A raiva, o nojo e a alegria de Rodrigo Leão deram músicas (e isto não é ficção)

Conversa solta, com os pés em Lisboa, o gravador ligado enquanto passam carros e pessoas, em várias camadas de sons. Rodrigo Leão em conversa franca, antes de seguir para outros afazeres - e, quem sabe, levar esta entrevista para uma música.

O músico português fez uma banda sonora para o cérebro. A porta de entrada da exposição Cérebro - Mais Vasto do Que o Céu, na Fundação Calouste Gulbenkian (inaugura-se no dia 16), faz-se ao som da sua música, sobre imagens produzidas digitalmente pelo neurocientista e artista norte-americano Greg Dunn na instalação vídeo Self Reflected. Falámos com Rodrigo Leão sobre este projeto e de como acabou por fazer um disco sobre o cérebro com alguns temas que nasceram da leitura das suas próprias emoções, num desafio do comissário da exposição, o cientista Rui Oliveira.


Porque é que a Maria João, que é a minha sogra e tem 81 anos, chora sempre que ouve as suas músicas?
(Risos). Não sei. Se calhar porque a minha música tem um lado romântico que está muito presente. Se calhar porque eu sou um autodidata e as coisas que faço são muito simples. Às vezes são mais elaboradas, como os arranjos para orquestra, e tenho pessoas que me ajudam a concretizar essas ideias, mas é uma música simples. Acho que provoca muitas vezes essas emoções ou esses estados de espírito que não têm necessariamente que ser tristes. Podem fazer uma pessoa chorar e ser bom. A música tem essa capacidade de provocar reações muito diferentes.

Conhece outros casos de pessoas que são marcadas pela sua música?
Sim. Ainda por cima, a música que tento fazer tem tantas inspirações diferentes que vão desde o tango à música clássica, e à música pop britânica, e à música francesa. Portanto, há discos com músicas mais densas, outros com músicas mais leves. Lembro-me do meu segundo trabalho, o Theatrum [1996], em que um grande amigo de infância me telefonou a dizer que tinha ouvido os primeiros três temas e tinha ficado arrasado, quase deprimido, porque era um disco mais pesado.

A música que tento fazer, que é muito intuitiva, metade será sempre baseada naquilo que me rodeia - quer queira quer não, acabo por ser influenciado se chove ou se faz sol, por exemplo

Tem de sentir emoções com a sua própria música quando a faz?
Tenho. Isso é a grande dificuldade. Por vezes passo muitas semanas à procura de ideias e vou guardando algumas, mas estou sempre ansioso à espera daquela que me provoca mais, que sinto que pode ir mais longe - para mim e para o que estou à procura. E às vezes até posso estar enganado. Posso voltar a ela uma semana ou um mês depois e não resulta. É evidente que no fundo é procurar aqueles bocadinhos que podem ser mais inspirados. Normalmente nem sei porque é que fiz aquilo, se calhar foi qualquer coisa que me aconteceu naquele dia, alguma pessoa com quem me cruzei quando fui ao café. A música que tento fazer, que é muito intuitiva, metade será sempre baseada naquilo que me rodeia - quer queira quer não, acabo por ser influenciado se chove ou se faz sol, por exemplo - e a outra metade é a mais difícil... vem de dentro de mim, talvez seja mais filosófica, mais difícil de explicar. É evidente que, se estou a tentar procurar uma ideia e não sinto nada, tento logo passar para outra.

Estamos a conversar também a pretexto de um trabalho que fez para a exposição Cérebro - Mais Vasto Que o Céu, com o Greg Dunn. É uma viagem ao nosso cérebro, através das imagens dele. O tema tem nome?
Sim. Mais Vasto Que o Céu. Nunca teve título até há duas semanas. É evidente que foi muito baseado nas imagens que recebi do Greg Dunn. Tudo começou com um convite do Rui Oliveira, que é o comissário da exposição. Tivemos alguns encontros e creio que percebi a ideia, o que para mim é muito importante. E acabou por sair esse tema dentro de três ou quatro ideias que eu propus. Mas o que aconteceu foi que há três semanas, um mês no máximo, me desafiaram para editar essa música na exposição em formato CD com algumas das ideias que tinha proposto. Estou a preparar um disco novo e na altura disse isto é impossível, vou parar? Agora não pode ser, mas depois fiquei uns dias à volta desta ideia e a verdade é que acabámos por gravar esses temas e mais 16. O disco tem o nome da exposição, Cérebro - Mais Vasto Que o Céu. O primeiro tema é esse e é muito etéreo. Foi o que as imagens me transmitiram. E acabei por compor uma série de ideias novas...

Como foi esse processo?
O disco tem 12 temas, mas tem cinco temas finais que são emoções provocadas pelo EEG, três provocadas em mim (raiva, nojo e alegria), uma no João Eleutério e uma no Luís Fernandes, que são dois dos produtores que me ajudaram a concretizar este trabalho. Estávamos a ver excertos de filmes - isto é o protocolo de uma psicóloga que o Rui [Oliveira] sugeriu que seguíssemos - pusemos o EEG e aquilo está ligado para traduzir o que vemos no cérebro em notas de piano. Por cima disso tentamos compor alguma coisa. O que sai não é em bruto. Estas últimas três semanas foram uma correria.

O EEG são aqueles aparelhos que leem o cérebro através de ventosas ligadas na nossa cabeça?
Isso. Mas agora há uns mais modernos que se põem atrás da orelha.

