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Robôs nos cafés e o Tejo como sala de estar: como vai ser Lisboa do futuro

Esqueçamos os filmes. Daqui a 46 anos Lisboa terá veículos autónomos (aviões incluídos), uma gestão de tráfego inteligente, robôs nos cafés e nas repartições públicas, humanos com hortas e dedicados a atividades criativas. E o Tejo pode ser uma sala de estar ou uma autoestrada para veículos autónomos.

Lisboa, 2018.

Cruzamento da Avenida da República com a avenida João XXI. O trânsito desespera. O sinal fica verde, os carros avançam e um atravessa-se à frente do táxi. A motorista faz uma travagem brusca - talvez demasiado brusca. Falávamos de como aquele táxi, elétrico, novinho, é silencioso e eis que estacamos a menos de um palmo de um Mercedes indeciso. Conversa puxa conversa. «Sabe que esta caixa aqui tem uma câmara? [não sabia]. Sei que ele [o carro] está sempre a ler informação. Os sinais de trânsito, por exemplo - e depois dá-me aqui no painel a velocidade máxima. Ou a distância do carro da frente. Se eu me aproximo muito, tem um sistema de travagem. Às vezes os clientes até pensam que eu não sei travar, mas não sou eu [voilá!]. Olhe, isto qualquer dia conduz sozinho e eu vou de braços cruzados.»

É verdade. Aquela condutora de táxi não sabe, mas em breve a sua profissão vai desaparecer. E o trânsito também. Na realidade, a cidade como a conhecemos vai mudar muito. Ora leia... Embarque numa viagem ao futuro.

Lisboa, 2064.

Seguimos num autocarro da Carris. Da vetusta transportadora resta o amarelo, mudou-se o logótipo, desapareceram os motoristas e os passes. Temos tudo nos sofisticados telemóveis, com os quais falamos como se fossem pessoas. O espaço é amplo e sentamo-nos como se estivéssemos numa sala. E recordamos o que nos disse Rosário Macário, professora do Instituto Superior Técnico (IST), especialista em transportes, no longínquo ano de 2018: «A robotização vai invadir os mercados. E a digitalização vai alterar profundamente a forma como funcionamos. Em alguns sítios isso já se aceita bem, noutros ainda se vê com muita desconfiança. Hoje dificilmente convencemos um passageiro a embarcar num avião que não tenha piloto, ainda que se saiba que o avião aterra e descola sozinho, faz tudo automaticamente. Mas presume-se a necessidade de ter um piloto a bordo. Em 2064 será estranho é ter alguém a bordo. Provavelmente nessa altura vai achar-se "se calhar isto não funciona bem porque tem uma pessoa a bordo".»

Sorrimos e olhamos o céu. Lá andam eles, os aviões sem piloto - voando acima dos enxames de drones numa azáfama de pacotes das lojas digitais. Parece que já nos habituámos a este tráfego intenso que povoa os céus da cidade. É exatamente o que dizia, em 2018, Miguel de Castro Neto, docente da Nova Information Management School: «Outro fenómeno que está em crescendo tem que ver com o comércio online. A micrologística está a criar uma pressão imensa nas cidades. A entrega de pacotes está a crescer a um ritmo alucinante e vai ser um desafio. Num curto prazo vamos encontrar soluções para isto, com os veículos autónomos conectados uns aos outros e à infraestrutura, otimizados e já todos elétricos. A seguir vamos paulatinamente assistir a novas formas de mobilidade. Em 2064 eu diria que já não é preciso haver estradas, porque os veículos já não estão a tocar o chão. Já voam, já são autónomos e já são partilhados.»

Cá vamos, nesta cidade do futuro, cumprindo a profecia do coordenador da pós-graduação em Smart Cities. Saímos do autocarro (agora sim, é auto e é carro) elétrico e entramos no veículo seguinte, seguindo as instruções da nossa app favorita. Já passámos os 90 anos, trotinetas e bicicletas usamos só para as voltinhas no bairro. Viajamos entre o Terreiro do Paço e a Avenida Almirante Reis em dez minutos, numa gestão de tempo e recursos que o telemóvel vai fazendo. Não há trânsito (o que é isso?) nem buzinadelas. Não fazemos ideia dos vários operadores que estamos a usar, queremos é chegar eficientemente ao destino.

