De todas as cores: as flores no cinema

Há filmes que evocam as flores nos seus títulos, outros mostram-nas como pontuações das relações humanas, outros ainda celebram a sua vocação simbólica - da singeleza de Chaplin à fantasia de Tim Burton.

Por vezes, as flores dos filmes são invocações de uma pureza perdida. De tal modo que nem sequer passam pelas imagens - basta que estejam metaforicamente presentes. Lembremos um exemplo que faz parte das memórias cinéfilas dos que viveram a sua adolescência nas décadas de 1960/70: This Property Is Condemned, um belo filme americano de 1966, realizado por Sydney Pollack a partir da peça homónima, em um ato, escrita por Tennessee Williams. Nele se faz uma evocação dos tempos da Grande Depressão, centrada na relação de uma jovem de uma pequena cidade do Mississipi e um responsável dos caminhos-de-ferro - ela é Natalie Wood, então já consagrada por títulos como West Side Story e Esplendor na Relva, ambos de 1961; ele, Robert Redford, estava a caminho de se tornar uma grande estrela.

Uma das fundamentais linhas dramáticas do filme decorre do misto de energia e vulnerabilidade da personagem feminina: assim como o título original identifica um edifício que vai ser destruído (à letra: "Esta propriedade está condenada"), assim ela emerge como símbolo de uma pureza ideal que caminha para a perdição. Pois bem, em Portugal a distribuição do filme não quis saber de traduções mais ou menos literais, optando por aquilo que, porventura de forma sugestiva, podemos chamar um arranjo floral. A saber: A Flor à Beira do Pântano.

O exemplo é revelador do poder metafórico das flores no interior da história do cinema. A ponto de a inocência mais ou menos romântica associada às flores poder servir de sugestão de muitas convulsões sociais, políticas e culturais. Lembremos, a esse propósito, outra sugestiva referência dos anos 1960 (curiosamente, também de 1966): A Papoila também É Uma Flor, de Terence Young, um thriller sobre o combate ao tráfico de heroína na fronteira do Irão com o Afeganistão cujo título remete para a variedade de papoilas (Papaver somniferum) da qual se extrai o ópio. Está longe de ser um grande filme, mas o seu impacto foi enorme: financiado pelas Nações Unidas, contando com a colaboração de um elenco de prestígio (Yul Brynner, Eli Wallach, Grace Kelly, etc.) que trabalhou sem remuneração, o seu lançamento refletia a inquietante diversificação dos circuitos das drogas.

Em todo o caso, podemos considerar que existe uma espécie de capítulo autónomo do espetáculo que consagra as flores como matéria e símbolo de mundos alternativos, habitados por um misto de fascínio e medo - com o fascínio, à boa maneira da fábula, a poder nascer do próprio medo. Afinal de contas, em O Feiticeiro de Oz (1939), de Victor Fleming, a lendária "estrada dos tijolos amarelos" que Judy Garland percorre é também uma exuberante paisagem de cores... e flores.

Podemos mesmo dizer que, através das flores, o cinema consagrava também as maravilhas do Technicolor, sistema de tratamento da película cinematográfica que ficou como uma das marcas da idade de ouro de Hollywood. O exuberante jardim de Alice no País das Maravilhas (2010), de Tim Burton, é um herdeiro direto desses tempos de glória - e tanto mais quanto se trata de um filme estranho aos modelos de super-heróis e aventuras espaciais que triunfaram na última década.

Dir-se-ia que as flores cumprem esse voto poético de nos convocar para a possibilidade de sermos felizes. Como escreveu Vinicius de Moraes: "A felicidade é uma coisa louca / Mas tão delicada, também / Tem flores e amores de todas as cores." No limite, tudo isso pode ser a marca de um amor utópico, enigmático e, por fim, indecifrável. Nos tempos heroicos da Nova Vaga francesa, Agnès Varda realizou um filme que se intitula, justamente, A Felicidade (1965), por assim dizer assombrado pelas imagens de flores que pontuam todos os cenários: é a história de um triângulo amoroso que, de acordo com a nossa sensibilidade, podemos interpretar como um beco sem saída ou a celebração de uma comunhão radical entre homens e mulheres - um filme fora de moda a que valeria a pena regressar neste nosso tempo de existências aceleradas e relações efémeras.

