Entre Lisboa e Florianópolis. O músico que toca na baixa e vende pastéis de nata

A crise levou-o para fora de Portugal e foi no Brasil que, em 2012, diz ter encontrado todos os sonhos do mundo. Hoje, vive dividido entre os dois países, a música e os pastéis de nata.

Quero voltar a Portugal, depois do verão no Brasil." Mário Nobre vive no verão. Em Lisboa, onde toca, na rua. E no Brasil, em Florianópolis, onde "se vira" vendendo pastéis de nata, integrais, na praia. Tem 38 anos. E anda nisto desde 2012, quando a crise estava a sufocar os portugueses.

Agora é verão, e por isso está em Lisboa. É sempre à sombra de um preto "chapéu à portuguesa", de mochila às costas, ténis All Star e uma guitarra ao peito que Mário faz ecoar a voz e os acordes da sua música pelas ruas de Lisboa. "Ladies and gentlemen", diz. Outras vezes "senhores e senhoras". Tem de adaptar-se aos novos tempos do turismo lisboeta que tornou este espetáculo de rua algo que dá para viver. E é de turistas que se enchem as esplanadas lisboetas. Nos restaurantes que circunda, porque atua sempre de pé, os funcionários já o esperam a determinadas horas e há até quem, entre os serviços à mesa, lhe dê conselhos: "Tens de trazer músicas novas."

As primeiras notas da sua guitarra soaram aos 14 anos. Primeiro, na sua casa em Benfica, como autodidata. Poucos meses e algumas bandas criadas e falhadas depois, por vários palcos de festivais e bares de Lisboa. Estreou-se no Lusitano Bar, no Cais do Sodré, com uma audiência de cinco pessoas, entre elas três prostitutas. "Um ambiente meio surreal, meio decadente. Adorei a experiência", recorda.

Os bolsos quase sempre vazios

Quando a última banda com a qual tocou chegou ao fim, Mário decidiu que a solução estava no passaporte. "Tinha 28 anos, e andava com uma miúda que queria muito ir para o Brasil. Então combinámos viajar até à "Ilha da Magia", Florianópolis", conta. Foi assim o primeiro encontro com o país, através de um panfleto e pesquisas na internet. Mário lembra o momento em que, numa praia quase deserta, ao final do dia, olhou para o horizonte e decidiu que estava na altura de abandonar Portugal de vez. "Se eu me mudasse para algum lugar seria para o Brasil". Marcou no mapa Florianópolis. Era ali que via a vida a acontecer.

Mas os bolsos vazios de quem ainda procurava o seu lugar profissional não deixavam transformar sonhos em realidades. Mário começou uma licenciatura em Turismo, para viajar e trabalhar ao mesmo tempo. A música ficou, entretanto, para segundo plano. Com 31 anos, terminou a formação e foi imediatamente convidado a fazer parte da equipa que iria estrear o Teatro Taborda, em Lisboa. Acomodou-se no regime de recibos verdes, até se cruzar com um novo momento de epifania. Foi num final de tarde, sentado no teatro que tinha acabado de abrir, que olhou a capital e disse, até de forma um pouco desajustada: "Vai-te foder, Lisboa. Deste-me tudo o que poderias ter dado!"

E então, em 2012, Florianópolis. "Casa da Magia" assim chama Mário ao duplex que partilhou com mais dois portugueses. Mário pagava a renda com os seus cozinhados, porque os 40 reais diários do trabalho num hostel ainda não lhe permitiam mais despesas além da própria alimentação. Usava os conhecimentos que em Portugal ganhara num curso de chef de cozinha. "Tive a ideia de abrir um negócio de pastéis de nata. Partilhei essa ideia com os tipos com quem dividia casa. Mas entretanto vim a Portugal numa curta viagem de três meses para assinar uns documentos, e quando voltei eles já tinham implementado a ideia, sem me consultarem", recorda, agora entre gargalhadas. Um negócio que, ainda assim, não ficou esquecido e que faz Mário querer regressar ao Brasil pelo menos uma vez no ano.

