para a zona e a dar uma vida noturna ao local.

Dois anos depois, o argentino continuou a instalar-se no mesmo largo e abriu a pizaria Refeitório Senhor Abel, de frente para o edifício do Clube Oriental de Lisboa, um dos históricos do futebol de outros tempos.

A relação com o bairro continua a crescer. "Quando estou em Lisboa estou sempre por ali. O largo começou a ter mais vida, e as pessoas do bairro viram as aberturas dos meus espaços como algo muito positivo. Era uma zona sem movimento e os restaurantes à volta antes de abrir os meus negócios estavam mortos."

Futuro incerto

Nos últimos anos muita coisa mudou, mas muito mais vai mudar em Marvila. Os moradores estão a sair da zona, os pátios e vilas tradicionais ficam cada vez mais vazios à medida que as rendas a baixo preço deixam de o ser. A febre imobiliária que assola Lisboa está a alastrar-se a Marvila. As zonas circundantes ao Palácio da Mitra e da Igreja de Marvila - ambos do século XVI - são cada vez mais procuradas para futuros empreendimentos.

A abertura para breve do Hub Criativo do vizinho bairro do Beato e o empreendimento de luxo do Braço de Prata, projetado pelo italiano Renzo Piano, vão mudar a tipologia de habitantes de um dos bairros com mais tradição operária da capital.

"Este é um local de população operária e tudo isso tem o seu encanto. Ainda falo com pessoas que viviam aqui na época dourada de Marvila". diz Chakall.

O futuro será muito diferente agora. "O mercado imobiliário é que manda. O quarteirão onde tenho os meus negócios é alugado. Aliás, quase todos os locais por aqui são alugados, e não se sabe se daqui a três ou cinco anos não irão fazer empreendimentos com apartamentos caros. Sei que, recentemente, dois quarteirões foram vendidos por cerca de 16 milhões de euros..."

Faz parte da evolução, acrescenta o cozinheiro. "Mas se eu fosse um dos senhorios preferia que certas coisas ficassem. Há edifícios com características fantásticas, como o do Abel Pereira da Fonseca ou o edifício da José Domingos Barreiro. E mesmo as casas mais pequenas são muito bonitas e fazem parte do atrativo local."

Por enquanto, é um dos locais com pouco ou nenhum turismo. "São sobretudo portugueses que frequentam as zonas mais movimentadas do bairro". Até quando? Ninguém sabe. Mas Chakall vai insistindo em Marvila e já no primeiro trimestre vai abrir uma pastelaria biológica, a primeiro do bairro. E no mesmo largo que classifica como "um dos mais bonitos de Lisboa".