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Os anos sem história na História de Portugal

O vazio na história é o momento perfeito para o autor de romances históricos, mas para o historiador é o caos. Sem documentação não há como descrever o passado.

Durante os quase nove séculos de História de Portugal existem anos em que o registo de acontecimentos é raro, mas nunca deixou de existir um documento que impedisse o historiador de escrever uma página sobre qualquer época. Ou seja, um ano de vazio documental nunca existiu na nossa história, mesmo que no início da nacionalidade as fontes fossem poucas. A única época em que muita da documentação histórica desapareceu nas chamas foi a que registava o Estado na primeira metade do século XVIII, devido ao terramoto de 1755.

"Há períodos na história pré-medieval e medieval para os quais não temos nenhuma informação detalhada sobre vários anos", refere o historiador Nuno Gonçalo Monteiro. Explica que a ignorância é grande "antes do ano zero da era cristã" e que "desconhecemos o que se tenha passado então na maior parte dos territórios europeus", no entanto a partir do ano 1000 e até ao presente a situação altera-se bastante: "Existe desde então uma continuidade documental na história europeia a partir do momento em que temos instituições eclesiásticas e as primeiras chancelarias reais, que reúnem mais informação sobre o último milénio do que nos tempos do período romano ou da altíssima Idade Média."

Em Portugal, são os séculos XII e XIII os menos documentados. Deles o que se conhece, diz Nuno Gonçalo Monteiro, resulta de "umas vagas crónicas de que nem sabemos bem a que ano se reportam".

Em Portugal, são os os séculos XII e XIII os menos documentados. Deles o que se conhece, diz Nuno Gonçalo Monteiro, resulta de "umas vagas crónicas de que nem sabemos bem a que ano se reportam". São textos produzidos a posteriori e regularmente nas chancelarias régias: "Uma fonte muito importante que permite obter alguma informação além da dos cartórios dos mosteiros, mesmo que seja muito dispersa." Seguidamente ao período medieval, as fontes do rei vão sendo incorporadas sucessivamente em arquivos até à Torre do Tombo, enquanto as fontes eclesiásticas estiveram muitas vezes guardadas até ao século XIX nos seus cartórios e só então foram incorporadas ao Estado", explica o historiador.

É a grande quantidade de documentação destas duas fontes medievais que quem estuda este período usa até hoje, além das crónicas e dos livros de linhagens, por exemplo, o que não evita, alerta Gonçalo Monteiro, ser grande o desconhecimento dos factos sobre os primeiros reis portugueses: "São muitos os anos que dizem respeito à primeira dinastia portuguesa sobre os quais se sabe muito pouco. Contudo, para os séculos XIV e XV já existem muitas mais fontes além das anteriores porque passam a existir crónicas de uma maneira sistemática." Exemplo desses textos são os escritos a partir da dinastia de Avis sobre a parte final da primeira dinastia: "Como as de Fernão Lopes, que são crónicas tardo-medievais que já fornecem uma imagem mais clara desses tempos."

A partir do século XVI, refere o historiador, a documentação dos cartórios eclesiásticos e das chancelarias reais, bem como as crónicas, passam a ser um conjunto relativamente amplo de informação sobre a sociedade portuguesa: "A partir daí temos sempre essas fontes, a que acrescem os registos paroquiais de batismos, casamentos e óbitos no século XVII, uma prática que se vai estendendo por todo o território, dando informações muito detalhadas sobre momentos de crises, de mortalidades e a identificação de pessoas e um conjunto de boas crónicas políticas."

A interrupção em 1755

Para o historiador Nuno Gonçalo Monteiro, o fim do vazio histórico é um processo interrompido no século XVIII: "Há um vácuo muito notório na documentação portuguesa que resulta do terramoto de 1755. Que não destruiu toda a documentação anterior - por não ter atingido o país todo - mas ficou-se sem uma boa parte da documentação da administração central em vários concelhos e secretarias de Estado que já existiam." Se eliminou informação do passado, a destruição provocada pelo tremor de terra criou um aumento de dados sobre o que se passou após 1755: "Foram muitos os documentos que relatam os acontecimentos e dão um bom retrato da segunda metade do século XVIII, à exceção das crónicas políticas devido ao pulso forte de Pombal."

O vazio na história nacional desaparece em muito a partir dos finais do século XVIII, segundo o historiador: "Com as guerras napoleónicas, as invasões francesas e as lutas liberais, as fontes de documentação impressas explodem." Fica para trás o vazio medieval, mesmo que houvesse sempre um documento para fixar o que acontecia no reino: "Se se pode dizer que no período medieval existem anos em que se sabe muito pouco, não se pode deixar de referir que há sempre alguma escritura ou um contrato que se fez nesse ano num cartório. A própria fachada de uma igreja dessa época é um documento, mesmo que de pedra e sem uma identificação cronológica exata."

O vazio no poder

Apesar da informação histórica abundante sobre os últimos dois séculos da história de Portugal, o historiador António Costa Pinto encontra um momento em que o vazio domina a historiografia nacional: o 28 de Maio de 1926.

Para Costa Pinto, o 28 de Maio é "o período mais interessante de vazio do poder e, ao mesmo tempo, em que se desconhece suficientemente bem o que está realmente a acontecer. É uma situação que decorre durante os dias em que Gomes da Costa parte de Braga, para em Coimbra e vai realizando conversações ao longo do percurso até chegar a Lisboa. Existe um verdadeiro vazio de poder, muito embora as instituições continuassem a existir. O presidente do Conselho e o primeiro-ministro estão nos seus lugares mas não funcionam". Contudo, explica, "desde que existe Estado, porque este tem horror ao vazio, o que se verifica é que as sociedades contemporâneas são máquinas muito persistentes e, mesmo perante grandes crises e conjunturas de vazio no poder político, tudo volta a funcionar."

Quanto à falta de documentação histórica que esclareça inteiramente os acontecimentos, António Costa Pinto aponta um: "No caso do assassínio do general Humberto Delgado sempre se desconheceu uma questão: se Salazar tinha ou não autorizado a sua morte. É a única dúvida que se mantém porque não existe nenhuma prova escrita de que tenha autorizado a operação no sentido da execução. Sabe-se que aldrabou no seu discurso na Assembleia Nacional porque acusou a oposição quando os responsáveis eram da PIDE."

O excesso de informação

O historiador salta para o presente e refere que vivemos o momento contrário ao do vazio documental na história, mesmo que o vazio volte a estar presente sob outra forma: "Hoje existe demasiada informação e é difícil encontrar o equilíbrio das fontes - orais com redes sociais, por exemplo."

Para António Costa Pinto, o "enorme fluxo de informação atual esvazia a verdade".

A mesma opinião tem o historiador António Borges Coelho: "A multidão de factos e acontecimentos na atualidade é completamente avassaladora, de maneira que o vazio em história na época contemporânea desapareceu. O vazio é para a Idade Média e períodos anteriores, pois é preciso não esquecer de que o homem está por cá desde há muito tempo. Aí é que está o vazio."

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