Esteve a fazer a música com as suas emoções. Literalmente. No fundo, o que aconteceu foi que pôde ver aquilo que é a sua vida enquanto artista. Como é que um determinado estímulo se traduz em música?
Sim. O cérebro está muito presente na música. A minha música tem um lado quase matemático, tem princípio, meio e fim, tem uma estrutura, a música tem muito que ver com matemática. O meu avô era matemático. Nestas três semanas foi procurar ideias que fizessem sentido nesta exposição e neste trabalho. Houve músicas que nasceram quando eu estava a procurar sons estranhos, eletrónicos, que de alguma forma transmitissem coisas do nosso cérebro e a partir daí começar a compor alguma coisa. Talvez seja um disco menos melodioso. É um disco mais ambiental, mais eletrónico.

Ontem na redação alguém sugeriu que esta era uma boa música para ouvir durante uma ressonância magnética.
Eu nunca fiz nenhuma ressonância magnética, mas concordo porque a música, apesar de ter um lado um pouco misterioso, transmite uma certa paz. Quase que nos afastamos da realidade e isso pode acalmar algumas pessoas.

Tem alguma preocupação com a beleza?
Claro. É uma beleza muito subjetiva, há sempre a procura destes momentos que considero que podem ser mais inspirados. Mas isso só por si é a procura de uma estética qualquer que tem necessariamente que ver com a beleza.

A verdade é que vivo muito preocupado no dia-a-dia a pensar nas coisas que quero fazer e não consigo. O cérebro tem um papel fundamental nisto tudo

O cérebro e as emoções que lhe chegam têm um papel muito especial para um músico autodidata. Porque não começa o seu trabalho por uma pauta, começa pelas coisas que lhe acontecem?
Claro. Sim, sem dúvida. Eu passo quase mais tempo a pensar nas coisas do que a tocar. A verdade é que vivo muito preocupado no dia-a-dia a pensar nas coisas que quero fazer e não consigo. O cérebro tem um papel fundamental nisto tudo. Há tanta gente a fazer música hoje que não sabe escrever... aliás, eu comecei a ouvir música nos anos 1980, quando a gente ouvia grupos como os Joy Division ou os New Order, que cantavam desafinados, tocavam mal, mas havia ali uma alma gigante. Quando me convidaram para este projeto eu pensei: será que eles sabem quem é que eu sou? Se calhar imaginavam uma pessoa muito mais intelectual... Mas depois percebi, até porque eles tinham uma referência das Florestas Submersas, que fiz para o Oceanário, e já havia ali um universo que eles queriam transmitir.

No momento do convite, se já tivesse um EEG na cabeça, qual seria o som?
Nas primeiras experiências que fizemos na Universidade Nova, saía um som de piano que fazia ting, tong, ting, assim uma coisa muito estranha. Depois, quando foi para as emoções induzidas, antes de vermos os excertos desses filmes, uns provocavam raiva, outros medo, outros alegria, aconselhavam-nos a ver o boletim meteorológico, assim uma coisa neutra durante um minuto, num sítio sossegado, e depois começar a ver aquilo. E pronto, íamos gravando o registo das notas num som de piano muito simples e depois, então, tentávamos compor alguma coisa em cima daquele ambiente...

Sim, mas isso foi depois. Refiro-me ao momento em que a Gulbenkian lhe fez o convite para compor a música para a viagem ao cérebro sobre as imagens de Self Reflected de Greg Dunn...
Não sei... Um certo medo, um receio, assustado. Se fosse um som era muito o universo dos sons que estão aí. Eu gosto muito do som do violoncelo, do piano, aqui, como é muito subjetivo, vejo mais estes sons de sintetizador.

Nas primeiras experiências que fizemos na Universidade Nova, saía um som de piano que fazia ting, tong, ting, assim uma coisa muito estranha

Neste tema parte de uma imagem, o cérebro humano. Muitas vezes não tem uma imagem para criar músicas, tapetes sonoros - estou a lembrar-me dos separadores para a TSF, por exemplo. Há uma diferença entre criar sons para algo que toda a gente está a ver ou criar som para algo que é o Rodrigo Leão que vai dizer qual é o caminho?
Quando nos dão algumas ideias, algumas pistas para seguirmos, no momento inicial isso passa a ser muito importante, ou seja, tem uma influência grande para o que vai surgir no início. Depois não. Depois já estou bastante desligado dessas ideias para me concentrar naquilo que apareceu. Estas imagens do Greg Dunn são muito fortes. E, depois de trabalhar três ou quatro ideias e de lhes ter mostrado, escolhemos uma e há um trabalho de sincronizar ao máximo, são pequenos pormenores, muitas vezes da música com a imagem, mas na minha cabeça passa quase a ser a preocupação da parte matemática da música. Que instrumento entra ali, e depois sai ali. E depois de estar o mais importante feito, que é a tonalidade, a harmonia, a melodia... Para a TSF foram 40 ou 50 jingles, já foi há 17 anos. É diferente, mas são estados de espírito também. Ou é desporto ou é tempo, notícias internacionais.

Já alguma vez lhe aconteceu não conseguir criar uma música?
Acontece, sim. Mais vezes do que desejaria. Às vezes, por muito que uma pessoa tente explicar o que quer, é difícil acertar. Estou a lembrar-me de uma cena do filme The Butler, do Lee Daniels, há quatro ou cinco anos. Era uma cena de um funeral e eu mandei-lhe sete ideias e nunca mais acertávamos. Já não me lembro como é que resolvemos, acabou por ficar uma ideia que não era para ali, adaptou-se. Às vezes, por muito que uma pessoa tente explicar o que quer, é difícil acertar no que me é pedido.

A Maria João pediu para lhe dar um recado: que continue a criar durante muitos anos, pois é um bálsamo para todos nós.
Muito obrigado. Fico muito comovido. Obrigado.

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