Pastéis de nata na praia

Um músico de rua tem de ser intuitivo, alimentar-se do que lhe chega, das adversidades da vida. Não é de horas nem de grandes planos. Mário faz da instabilidade a sua inspiração e foram os ventos contrários do Brasil e uma vida sem rumo aos 31 anos que o levaram de regresso à sua guitarra. "O ficar sem nada inspirou-me. Voltei a sentir música, que naquele momento era a única coisa que eu tinha. Comecei a compor, sem parar, como se tivesse 14 anos novamente", lembra. Mas o vazio fê-lo querer inverter a maré: "Ponderei regressar a Portugal."

Para fazer face a todas as despesas, Mário decidiu regressar à velha ideia: os pastéis de nata. E decidiu começar a vendê-los na praia, como quem vende bolas-de-berlim na Costa da Caparica - ou queijo grelhado e coco em Ipanema. Inverteu a tradição e, no primeiro dia, vendeu 60 pastéis em 20 minutos. "Em três meses, ganho tanto como ganhava em Portugal num ano. Isto tudo trabalhando para mim, durante quatro horas diárias e com mergulhos no mar pelo meio", conta. "Neste verão [no Brasil], regresso lá para fazer o mesmo."

Mas o trabalho na cozinha e a vender na praia era pouca ambição para alguém que já quis fazer da música vida. "Experimenta fazer rua", foi o conselho de um amigo brasileiro, na gíria dos músicos e com uma ideia que inicialmente pareceu disparatada para Mário Nobre. A vergonha de estar tão vulnerável em frente a tanta gente e de ter, ali, uma reação imediata do público, tinham-no feito afastar a ideia da sua mente durante anos. Decidiu, ainda assim, arriscar. Contudo, diz, "as ruas do Brasil são mais fechadas". O meio artístico é mais virado para si mesmo, e as ruas estão sempre cheias de músicos e com lugares cativos. E Mário voltou à situação de que, no final do mês, o dinheiro não era suficiente para continuar na América do Sul.

Lisboa de todos

"Dou por mim sem trabalho", recorda. Então, veio para Portugal , "fazer rua". Esta há sete meses cá. Numa Lisboa com mais vida desde a última vez que a vira, encontrou muitos que, como ele, aportaram na cidade. Todos os dias, Mário trava autênticas batalhas com os muitos estrangeiros que ocupam lugares nas ruas, para tocar, dançar ou fazer alguns truques de magia e malabarismo. "Acho que há cada vez mais gente a sair à rua para tocar. Está a vir muita gente de fora também", conta.

Muitos são brasileiros. A mesma crise que levou a deixar Portugal, há seis anos, é agora o cenário no Brasil e o que atualmente tem trazido muitos brasileiros às ruas portuguesas. Entre camaradas de andanças, há agora um novo projeto que o move. Mário quer criar um movimento: "Já que está tanta gente a tocar na rua, e que isto começa a saturar, porque é que não criamos um passaporte de intercâmbio artístico, em que o artista chega aqui e utiliza a tua licença e tu vais para o Brasil e utilizas a licença desse artista?" Falou com os amigos, brasileiros, e a primeira reação não foi boa. "Disseram-me logo que não conseguiria levar os portugueses para lá, e a conversa é sempre esta "para Portugal, está bom, mas para o Brasil ninguém pode entrar"."

Lamenta, mas ainda não se dá por derrotado. "Agora estou na mesma situação em que estava antes de ir para o Brasil: vazio. Tenho uma relação de seis anos perfeita e estou há sete meses na mesma rotina para ganhar dinheiro." É o que faz, todos os dias, a tocar, entre o Rossio, os Restauradores ou o Chiado. Como diz, adora "viver no paraíso", do lado de lá, mas "é preciso de ir dando umas voltas até à cidade. É necessária a confusão, e o barulho dos carros a buzinar". Mário Nobre está a preparar-se para regressar. Por agora, ao Brasil, mas depois, novamente, ao país onde nasceu.

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