A personagem sádica e dada a comportamentos indecentes com os seus parceiros de animação nos primeiros filmes de há noventa anos passou a ser um intrépido e corajoso representante da felicidade. O Rato Mickey tornou-se um símbolo nacional dos Estados Unidos e um dos bonecos mais reconhecidos no mundo inteiro. Com a fama, veio a responsabilidade. E isso implicou várias mudanças de valores..E.M. Forster, conhecido romancista britânico que não se perdia de amores pelo cinema, assumiu em 1934 o fascínio pelo Rato Mickey ao escrever que a personagem recém-nascida era o "deus de toda a gente", garantidamente "um dos melhores amantes do planeta" e incapaz de despertar sentimentos de bondade. Daí até se ter tornado um embaixador da felicidade à escala global foi uma viagem de décadas que alterou a personalidade e a morfologia do rato de cara redonda e orelhas gigantes..Garry Apgar escreveu o documento de referência sobre a evolução da personagem no livro Mickey Mouse: Emblem of the American Spirit (Emblema do Espírito Americano). O que lá se conta é a forma como o rato mais popular do planeta nasceu como reflexo da personalidade de Walt Disney (que tinha medo de ratos) e de como evoluiu para ser um símbolo nacional e global..A interessante viagem pela vida do Rato Mickey mostra como este se tornou um ícone do otimismo durante a grande crise económica dos anos 1930, um símbolo da liberdade durante a segunda guerra mundial e posteriormente um exemplo da influência americana à escala planetária. A investigação para os livros foi feita com o apoio da filha de Walt Disney, o que deu maior profundidade ao conteúdo - mas também terá retirado alguma liberdade ao que foi escrito. .O autor entretém-se a explicar como o Mickey é dos mais poderosos símbolos da arte moderna americana e remete a sua importância para "características icónicas misteriosas e quase indefiníveis", construídas a partir "da busca pela felicidade e da dedicação à liberdade" que garantem que o rato não tem idade. E é isso que facilita a evolução dos seus valores. Ao mesmo tempo, o desenho foi evoluindo tecnologicamente - é de notar que o Rato Mickey foi a primeira personagem de um cartoon a ter voz e isso mudou drasticamente a indústria da animação..Uma plástica ao desenho. Esta mudança foi acompanhada por alterações no próprio aspeto do desenho. Stephen Jay Gould, biólogo e divulgador de ciência, escreveu um excelente ensaio sobre a forma como a fisiologia do rato Mickey evoluiu ao longo do século XX. Através de medições do tamanho da personagem e da análise da sua fisionomia, Gould concluiu que o desenho se foi infantilizando. Esse processo é claro em dois aspetos: o crescimento da cabeça face ao resto do corpo, que é semelhante ao das crianças em quem o rácio do tamanho da cabeça face ao resto do corpo é maior, ao contrário do que acontece nos adultos; e no tamanho dos olhos, na distância entre o nariz e as orelhas, que lhe aumentou o arredondamento da testa..Gould recolhe referências de Charles Darwin e de Konrad Laurenz para concluir que a juvenilização da personagem se assemelha ao processo de neotenia do próprio ser humano, que é um dos mamíferos que mais retém na idade adulta características típicas da forma infanto-juvenil. E isso é acompanhado nos humanos pela capacidade de aprender constantemente e de continuar a brincar mesmo na idade adulta: "em resumo nós, como o próprio Mickey, nunca crescemos, embora continuemos a envelhecer.".Este processo deliberado foi assumido pela Disney noutras personagens que se foram popularizando, como é o caso do Pato Donald. E isso nunca aconteceu para personagens que representavam o "lado mau" das histórias, como por exemplo os irmãos Metralha (cujos pelos de barba adulta eram bem notórios) ou o alto e espadaúdo rato Mortimer, arqui-rival do próprio Mickey. Tudo isto se enquadra no universo infantil que Walt Disney quis assumir ao longo da sua carreira e que serviu de lançamento à indústria que levou o seu nome, replicada depois nos parques temáticos e em milhares de produtos. .A eterna criança. Também foi essa infantilização deliberada da personagem que levou a que a relação com Minnie nunca tenha sido assumida, embora o próprio Walt Disney tenha assumido numa entrevista em 1933 que no seu imaginário as personagens eram casadas. E é pela mesma razão que as personagens Disney não fumam: elas evitam reproduzir maus exemplos, tendência essa que alastrou a outras personagens (o conhecido cowboy Lucky Luke deixou de fumar no início dos anos oitenta). Essa adequação aos tempos é visível também no esforço de produtos dirigidos ao público infanto-juvenil, incluindo nos produtos da própria Disney. Começou por se verificar na diversificação de género das personagens principais e depois na diversidade