Os jovens do milénio que são malucos pela mobilidade urbana

Na Semana Europeia da Mobilidade, fomos à procura de gente que é fanática por ela. Estes são os Numtots. Cresceram nas periferias dos centros urbanos e não esquecem o tempo perdido em transportes públicos que funcionavam mal. Não têm dinheiro para automóveis, e não gostam do impacto destes no meio ambiente. São apaixonados pela bicicleta, comboio ou andar a pé e idealizam cidades onde nos desloquemos assim.

João Véstia cresceu virado para a linha de comboio no Cacém e está convencido de que foi por isso que acabou por especializar-se em Urbanismo, Transportes e Sistemas no Instituto Superior Técnico (IST) de Lisboa. Isso e as visitas sucessivas ao local de trabalho do avô, funcionário dos Comboios de Portugal. Isso e porque no Cacém todos discutiam os problemas de mobilidade - nas escolas pedia-se às crianças que inventassem soluções; em casa era tema de conversa à mesa de jantar.

Enquanto estudante do IST, João levava a bicicleta para Lisboa, no comboio. Quando começou a trabalhar, planeou ciclovias para o sudoeste alentejano. Há mais de dois anos, o engenheiro mudou-se para os Emirados Árabes Unidos, onde, muito longe dos caos do Cacém, continua a alimentar o interesse por urbanismo e mobilidade numa equipa de planeamento de transportes. Recentemente, juntou-se a um grupo de Facebook em que centenas de milhares de jovens como ele discutem apaixonadamente, com humor e empenho, o que fazer com os transportes públicos de cidades de todo o mundo.

Os Numtots - acrónimo que numa tradução literal significa Novos Memes Urbanistas para Jovens Orientados para o Trânsito - imaginam e planeiam redes totalmente renovadas, partilham notícias sobre o uso gratuito dos transportes coletivos e atualizações sobre avarias das redes locais, criam memes que ironizam sobre os efeitos positivos ao nível das ligações cerebrais de discutir a mobilidade e partilham histórias de amor nascidas em transportes públicos. Um meme publicado no grupo deixava a seguinte questão: "Sim, o sexo é fixe, mas já fantasiaram com um programa de renovação de infraestruturas financiado pelos impostos dos bilionários?"

Percebe-se pelo empenho de algumas das publicações que o urbanismo e a mobilidade são temas levados muito a sério por estes jovens.

"Há um lado sexy nestes assuntos porque tocam o domínio da política. Existe sempre uma certa tensão nas discussões sobre urbanismo e mobilidade porque geralmente a solução mais eficiente vai contra o statu quo e isso é um desafio excitante", diz João Véstia. Mesmo que, continua, "muitos dos elementos do grupo não façam nada para mudar a situação na vida real. É ativismo de internet", diz o engenheiro de 32 anos.

Os jovens que alimentam o grupo do Facebook fazem parte da geração milénio, que cresceu durante os anos 80 e 90 e foi duramente afetada pela crise financeira aquando da entrada na idade adulta. A internet é o ponto de encontro por excelência destes jovens, o espaço no qual se apercebem de que não estão sozinhos nas suas preocupações com os temas que os afetam.

"Preocupamo-nos mais com o ambiente e não temos poder económico para pensar em comprar uma casa fora da cidade e levar o carro para o centro como fizeram os nossos pais", diz André Pereira, 28 anos, urbanista e Numtot.

André, que vive entre Lisboa e Aveiro, diz que não pensa sequer em ter um automóvel, preferindo deslocar-se a pé para todo o lado, se está em Lisboa, ou usar a bicicleta, quando em Aveiro. O urbanista é apaixonado pelo tema porque, diz, "as cidades são espelho de muitos defeitos e qualidades da sociedade em geral". Olhar para o reflexo desse espelho é aquilo que o grupo Numtot lhe permite. "É muito interessante ver como cada cidade e cada socie- dade se organiza, que tipo de transporte prefere e pensar naquilo que poderia acontecer por cá", diz.

O urbanista lamenta que não exista "muito espaço" para intervir na cidade de Lisboa de forma a que aquilo que aprende no grupo de Facebook não se resuma a ativismo de internet. Se pudesse decidir sobre mobilidade em Lisboa, André apostaria na expansão do sistema Gira, de partilha de bicicletas, porque, diz, "aquelas que existem estão instaladas em locais bem servidos de transportes públicos", sendo "interessante expandir o serviço para zonas desfavorecidas," diz.

