As aventuras paralelas de Batman e Superman

A Marvel tornou-se a marca mais forte das aventuras cinematográficas, mas foi a DC Comics que, através das aventuras de Batman e Superman, inaugurou a era moderna dos super-heróis - e sempre em íntima ligação com a televisão. Ensaio do crítico de cinema João Lopes*

Eis uma coincidência saborosa suscitada pelas memórias cinéfilas do ano de 1939. Trata-se, de facto, de uma data gloriosa para o cinema americano, com Hollywood a produzir uma série de títulos que acabaram por ficar na história com símbolos de uma verdadeira idade de ouro: bastará citar os exemplos emblemáticos de O Feiticeiro de Oz, a lendária fantasia com Judy Garland, e E Tudo o Vento Levou, o épico sobre a Guerra Civil (curiosamente, ambos assinados por Victor Fleming).

Mas é também o ano do nascimento de uma personagem cuja popularidade e mitologia acabariam por ser indissociáveis do cinema: Batman ou, se preferirem, Bruce Wayne, o magnata mais ou menos distante e altivo que encarna a figura do Homem-Morcego sempre que os valores da justiça estão em causa. As respetivas aventuras surgiram pela primeira vez com data de maio de 1939, na edição n.º 27 da revista Detective Comics, com desenhos de Bob Kane e história escrita por Bill Finger.

Acontece que o interesse dos estúdios de Hollywood pela personagem de Batman se manifestou muito cedo, aliás em paralelo com o sucesso da respetiva BD (em 1940, já havia uma edição regular com o nome de Batman).

É bem provável que para muitos espectadores das gerações mais jovens a história de Batman no cinema se defina "apenas" através das derivações crescentemente trágicas assinadas por Christopher Nolan: Batman - O Início (2005), O Cavaleiro das Trevas (2008) e O Cavaleiro das Trevas Renasce (2012), sempre com Christian Bale no papel central. Acontece que o interesse dos estúdios de Hollywood pela personagem de Batman se manifestou muito cedo, aliás em paralelo com o sucesso da respetiva BD (em 1940, já havia uma edição regular com o nome de Batman).

Foi em 1943 que surgiu a primeira adaptação cinematográfica de Batman, não exatamente como um filme, mas em registo de serial (esse modelo de programação por capítulos muito popular nas primeiras décadas do sonoro). Chamava-se apenas Batman e tinha Lewis Wilson no papel central; o formato repetir-se-ia em 1949, com Batman e Robin, agora com Robert Lowery como protagonista.

Em boa verdade, pode dizer-se que esta evolução da personagem representava uma espécie de desafio interno da DC Comics. Isto porque a editora tinha conseguido um espetacular sucesso com as aventuras de Superman, da dupla Jerry Siegel/Joe Shuster, iniciadas em abril de 1938. Dir-se-ia que, mesmo com os seus invulgares recursos de agilidade, movimento e força, Batman representava a versão "terrena" de Superman, afinal um extraterrestre do planeta Krypton.

Ambos os super-heróis se impuseram no audiovisual através de uma curiosa interação cinema/televisão. O primeiro filme centrado na figura de Batman, por vezes citado como Batman: The Movie, surgiu em 1966, procurando rentabilizar o sucesso da série televisiva Batman, com Adam West e Burt Ward, respetivamente como Batman e Robin. No caso de Superman, a evolução foi, de alguma maneira, inversa: também depois de alguns serials, Superman and the Mole Men (1951) representou a estreia do herói em longas-metragens (apesar de só durar 58 minutos...), com George Reeves no papel central, logo a seguir por ele retomado na série televisiva Adventures of Superman.

Se é verdade que há uma origem simbólica da atual vaga cinematográfica de super-heróis, então talvez possamos considerar que essa origem é partilhada, precisamente, por Batman e Superman, ainda que através de dois títulos separados por mais de uma década - são eles Superman (1978), de Richard Donner, com Christopher Reeve, e Batman (1989), de Tim Burton, com Michael Keaton.

A reunião das duas personagens em Batman vs. Superman: O Despertar da Justiça (2016) não deixou muitas saudades, nem mesmo na maioria dos fãs mais militantes.

Hoje em dia, triunfou uma certa adoração beata pelos chamados "efeitos especiais", num vício de consumo induzido pelo marketing e que leva a confundir a ostentação técnica com a arte ancestral de contar histórias. Claro que esses dois filmes se distinguiram também pela excelência do trabalho de estúdio (com destaque para os voos de Superman, uma inovação surpreendente na época, obviamente sem as manipulações digitais do nosso presente). Seja como for, a sua importância histórica e espetacular decorre do facto de Donner e Burton terem sabido recuperar a mitologia dos seus heróis, ajudando a relançar o espírito da grande aventura, tão importante ao longo da década de 1980 (Os Salteadores da Arca Perdida, recorde-se, tem data de 1981).


Convenhamos que as coisas tornaram-se muito menos claras. Por um lado, a reunião das duas personagens em Batman vs. Superman: O Despertar da Justiça (2016) não deixou muitas saudades, nem mesmo na maioria dos fãs mais militantes. Por outro lado, é um facto que a produção da grande rival da DC Comics, a Marvel, agora integrada no império Disney, tem liderado o mercado global através de um marketing especialmente elaborado e agressivo. Uma coisa é certa: o grande inimigo de Batman vai regressar no filme Joker, com Joaquin Phoenix. Com que impacto? Os oráculos da indústria americana garantem que vai ser um dos principais contendores dos próximos Óscares, a atribuir a 9 de fevereiro de 2020.

*João Lopes é crítico de cinema, argumentista e realizador. Colabora no Diário de Notícias, SIC Notícias e Antena 1. Professor na Escola Superior de Teatro e Cinema, é autor de Cinema e História: Aventuras Narrativas (ed. FFMS).

Exclusivos