racial e já também nas opções sexuais..Teresa Paixão, hoje diretora da RTP 2 e durante 25 anos diretamente ligada aos conteúdos infanto-juvenis da RTP, assume as preocupações didáticas na escolha desses produtos. E esse didatismo tem a ver com os valores que se transmitem: "De uma forma transversal, esses valores são a democracia, a liberdade, a aceitação dos outros e a normalização da diferença. Claro que difícil é fazer isso de forma apelativa, capaz de entreter, porque esse é o segredo da boa televisão." A Disney é um belo exemplo disso, porque tem "séries educativas excelentes e é pena que se preocupem mais em popularizar as marcas fortes do que esses conteúdos"..Será também por isso, pela aposta no marketing e na satisfação do gosto popular, que o Mickey se tornou tão popular. "Aos noventa anos, o rato Mickey pode ser o que ele quiser. Mas vejo grande valor por exemplo na coragem dele. Até porque neste momento a coragem é um valor que tem de se estimular: as nossas crianças são tão protegidas que é fundamental mostrar a importância de ser corajoso e para isso o Rato Mickey pode ser bem útil. Temos crianças que, com 10 anos, só andaram de transporte público quando foram de férias de avião!".Reforçando que a televisão e mesmo a animação é apenas mais uma parte do elemento formativo, Teresa Paixão assume a importância de transmitir valores que se adequem ao mundo contemporâneo. E é isso que vai acontecendo com o próprio Rato Mickey, que hoje tem valores mais jovens do que tinha quando apareceu em 1928..E é melhor que assim seja: Mickey tem uma taxa de notoriedade superior à do Pai Natal nos Estados Unidos, e é a marca definida pelas suas orelhas que comanda um império cujo valor estimado em 2016 era de 150 biliões de dólares..Um rato no meio da arte.São inúmeras as citações ao Rato Mickey na história da arte. Seguem algumas das melhores feitas por grandes nomes..O portfolio de Mitos de Andy Warhol não ficou completo sem a devida vénia ao Rato Mickey, imortalizado numa série de 1981. A última vez que foi vendido em leilão rendeu mais de quatro milhões de euros, sintomático da fama de Warhol... e de Mickey..Keith Haring, outro nome fundamental da arte dos anos oitenta, fez no mesmo ano de 1981 uma série de trabalhos de Street Art com o Rato Mickey, tendo a partir daí usado recorrentemente a personagem como inspiração para diversos trabalhos, alguns bastante críticos do capitalismo americano..Claes Oldenburg, reputado escultor americano de ascendência sueca, recolheu inspiração óbvia do Rato Mickey para as configurações variadas da sua instalação Geometric Mouse. Feita nos anos sessenta, funciona como um reconhecimento da importância do imaginário Disney na cultura popular. Ao explicar as variadas formas que o seu trabalho pode tomar, torna-se óbvia a dimensão da influência da personagem no trabalho do artista..Jeff Koons, um dos grandes artistas a recuperar a alma da arte pop, usou várias personagens de animação nos seus trabalhos - e entre elas não podia faltar imaginário Disney. Em destaque desta vez ficou a MInnie, que mereceu obra própria..Michael Sandle, escultor britânico, fez nos anos setenta uma peça a que chamou originalmente A Mickey-Mouse Machine-Gun Monument for Amerika. A obra muito crítica recorda uma carga policial contra estudantes e, embora tenha mudado o nome da peça para A Twentieth Century Memorial, manteve um esqueleto com orelhas de Mickey como elemento de destaque..Damien Hirst, reconhecido pintor britânico, terá sido o mais recente artista de topo a usar Mickey na sua arte - precisamente devido ao seu estatuto de ícone poderoso e pela associação à ideia de felicidade infantil. O quadro Mickey, de 2014, é uma expressão do ícone através das formas redondas que o caracterizam..Maurice Sendak, ilustrador e autor de histórias infantis como Where the Wild Things Are, tinha um fascínio tão grande pelo rato que fez um auto-retrato em que estava em frente ao espelho e o seu reflexo era... o Mickey. Sempre assumiu ter como referências maiores o filme Fantasia e a sua principal personagem..Bart Simpson fez uma das mais simples e demolidoras críticas de Mickey quando, no filme The Simpsons, coloca um soutien preto na cabeça e diz: "Sou a mascote de uma corporação maléfica". Claro que ao mesmo tempo é um reconhecimento da importância da Disney na história da animação, ironia que não escapou ao criador Matt Groening..Michael Jackson tinha uma paixão reverencial pelo Rato Mickey e por todo o imaginário Disney. A famosa luva branca que usou no show da Motown onde popularizou o Moonwalk terá sido inspirada nas luvas do Rato Mickey. Jackson era presença frequente na Disneyland e aparecia várias vezes em público com as personagens Disney, especialmente os favoritos Mickey e Minnie.