Pode levar-se tablets para a sala de aula?

Sim, se houver internet rápida. Com formação, aposta nas competências e professores 2.0 que tragam novas maneiras de ensinar, mostraram alunos portugueses.

Escola Secundária Eça de Queirós, nos Olivais, ano letivo de 2014-2015. Duas turmas - uma do 7.º ano, outra do 10.º - recebem tablets no início do segundo período que serão a principal ferramenta de trabalho nos dois anos que se seguem. Alunos, 64, e professores, 18, envolvem-se. Lidam com as distrações do ecrã, os apontamentos perdidos, aulas muito diferentes das que conheciam. Pergunta-se: aprende-se com tablets na sala de aula? Nos bastidores, investiga-se o comportamento dos alunos e os resultados. O projeto, encomendado pela Fundação Gulbenkian, chama-se TEA - Tablets no Ensino e na Aprendizagem e é coordenado pelo professor José Moura Carvalho, chefe da equipa de Recursos e Tecnologias Educativas, com José Luís Ramos, professor da Universidade de Évora. As conclusões dizem que sim. Aprende-se com os tablets na sala de aula.

As conclusões entusiasmam os indefetíveis da tecnologia, Moura Carvalho tempera-as com avisos. "Esse modelo do autocarro em que o professor vai ao volante e os alunos a olhar não vai funcionar com os tablets", diz. Não basta ter o equipamento. Então, o que é preciso para que a tecnologia funcione e os alunos aprendam?

O que é preciso para que o tablet funcione?

Um: a infraestrutura, isto é, "o acesso à internet que os alunos têm dentro da sala de aula". Que funcione. "Não se pode ter uma internet lentíssima que não dá vazão a 300 alunos. É preciso assegurar que o acesso é estável e rápido." E contemplar uma alternativa. No segundo ano do projeto, os manuais eram exclusivamente digitais (e as mochilas andaram muito mais ligeiras), mas cada disciplina tinha cinco exemplares dos manuais em caso de necessidade.

Dois: teclado. "Tablets sem teclado é complicado". "Um equipamento que é um único ecrã não chega. Porque os alunos consomem informação, mas também produzem informação."

Três: formação. "Dar aulas com ou sem tablet não é a mesma coisa. Não vale a pena explicar certas coisas que é mais rápido encontrar na internet." E, como diz em conversa com o DN, também formação para os alunos. Que usar para guardar apontamentos?, perguntavam-se. "Alguns nunca quiseram deixar para trás o papel, outros já não o queriam para nada." Moura Carvalho falou-lhes de apps de processamento de texto e de que o mais importante é encontrar o que se procura no momento em que faz falta.

Quatro: adquirir competências. "Só se adquirem quando se faz, quando se mete as mãos na massa, não apenas a ouvir falar. A aula expositiva tem o seu lugar, mas "é muito mais interessante que façam projetos". Moura Carvalho fala numa "aprendizagem colaborativa" e prefere uma sala arrumada em "ilhas" de quatro alunos que trabalham em equipa. O professor "dá regras" - porquê? Para quê? Como? "A literacia digital só se adquire quando se erra, é preciso perceber onde os alunos vão buscar a informação e que os professores não são a única fonte", diz o coordenador, membro do projeto Minerva, dedicado à introdução da tecnologia no ensino, no final dos anos 90 do século XX. "É preciso fornecer autonomia controlada."

Aprendida a lição de que os alunos não são homogéneos, Moura Carvalho diz que "um mau aluno pode passar a ser um bom aluno, um bom aluno pode passar a ser um não tão bom aluno, um aluno excelente pode não gostar de tecnologia ou ser ainda melhor..."

Entrar na sala de aula do futuro

Foi Marçal Grilo, antigo ministro da educação e administrador da Fundação Calouste Gulbenkian, quem lançou o desafio a José Moura Carvalho para estudar estes casos. "Queria ter dados mais concretos sobre a aprendizagem com tecnologias móveis em Portugal", conta o coordenador.

A situação de partida no 7.º e no 10.º ano era "muito difícil". Professores e atas dos conselhos de turma confirmam um "clima social e comportamental muito adverso". Nove dos 28 alunos do 7.º ano reprovaram; oito dos 23 do 10.º ano também. No ano seguinte, já no 8.º ano, todos transitaram para o 9.º ano. Apenas um não passou para o 12.º. Moura Carvalho prefere não estabelecer uma relação direta entre o uso de tecnologias e estes números. Mas, diz, "em termos gerais, correu melhor nas disciplinas em que os professores puseram em marcha metodologias mais consentâneas com a utilização de tablets na sala de aula".

Dois anos letivos de investigação depois, as conclusões de Moura Carvalho e da equipa, publicadas em março deste ano no livro com o nome do projeto - Tablets no Ensino e na Aprendizagem. A Sala de Aula Gulbenkian: Entender o Presente, Preparar o Futuro -, dizem que a política de um equipamento por aluno removeu desigualdades entre alunos no que diz respeito ao acesso às tecnologias digitais. Que os estudantes são confiantes no uso da tecnologia, mas revelaram algumas dificuldades de adaptação a novas formas de escrita ou para escrever sumários. Que o progresso foi positivo em ambas as turmas.

E ficou uma nova pergunta: como é que o uso destas tecnologias afeta hoje o desempenho destes alunos, alguns já na universidade?

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