Marta Silva, 25 anos, cresceu em Vila Real, onde se habituou a "ir a pé para todo o lado" porque os transportes coletivos não funcionam da melhor forma. Marta nunca gostou de carros e acredita que os transportes públicos são a melhor forma de conhecer as cidades, "mais úteis do que os mapas," diz. Movida por essa curiosidade, Marta foi-se apercebendo das queixas que os utilizadores faziam, o que a levou a questionar-se sobre como se poderiam resolver certos problemas. Foi assim que começou a escrever ocasionalmente sobre transportes no jornal online em que trabalha. Vendo o interesse da amiga, André convidou-a para juntar-se ao grupo. "Tem muito humor e é muito tolo, mas aparecem ideias muito giras. Agora o meu mural de Facebook é só Numtots e eu sinto-me acompanhada nos meus interesses. Além disso, faz-me rir e ajuda-me a descontrair," diz.

Apesar do entusiasmo, a jornalista não se considera ativista do tema, apesar de ter esperança de contribuir de uma outra forma. "Gosto de escrever sobre o tema no meu trabalho para desconstruir algumas ideias feitas. Acho importante mostrar, por exemplo, que os transportes públicos dão prejuízo em outras partes do mundo, não se tratando apenas de um problema de gestão. O grupo dos Numtots ajuda-me a compreender e a conhecer outras realidades," diz.

O engenheiro informático Bruno Barão, 32 anos, não pertence ainda ao grupo de Facebook, mas, quando ouviu a descrição, identificou-se como Numtot. Mas contrariamente a João, André e Marta, Bruno identificou-se como ativista, empenhando-se na promoção da utilização da bicicleta na cidade de Lisboa. Bruno desloca-se maioritariamente de bicicleta e, apesar de ter um automóvel para eventuais deslocações de fim de semana, considera-o "um desperdício". Durante a semana, se não pode usar a bicicleta, utiliza os transportes públicos ou o táxi.

Apesar de não estar ainda associado a outros Numtots pelo Facebook, Bruno utiliza essa rede social para conhecer ou dar a conhecer eventos ou iniciativas ligadas às bicicletas. O engenheiro faz parte da Associação para a Mobilidade Urbana em Bicicleta (MUBi), ajudando a planear as reuniões do grupo com a Câmara de Lisboa e participando no programa de mentorado Bike Buddy, que aconselha e acompanha novos utilizadores de bicicleta nas primeiras deslocações na cidade. Bruno participa também no Massa Crítica, um evento que acontece nas últimas sextas-feiras de cada mês em que o objetivo é sensibilizar para a utilização da bicicleta. Bruno está convencido de que contribuiu para aumentar o parque de bicicletas do local onde trabalha. Quando Bruno começou, era o único ciclista. Hoje há mais oito.

Bruno nunca tinha ouvido falar do termo Numtot, mas diz ser um Numtot por querer mudar a mobilidade nas cidades. E diz que algo já está de facto a mudar. "Antes era raro ver um político a andar de bicicleta sem ser para tirar a fotografia. No outro dia, num vídeo do YouTube, vi o António Costa a andar de bicicleta só porque sim", diz.

Ler mais

Exclusivos

Premium

João Gobern

As vidas atrás dos espelhos

Mais do que qualquer apetite científico ou do que qualquer desejo de mergulho académico, o prazer dos documentários biográficos vai-me servindo sobretudo para aconchegar a curiosidade e a vontade de descobrir novos pormenores sobre os visados, até para poder ligar pontas que, antes dessas abordagens, pareciam soltas e desligadas. No domínio das artes, essas motivações crescem exponencialmente, até por permitirem descobrir, nas vidas, circunstâncias e contextos que ganham reflexo nas obras. Como estas coisas valem mais quando vão aparecendo naturalmente, acontecem-me por revoadas. A presente pôs-me a ver três poderosos documentos sobre gente do cinema, em que nem sempre o "valor facial" retrata o real.

Premium

nuno camarneiro

Uma aldeia no centro da cidade

Os vizinhos conhecem-se pelos nomes, cultivam hortas e jardins comunitários, trocam móveis a que já não dão uso, organizam almoços, jogos de futebol e até magustos, como aconteceu no sábado passado. Não estou a descrever uma aldeia do Minho ou da Beira Baixa, tampouco uma comunidade hippie perdida na serra da Lousã, tudo isto acontece em plena Lisboa, numa rua com escadinhas que pertence ao Bairro dos Anjos.

Premium

Rui Pedro Tendinha

O João. Outra vez, o João Salaviza...

Foi neste fim de semana. Um fim de semana em que o cinema português foi notícia e ninguém reparou. Entre ex-presidentes de futebol a serem presos e desmentidos de fake news, parece que a vitória de Chuva É Cantoria na Aldeia dos Mortos, de Renée Nader Messora e João Salaviza, no Festival do Rio, e o anúncio da nomeação de Diamantino, de Daniel Schmidt e Gabriel Abrantes, nos European Film Awards, não deixou o espaço mediático curioso.