Os primeiros casos surgiram na primeira semana de dezembro na cidade de Wuhan. A doença foi comunicada

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Coronavírus. A nova epidemia que veio da China

Em dois meses, o vírus de Wuhan já se espalhou pelo mundo infetando cerca de 35 mil pessoas (e matando 725). As síndromes parecem as de uma pneumonia mas o vírus é novo e, portanto, ainda não há medicamentos no mercado o combater.

Desde o início do século esta é a terceira vez que um novo vírus, que se manifesta como doença respiratória, com sintomas idênticos aos da gripe ou da pneumonia, emerge na China.

A explicação poderá estar no facto de aqui as pessoas ainda terem um contacto muito próximo com determinados animais selvagens, que vão sendo hospedeiros de vírus e que a certa altura, pelas mutações que sofrem, tornam-se capazes de infetar os seres humanos, dizem os especialistas.

Foi isso que aconteceu com a SARS (síndrome respiratória aguda grave), doença respiratória identificada em 2002, provocada por um coronavírus e cuja origem está ligada aos gatos civetas, um mamífero carnívoro, vendido nos mercados chineses para fazer parte da alimentação. Foi isso que aconteceu com a gripe das aves, identificada em 2009, causada por uma variedade do vírus influenza (H5N1) que se hospedou em aves, também vendidas em mercados na China.

E muito provavelmente foi o que aconteceu agora com a doença respiratória coronavírus - 2019-nCOV - provocada por um novo agente da família do coronavírus, muito semelhante ao que provocou a SARS.

Os primeiros casos da misteriosa pneumonia surgiram na primeira semana de dezembro na cidade de Wuhan, na província de Hubei, que tem cerca de 11 milhões de habitantes e é a sétima maior da China. A doença foi comunicada à OMS pela primeira vez a 31 de dezembro de 2019, em Wuhan: referia-se um "conjunto de casos", cerca de 40, de uma pneumonia atípica causada por um vírus desconhecido. Essas primeiras semanas podem ter sido cruciais para que o vírus se espalhasse. O secretário do Partido Comunista de Wuhan, Ma Guoqiang, já admitiu que reagiram tarde à crise viral, dizendo estar "dominado por um sentimento de culpa e de remorso". "Se eu tivesse adotado fortes restrições mais cedo, o resultado teria sido melhor do que é hoje", frisou.

É verdade que o surto de SARS foi um catalisador de mudanças no sistema de saúde chinês. A nível mundial, a SARS infetou oito mil pessoas e provocou perto de 800 mortos (349 das quais na China). O investimento na saúde aumentou desde então e, além disso, também foram introduzidos novos procedimentos para detetar e reagir a epidemias. Por exemplo, antes, as autoridades de saúde costumavam relatar doenças infecciosas preenchendo manualmente fichas que depois enviavam por fax para um escritório central.

Mas nem todas as reformas na saúde pública que foram propostas na altura da SARS foram implementadas. Os mercados de animais vivos da China continuam a ser uma fonte perigosa de possíveis novas infeções

Depois da SARS, o governo criou um sistema online centralizado que liga as clínicas e os hospitais de todo o país e permite reportar casos em tempo real. O prazo para reconhecer, caracterizar e relatar informações sobre os vírus foi bastante encurtado desde o surto de há 17 anos. O que levou meses durante o tempo da SARS está agora compactado em questão de semanas ou dias. A nova doença foi logo identificada como um novo tipo de coronavírus, semelhante à pneumonia atípica ou SARS. A partir daí, foi mais fácil identificar a nova estirpe: o vírus é agora designado 2019-nCoV. Desde então vários especialistas de todo o mundo têm estudado o vírus, de modo a facilitar o diagnóstico e procurar um antídoto.

Mas nem todas as reformas na saúde pública que foram propostas na altura da SARS foram implementadas. Os mercados de animais vivos da China continuam a ser uma fonte perigosa de possíveis novas infeções. No entanto, apesar de alguma legislação, como os animais selvagens são usados em iguarias ou medicamentos tradicionais, é impossível acabar com o comércio de animais vivos.

Neste caso, como os primeiros doentes diagnosticados em dezembro tinham em comum o facto de terem estado num mercado de peixe e de frutos do mar da cidade, a primeira medida tomada pelas autoridades chinesas foi o encerramento do mercado, por acharem que assim conseguiam travar o foco de transmissão. Só que percebeu-se que o vírus se propagava a uma velocidade estonteante, e não só do animal para o homem, mas também entre humanos. A cidade foi colocada de quarentena mas, entretanto, novos casos começaram a surgir dentro e fora da China: neste momento são já mais de 17 mil os casos diagnosticados em todo o mundo.

O novo vírus parece ser menos mortal do que outros vírus identificados como pertencendo à mesma família, mas, pelo contrário, o processo de contágio é mais rápido, dizem os especialistas. A primeira morte causada por este novo vírus fora da China foi de um homem de 44 anos, natural de Wuhan, que se encontrava nas Filipinas. Apesar de as autoridades garantirem que não há motivo para pânico, na semana passada, a Organização Mundial da Saúde decretou que se está perante uma "situação de emergência internacional". Ou seja, que há certos cuidados que devem ser tomados - como por exemplo o isolamento de todos os doentes suspeitos de terem contraído o vírus ou das pessoas que possam ter tido contacto com ele. Esse é o motivo por que alguns países fecharam as fronteiras a pessoas vindas da China e várias operadoras de transporte também estão a reduzir a circulação de e para o país. Mas os vírus, como se sabe, não conhecem fronteiras.

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