A atriz inglesa e o Algarve dos anos 60

Pisou o mesmo palco que Cliff Richard e passou a vizinha dele em Albufeira. Jenny Grainer vive no Algarve desde os anos 1960, escreveu sobre uma vivência feita de festas e contacto com a população trabalhadora e pobre

Quando chegou ao Algarve, em 1964, a na altura atriz e cantora Jenny Grainer, que trazia na bagagem - ou no currículo - o trunfo de ter estado em palco com Cliff Richard e os Shadows num teatro em Blackpool, não imaginava ir viver na região a maior parte da sua vida. E não lhe passava pela cabeça que, poucos anos depois, iria ser vizinha do artista em Albufeira, numa altura em que já estava casada com Ron Grainer, celebrado compositor do tema principal da popularíssima série de ficção científica Doctor Who.

A primeira viagem para Portugal foi uma aflição com afortunado final. Depois de um longo e aventuroso percurso que incluiu transporte de avião, barco, comboio e táxi, foi recebida, tardiamente, por uma mulher irada com o atraso, que se limitou a abrir-lhe a porta e a passar-lhe a chave. "Encontrei então uma garrafa de gin, bebia-a e dormi muito bem." De manhã, quando abriu a janela, sentiu-se abençoada com "a vista linda" que tinha do mar.

Foi noutro Algarve que habitou esta mulher nascida em Portsmouth, com infância passada em Malta, onde estava destacado o seu pai, oficial da marinha real britânica. Entre outros lugares, viveu em Albufeira - "mudou tanto que já não sei onde fica a casa" - e em Ferragudo, aldeia de pescadores na qual reconhece, em ruas e casas antigas, características de outrora. Nos anos 1960 circulou entre os locais, desconhecedores ainda do fenómeno turístico, e uma comunidade de estrelas que escolhiam o território português para as férias por isso lhes permitir frequentar os cafés sem se obrigarem ao constante dever do autógrafo.

Hoje com 73 anos, a viver em Lagoa, partilha as fotografias dos primeiros dias algarvios e do belo rosto de atriz em formação, e recorda instantes muitos. A frequência do Sir Harry"s Bar, pub na altura comandado por um sir que, não sendo sir na repartição, era mais sir do que outros à conta do seu magnífico bigode e das suas requintadíssimas maneiras. A visita diária ao Café Bailote, de um artista viajado, que dominava o inglês, e a uma discoteca frequentada por uma constelação estrelar, na qual o marido, por trabalhar nos meios televisivos, se integrava em pleno.

Figuras de revista do social em Inglaterra, como a apresentadora Muriel Young, o comediante Eric Morecambe e a atriz Olivia Newton-John ali conviviam, comiam, bebiam, divertiam-se - e passavam despercebidos. "Só havia um canal", lembra Jenny, "e por vezes o ecrã ficava negro porque, em tempo de salazarismo, alguém decidira não ser conveniente ver certas coisas". O que para os ingleses era muito estranho. E bizarro também se apresentava o facto de serem avisados para não falar em política por nunca se saber se a pessoa atrás de um balcão era ou não um informante político.

Jenny Grainer trouxe para a conversa o seu livro de crónicas sobre os seus primeiros tempos algarvios chamado Portugal and the Algarve - Now and Then (Portugal e o Algarve - Agora e nessa Altura). Começa deste modo: "In the beginning there was the sun, the sea, the golden sand and the clear blue sky (No início era o sol, o mar, a areia dourada e o céu azul limpo)." É um rememorar não apenas de uma relação idílica com a natureza, da convivência entre notáveis, do modo como criou os seus três filhos, mas também do contacto com os algarvios e os seus costumes, de um tempo em que poucos falavam a língua inglesa, das drogarias familiares e da mercearia de esquina, do senhor Vargas, onde o grão e o feijão estavam arrumados em sacos e onde a manteiga era vendida à fatia enrolada em papel, das idas à praia com um pouco usual biquíni, da especificidade das formas verbais portuguesas como a pergunta "é servido?" ou o remate "pois" ["a wonderful word that means nothing and everything (uma palavra maravilhosa que quer dizer nada e tudo)"]. Da observação da afetividade aberta das mães portugueses com os filhos, em contraste com a pouca proximidade com a descendência por parte de quem chegava dos países do norte da Europa.

A dado passo refere-se também ao gozo dos locais com os estrangeiros que comiam sardinhas de garfo e faca. Diz, com saudade: "Nessa altura, em Portimão, os pescadores chegavam do mar com os cestos cheios de peixe, lançavam-nos e havia um outro pescador para os apanhar!" E depois comia-se as sardinhas junto à maresia, nos restaurantes da zona. "Era o peixe que sustentava as pessoas e havia várias fábricas onde muitas mulheres trabalhavam com sardinhas."

Além do sol, há sombra no livro, a sombra das gentes com pouco e uma vida difícil, como a de uma empregada, que para chegar ao destino tinha de caminhar 30 minutos para no fim pouco receber. "Ganhava uma coisinha de nada." Os estrangeiros com ímpetos de generosidade recebiam outro alerta. "Fui avisada para não pagar mais porque, se o fizesse, todos iriam esperar ganhar o mesmo." Há vários nomes portugueses distribuídos nestas páginas. Como o de Olímpia, "uma rapariga pequena, de pele branca salpicada de sardas", cuja gravidez recorrente se devia aos abusos do padrasto, ou o de Angelica, que teve de se prostituir para pagar os custos da doença de Parkinson do marido.

Um dos textos mais marcantes é Rich by Whose Standards? (Rico pelos Standards de Quem?) e traz a descrição do dia em que foi visitar a terra onde nascera Maria, a sua empregada no final dos anos 1960, Santana da Serra, no Alentejo, momento em que percebeu, ao pisar o chão de terra da casa sem janelas da "tia Gracieta" e ao defrontar-se com a escassez de água, retirada de um poço público, que a miséria alentejana ainda era superior à algarvia.

Por isso, ao mesmo tempo que recorda com nostálgica alegria a terra portuguesa que conheceu e as "gentes muito dadas", e se preocupa com a subida de preços das casas, celebra o que o 25 de Abril, revolução que acompanhou pela BBC, tornou menos distante: a possibilidade de as pessoas perseguirem uma vida digna, com casas nas quais não falta água e a luz não se vai embora de 15 em 15 dias. Como acontece no seu apartamento, em Lagoa, numa zona sobretudo habitada por portugueses, em que se mantém, através de uma infinidade de canais, sintonizada com o que se passa em todo o lado.

Para uma ex-atriz, não podia faltar uma referência ao cinema. Lembra-se de uma sala, em Albufeira, que frequentou com o marido. Nem sempre as coisas corriam bem com a projeção ou, se quisermos, corriam de uma forma que agradaria ao gosto de um Buster Keaton. "O projecionista às vezes punha os filmes ao contrário. A gente chegou a ver o fim antes do princípio." Depois havia os intervalos em que se fumava e, muito britanicamente, se bebia um brandy. "Hoje temos o cinema com ar condicionado e os filmes passam como deve ser. Na semana passada fui a Portimão ver um filme com uma amiga", conta Jenny Grainer, a inglesa de coração algarvio.

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