«Enquanto cidadão é-me indiferente quem presta o serviço», dizia Castro Neto. «É como abrir a torneira e sai água. Entro num veículo e não quero saber quem é o proprietário, ou quem está a gerir a infraestrutura. Eu começo a usar um meio de transporte, uso toda a combinação possível e no final do dia ou do mês aparece-me uma conta para pagar. É a aplicação que suporta isto que me diz qual é o melhor transporte para eu atingir o meu fim.»

«Em 2064 já não é preciso haver estradas, porque os veículos já não estão a tocar o chão. Já voam, já são autónomos e já são partilhados.»

E a professora Rosário Macário, que dizia que íamos falar com os carros? «A Mercedes já anda a anunciar um carro em que falamos com ele. Isto vai ser uma coisa normal.» E o que dizia da Carris? «A Carris não vai acabar, os motoristas é que talvez.» Check.

«Os robôs mais visíveis vão ser os veículos. Os carros autónomos são robôs. Rapidamente vamos começar a tê-los a circular, vai mudar a infraestrutura da cidade, com os carros a falarem com as ruas, as ruas a falar com os carros, os carros a falar uns com os outros, toda a gente fala com toda a gente.» As palavras eram de José Santos-Victor, professor do Técnico, que andava a testar robôs e dizia coisas estranhas em 2018. «Atualmente há muitos robôs no planeta, mas não interagem. No mundo dos humanos não entram robôs, no mundo dos robôs não entram humanos, é assim há décadas. O que se está a tentar fazer é quebrar essas barreiras e o mundo de uns e de outros começar finalmente a intercetar-se e sobrepor-se. O entendimento mútuo terá de passar para outro nível.» A conversa com o presidente do Instituto de Sistemas e Robótica teve banda sonora. A dado momento da entrevista, dizia, aparentemente para o ar: «Hey, Google! Play Pat Metheny.» E não é que a geringonça eletrónica respondeu? «OK. Playing Pat Metheny on Spotify.»

Agora a Google Assistant de José Santos-Victor já está no museu do passado. Coisa arcaica, não tem rodas nem pernas nem braços, não ajuda nas compras nem arruma a casa. E, por falar em casa, as nossas vão mudar substancialmente, vaticinava o docente. «Não há razão para que a mobília não se arrume sozinha ao fim de uma festa mais exigente. Essa comunicação entre os dispositivos todos vai avançar rapidamente.» Por isso, quando chegamos, a sala está quentinha e o jantar também. O telemóvel comunicou com a casa sem que tivéssemos de nos preocupar com isso. Sentamo-nos num pequeno T1 no centro de Lisboa, enquanto o nosso robô nos traz o jantar - e, em permanência, dá sinais aos nossos familiares, cuidadores remotos, de que está tudo bem connosco (eles também sabem em tempo real se temos febre, os níveis de tensão arterial ou se estamos parados há demasiado tempo...).

«Estamos numa profunda mudança de paradigma civilizacional, tão importante como aquela que deu origem à revolução industrial ou a que resultou na invenção da imprensa de Gutenberg.»

Na torre em frente está num grupo de jovens estudantes que programa o futuro. Mudámo-nos há uns anos para esta comunidade. Eles vão e vêm, muitos falam línguas distantes e nem cozinham em casa - entra-lhes a comida a voar pela janela. José Mateus, arquiteto e presidente da Trienal de Arquitetura de Lisboa em 2018, já tinha avisado sobre a evolução nas tipologias de habitação e os espaços onde há equipamento complementar, como ginásio, lavandaria, restauração, coworking, etc. «Lisboa é uma cidade de viajantes, cosmopolita, onde a população varia e por isso adaptada a esse tipo de tipologias. Os edifícios funcionam como uma comunidade onde há pessoas em situação de permanência totalmente diferenciadas, desde aqueles que ali estão como alguém que permanece num hotel durante dois ou três dias até àqueles que vivem lá permanentemente.»