Afinal, de que falamos quando falamos de uma flor? Apetece voltar a reivindicar o artifício da fábula e revisitar a dimensão mais primitiva, não necessariamente mais infantil, dos desenhos animados. Bambi (1942), um dos títulos nucleares do universo de Walt Disney, apresenta-se todo ele como uma deambulação mágica por paisagens de muitas flores, num efeito dramático tanto mais paradoxal quanto, como é sabido, se trata da história de um veado órfão que tenta superar o trauma da morte da mãe. Entre os amigos que o ajudam a resistir está um gambá que tende a ser marginalizado por causa do seu mau cheiro... Sublinhando a ambivalência das respetivas relações, trata-se de uma personagem que Bambi conhece no meio de um campo de flores. Mais do que isso, o seu nome é... Flor.

São as flores que pontuam as imagens de Kim Novak em Vertigo - A Mulher que Viveu Duas Vezes (1958), de Alfred Hitchcock, afinal intensificando a aventura passional vivida pela personagem de James Stewart: rodeada de flores, Novak tanto pode ser a mais singular dessas flores como a protagonista de uma cerimónia fúnebre que se confunde com o impulso amoroso da personagem masculina. São também as flores que, desde o princípio, definem Eliza Doolitle, a figura central de My Fair Lady (1964) interpretada por Audrey Hepburn sob a direção do mestre George Cukor: ela é uma pobre vendedora de flores que irá assumir uma identidade aristocrata cuja toilette mais célebre, além de um vestido de imaculada elegância, integra um chapéu florido - tudo criado pelo genial Cecil Beaton (retratista da família real britânica).

Por vezes, as flores são citadas nos títulos dos filmes por razões estritamente simbólicas. Em 1989, por exemplo, muito antes das convulsões do movimento #MeToo, Herbert Ross dirigiu um elenco de luxo - Sally Field, Shirley MacLaine, Julia Roberts, etc. - para celebrar a pluralidade emocional de um universo de mulheres centrado num cabeleireiro que funciona como genuíno microcosmo social. Chamava-se no original Steel Magnolias, ou seja, à letra, "Magnólias de Aço" - o tradutor português quis ser mais universal e lançou-o como Flores de Aço. No caso de As Flores da Guerra (2011), do chinês Zhang Yimou, trata-se de acompanhar a saga de um grupo de mulheres refugiadas numa igreja, em 1937, na cidade de Nanquim ocupada pelos japoneses; na altura do seu lançamento, ficou como a produção mais cara da história do cinema da China.

Num registo bem diferente, é imperioso citar uma das mais célebres sequências com flores - mais exatamente: pétalas de rosas - num registo dramático que envolve a permanente discussão dos laços familiares tradicionais. Está em Beleza Americana (1999), de Sam Mendes, e corresponde ao registo onírico com que a personagem de Kevin Spacey descobre uma colega da sua filha, interpretada por Thora Birch (atualmente num papel secundário na série The Walking Dead): é, afinal, um exemplo muito cru, "florido" mas nada poético, da capacidade de o cinema funcionar como espelho dos nossos mundos mais secretos.

Algo semelhante se poderá dizer do modo como Akira Kurosawa encenou os seus sonhos num filme que, para evitar equívocos, foi lançado como Sonhos de Akira Kurosawa (1990). A exuberância, não apenas das flores, mas de todos os elementos paisagísticos, está presente no episódio dedicado a Van Gogh, com Martin Scorsese a interpretar o pintor holandês. De qualquer modo, as flores pontuam os cenários de um outro episódio em que o sonho, assombrado por uma ameaça apocalíptica, se vai transfigurando em pesadelo - as flores deixam de ser naturais para surgirem como sintoma de uma natureza cuja vocação redentora se perdeu.

Enfim, se podemos definir a flor como uma apoteose da visão, um frágil e comovente sinal da possibilidade da beleza, que dizer quando alguém não pode fruir os elementos de tal visão? É essa a pergunta inerente ao clássica Luzes de Cidade (1931), de Charlie Chaplin, com o mais célebre dos vagabundos que o cinema gerou a apaixonar-se por uma mulher cega que... vende flores. Quase 90 anos depois, a sua subtileza narrativa continua a ensinar-nos como a simplicidade é a mais complexa das artes.

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