A rainha inglesa que gerou portugueses geniais

O casal D. João I e D. Filipa de Lencastre simboliza melhor do que ninguém a aliança luso-britânica, revisitada nestes tempos de Brexit.

Se há figura da história de Portugal a quem os historiadores anglo-sa­xónicos fazem justiça é ao infante D. Henrique. "Prince Henry the Navigator", dizem, homenageando o papel de incentivador das Descobertas nos séculos XV e XVI, apesar de o mais longe que foi ter sido Ceuta. E se suspeito de que o infante ser meio-inglês ajude ao estatuto internacional, verdade seja dita que na sua excelente educação terá pesado muito essa Philippa of Lancaster que em 1387, por casamento com D. João I, se tornou rainha de Portugal. Tanto Camões como Pessoa sublinharam a personalidade da britânica, a importância política do casamento, mas sobretudo as virtudes intelectuais dos seis filhos que chegaram à idade adulta, cinco homens (incluindo o rei D. Duarte) e uma mulher, Isabel de Borgonha, cujos dotes de governante e diplomata a fizeram célebre. "Que enigma havia em teu seio/que só génios concebia", disse da mãe Pessoa na sua Mensagem; "ínclita geração", descreveu Camões os filhos no Canto IV de Os Lusíadas.

O casamento de D. João I com Filipa, filha de John de Gaunt, cabeça da Casa de Lancaster, durou de 1387 à morte desta em 1415. Ou seja, de pouco depois da Batalha de Aljubarrota, onde besteiros ingleses ajudaram a garantir a independência frente a Castela, até às vésperas da tomada de Ceuta, ponto de partida do império. A rainha aconselhou o marido no empreendimento, mas já não assistiu à vitória em que todos os filhos participaram. Tinham sido, porém, por si benzidas as espadas com que o rei armou cavaleiros D. Duarte, D. Pedro, D. Henrique, D. João e D. Fernando (Infante Santo).

Foi um matrimónio de Estado. Com um impacto que chega até hoje, como salienta Chris Sainty, embaixador do Reino Unido em Lisboa: "O casamento de D. João I com D. Filipa de Lencastre em 1387 formalizou uma amizade entre os nossos dois países que já era profunda, e estabeleceu uma aliança que perdura há mais de 600 anos. Um dos filhos deste casamento, o infante D. Henrique, o Navegador, foi o grande estratega que esteve na origem da Era dos Descobrimentos portugueses."

"O casamento de D.João I com D. Filipa de Lencastre em 1387 formalizou uma amizade entre os nossos dois países que já era profunda, e estabeleceu uma aliança que perdura há mais de 600 anos", Chris Sainty, embaixador do Reino Unido em Portugal.

Também Barry Hatton, jornalista britânico há muito em Portugal, sublinha a relevância do casamento do primeiro monarca da dinastia de Avis com uma Lancaster, dinastia que dará depois vários reis a Inglaterra, a começar por Henrique IV, irmão de Filipa: "A importância histórica deste casamento resume-se em duas palavras: ínclita geração. Por isso, acho-a muito mais valorizada em Portugal do que em Inglaterra. De modo geral, o casamento solidificou (se fosse preciso solidificar ainda mais) a amizade luso-inglesa."

Hatton, autor de livros como Os Portugueses e A Rainha do Mar, nota ainda que "também, em termos culturais, vale a pena referir que os historiadores dizem que D. Filipa teve uma influência positiva na salubridade e na vida da corte, nos aspetos de decoro e conduta".

Ora, se Filipa trouxe modos ingleses para a corte portuguesa, a portuguesa Catarina levou costumes no século XVII de cá para a corte britânica, como o embaixador Sainty nota: "Mais tarde surgiu Catarina de Bragança, a nossa única rainha portuguesa, a quem é frequentemente atribuída a popularização do hábito de tomar chá em Inglaterra. Mas na verdade, o seu casamento com o rei Carlos II trouxe estabilidade e prosperidade a Inglaterra após uma sangrenta guerra civil, consolidando a antiga aliança e cedendo à Grã-Bretanha territórios em África e na Índia."

Filipa de Lencastre e Catarina de Bragança, a filha de D. João IV, emergem como símbolos de uma relação histórica que vai da participação de cruzados britânicos na conquista de Lisboa até à NATO. Formalizada no Tratado de Windsor, de 1386, é a mais antiga aliança diplomática em vigor, com muitos altos (Restauração, Guerras Napoleónicas) e alguns baixos (Ultimato).

Há quem explique a aliança pela importância estratégica de Lisboa como porto atlântico e pela necessidade histórica de o Império Britânico contrariar uma Espanha demasiado poderosa se controlasse toda a Península Ibérica. Mas, entre brindes a Isabel II com vinho do Porto, há também quem, como o jornalista Hatton, pense sobre a relação entre os povos, "é que, sendo tão diferentes, se entrosam muito bem. Os opostos atraem-se. A fleuma britânica, o planeamento cuidadoso dos ingleses e o seu pragmatismo contrastam com a paixão, a inspiração e a flexibilidade dos portugueses".

Já o embaixador do Reino Unido, nestes tempos de Brexit, diz: "Os laços entre as nossas nações e os nossos povos são tão fortes e relevantes hoje em dia quanto foram nos tempos antigos, e isso dá-me uma enorme esperança para o futuro."

Há dois anos, depois de ver o filme Dunkirk, Manuel Alegre enviou para o DN um artigo com o título "Viva a Inglaterra". Escreveu o poeta que devemos estar agradecidos pelo heroísmo britânico durante a Segunda Guerra Mundial e esperar, de novo com o Brexit na mente, que "Portugal se lembre do papel da Inglaterra em momentos decisivos da nossa luta pela independência".

Quem tiver dúvidas sobre essa relação especial visite o Mosteiro da Batalha. Lá estão os túmulos do casal que originou a ínclita geração. E os dela também.

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