Muito mudou desde 2018, embora o desenho da cidade como a conhecíamos tenha permanecido - mas agora sem carros no centro. Aqui em 2064 os meios suaves de mobilidade articulam-nos com os veículos autónomos. O transporte em vácuo («um tubo debaixo de terra ou à superfície cuja tração é feita por sucção»), de que falava a professora Rosário Macário, já funciona (ela também dizia que o combustível do futuro seria o hidrogénio).

Olhamos a janela e vemos a velha calçada portuguesa, memória da cidade. Aqui e ali convive com outros pavimentos, há aplicações com outras pedras menos escorregadias do que o calcário - tanta polémica lançou nos idos anos 2000... «Faz parte da nossa cultura, não vejo razão para a calçada portuguesa ser erradicada nem para ser generalizada. Já desenhámos ruas em que substituímos o calcário por granito, porque o calcário é muito escorregadio. Claro que isso altera a luminosidade da cidade, a temperatura e a luz são diferentes. As pessoas não gostam tanto, mas depois assimilam. A calçada existirá sempre e ainda bem», disse o arquiteto José Mateus.

O novo distrito de Rublyovo-Arkhangelskoye, em Moscovo, deverá ser uma cidade sustentável. O projeto é do ateliê da arquiteta iraniana Zara Hadid, falecida em 2016, com o Pride Architects, e quer colocar o foco nas pessoas, não só através da tecnologia como do desenho do espaço público.

Os grandes eixos da cidade mantêm-se - bem dizia Jorge Gonçalves, geógrafo e coordenador do mestrado em Urbanismo e Ordenamento do território no IST. «A estrutura da cidade não vai modificar-se, a não ser que haja alguma coisa mais radical, uma catástrofe. Depois pode é preencher-se de maneira diferente. O que podemos ter é uma reformulação dos volumes existentes, no sentido de dar mais densidade, mais altura. Mouraria, Alfama, Madragoa existem há séculos e não é fácil mudar. Do ponto de vista dos usos, do conteúdo, aí podem registar-se alterações, como está já a acontecer com o alojamento local, por exemplo.»

Em 2018, João Seixas tinha bem presente a exposição Futuros de Lisboa, que esteve patente ao público no Torreão Poente da Praça do Comércio, entre julho e novembro desse ano, e de que foi um dos curadores. A mostra desenhou vários cenários. «Todas as previsões muito vincadas a traço grosso falham», disse o geógrafo e economista. «Estamos numa profunda mudança de paradigma civilizacional tão importante como aquela que deu origem à Revolução Industrial ou a que deu origem à invenção da imprensa do Gutenberg.»

E, sobre novas possíveis realidades, lembrou como a tecnologia podia ajudar à partilha de experiências de cidadania entre pontos mais ou menos distantes do globo. Num traço otimista, falando sobre Lisboa e os seus usos, ocorria-lhe este exemplo: «Paris tem um programa em que a câmara municipal, juntamente com os arrondissement, mapeou todos os logradouros que existem. Os logradouros são um reflexo da era industrial, encheram-se de oficinas e muitos estão desativados. A perspetiva é transformarem-se em espaços reecologizados, pequenos bosques, matas, jardins. Imagine isso ampliado para todas as cidades, os efeitos que teria...»

Bill Gates anunciou a intenção de construir uma cidade inteligente no estado do Arizona, EUA. Não se sabe quando arrancará, mas a cidade de Belmont, dez mil hectares no deserto às portas de Phoenix, terá oitenta mil casas, escolas, empresas e comércio. O investimento de oitenta milhões de dólares do milionário tecnológico contempla veículos autónomos, tecnologia de ponta e gestão eficiente de recursos.

Também José Mateus preconizava esta cidade mais verde - afinal, cada vez mais clientes lhe pediam para incorporar hortas nos projetos. Na altura, já dois dos três filhos eram vegan, em linha com as preocupações crescentes com a sustentabilidade (ele próprio andava a refletir nisso). É que, enquanto uns desenhavam robôs, o arquiteto desenhava casas, escritórios, edifícios públicos - enfim, o futuro - e fazia uma (ou várias) revolução muito silenciosa.

Lisboa, 2018.

Ao longo de vários dias conversámos, longamente, com especialistas que ajudaram a olhar o futuro da cidade. Todos colocaram os grandes desafios em cima da mesa: sustentabilidade, mobilidade, cidadania. São praticamente unânimes em considerar que deixará de fazer sentido falar em Lisboa como a conhecemos, em sentido literal, passando a abraçar toda a área metropolitana. «Não vejo como fugir aos três milhões que vivem na cidade alargada», diz Jorge Gonçalves, que tem nos subúrbios tema de estudo de eleição.

Os cenários desenhados são tendenciais e não os de grande catástrofe, guerra ou revolta social - os chamados cisnes negros. E todos apontaram um dos grandes imponderáveis: as mentalidades. Porque o ser humano é imprevisível, criativo, incerto por natureza.

Visto daqui, neste afã de colocar os robôs a fazer as tarefas «chatas», o que vai fazer o ser humano? «Coisas mais criativas, se calhar a desenhar, a passear, a pensar, a desfrutar ou a jogar», diz Santos-Victor. Adivinha-se uma explosão do entretenimento, em que, aliás, os robôs dão já passos largos, com a tecnologia dos jogos a tornar-se mais massificada e complexa - por exemplo, com sensores que medem sinais biomédicos (pulsação, temperatura) e dão indicações do grau de stress ou de satisfação do humano ( e a partir daqui haverá toda uma indústria de entretenimento ávida de fornecer experiências taylor made...). Estas experiências podem, por exemplo, fazer que viajemos menos, acede o presidente do IST, Arlindo Oliveira. «O turismo não vai desaparecer, mas a massificação vai parar. As pessoas vão continuar a viajar mas vai ter de haver algum travão, até porque o impacto ambiental é grande.»

Para o especialista em inteligência artificial, muito vai mudar, desde a forma como estudamos («vai ser possível ter tutores personalizados para cada criança») até ao modo como trabalhamos. As assembleias, os locais de reunião e decisão política vão continuar a existir, mas há uma grande incógnita. «A questão mais profunda é se a democracia tal como a conhecemos agora, uma democracia representativa com eleições a espaços regulares, vai ser o mecanismo de eleição.» Este é um tema pouco pensado ainda. «Pode ser que haja sistemas que ponham limites ao que o voto democrático pode conseguir. Que exijam maiorias qualificadas para fazer alterações estruturais, como, por exemplo, a que aconteceu no Reino Unido. Algumas medidas vão ter de ser tomadas, porque a democracia que temos pela via direta está a revelar algumas limitações. O problema destes sistemas é que muito facilmente podem reverter coisas que foram pensadas durante muito tempo, como um líder antieuropeu que é eleito e a Europa destrói-se.»

O cenário atual, de deixar os munícipes escolher onde as autarquias devem investir parte do dinheiro via orçamentos participativos pode intensificar-se, admitem os geógrafos Jorge Gonçalves e João Seixas. Resta saber se os movimentos de cidadania que se desenham nas redes sociais terão força e credibilidade - ou se é «só indignação de Facebook».

E como será a equidade social? «Imagens que vemos nos filmes como Blade Runner, com uns tipos muito poderosos e ricos no 78.º andar e cá em baixo a turba a safar-se o melhor que consegue, são possíveis, agora não sei qual será o grau de diferenciação entre uns e outros. Eu acho que isso pode acontecer na megarregião de Lisboa em 2064», diz João Seixas.

Outra grande interrogação é o Rio Tejo. Para Miguel de Castro Neto, «o rio vai fazer parte da cidade. Vamos passar a viver também o Tejo, quer com transportes públicos quer com atividades diversas, e vai deixar de ser uma barreira entre a margem norte e a sul».

«Eu acho que a grande questão é se vamos ter Tejo em 2064 ou se vai tornar-se uma avenida, se calhar uma autoestrada de veículos autónomos, porque entretanto secou e as pontes deixam de fazer sentido e passam a ser meros viadutos de autoestrada. É um bocadinho assustador...», diz Rosário Macário.

Pois é.

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