7 marcas de Python. Como eles mudaram o humor para sempre

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7 marcas de Python. Como eles mudaram o humor para sempre

Dos Simpson a Ricky Gervais, as influências na cultura popular do formato criado por Cleese, Chapman, Gilliam, Idle, Jones e Palin para Flying Circus (Os Malucos do Circo) são tantas e tão duradouras que até têm direito a entrada no dicionário.

Pythonesque - "Denotando ou aparentando ter o humor absurdo ou surrealista de Flying Circus (Os Malucos do Circo) de Monty Python, uma série cómica britânica (1969-74)." A entrada do Oxford English Dictionary - que daria pythonesco(a) em português - é reveladora de como o humor do grupo criado por John Cleese, Graham Chapman, Terry Gilliam, Eric Idle, Terry Jones e Michael Palin influenciaram o mundo (ocidental, pelo menos).

O efeito pythonesco no mundo moderno é visível até nos mais insuspeitos locais. Um exemplo: é por causa deles que hoje, em língua inglesa, chamamos spam aos e-mails não solicitados. Foi tal o impacto do sketch do final do 25.º episódio de Flying Circus (1970), em que dois clientes de um snack-bar tentam pedir um pequeno almoço, mas todos os pratos têm "Spam, Spam, Spam, Spam... Spammity Spam! Wonderful Spam!" - uma espécie de fiambre inglês, compactado e enlatado, que mais parece comida para animais de estimação e que, em especial no pós-guerra, havia por todo o lado -, que este acabou por ser adotado como designação para mensagens online abusivas, não solicitadas ou cuja simples existência incomoda.

É assim justo dizer que a humanidade ficou diferente com os Monty Python. Agora, 50 anos volvidos desde a estreia de Flying Circus (Os Malucos do Circo) na BBC2, outros fenómenos de popularidade igualmente marcantes foram lá beber inspiração ou usufruíram do seu pioneirismo na forma de fazer humor.

Nada é proibido. Como nos Simpson

Nenhum assunto - da política à religião, dos costumes às artes - está a salvo da sátira, da ironia, da caricatura. Exatamente aquilo que a família Simpson inventada por Matt Groening anda a fazer há 30 anos. A série de televisão de maior duração da história - e foi outra vez renovada por dois anos - já abordou tantos assuntos nos seus quase 700 episódios que praticamente nada escapou ao seu humor. Não é por isso de admirar que tenha acertado em acontecimentos futuros, como a eleição de Donald Trump para a presidência dos EUA, algo que parecia tão absurdo que só podia ser piada.

Não havia redes sociais no tempo dos Python (e é até provável que, se houvesse, eles não teriam podido ser tão "politicamente incorretos"), mas são muitos e variados os momentos em que a crítica à sociedade é tão acutilante que até faz doer. Como o sketch em que um John Cleese a fazer de pivô de noticiário continua a ler, impávido, os press releases oficiais enquanto um gangue o rapta e lança ao mar. Ou a competição para o maior idiota da classe alta do ano, cujos "atletas" têm evidentes limitações mentais, provavelmente resultado da consanguinidade praticada pelas "famílias bem".

A sátira levada ao extremo. Tal qual South Park

"Oh não, eles mataram o Kenny." Em praticamente todos os episódios da série animada americana South Park a personagem do menino pobrezinho perde a vida. Consta que já morreu 126 vezes, contando com filmes, jogos de vídeo, etc., só para reaparecer na semana seguinte como se nada tivesse acontecido - e a continuidade para as urtigas!

Parece não ter limites a ironia da série criada por Trey Parker e Matt Stone estreada em 1997. Há até personagens como um cocó que fala ou um professor gay inicialmente muito enfiado no armário e que chega a mudar de sexo... duas vezes.

Nada de mais extremo do que, por exemplo, o sketch do restaurante de luxo em que todos os responsáveis - empregado de mesa, gerente de sala, dono do espaço e chef de cozinha - acabam mortos ou com a vida destruída por causa da humilhação de estar na mesa posta um... garfo sujo.

Sketches com conclusão são sobrevalorizados. Veja-se o SNL

O formato era já um clássico quando o Flying Circus se estreou, em 1969. Cerca de meia hora de programa feito de uma sucessão de apontamentos de humor, sketches que não são mais do que a versão televisiva da anedota. Só que, como em tantas outras coisas, os Python pegaram na fórmula conhecida e deram-lhe a volta.

Muitos são os sketches que não têm conclusão, não há o tradicional remate da anedota, simplesmente acabam. E não sabem pior por isso. É o caso do sketch de Clínica da Discussão (Argument Clinic), em que Michael Palin paga a John Cleese para ter uma discussão.

A já clássica série de humor americana Saturday Night Live (no ar desde 1975) tem basicamente a mesma estrutura. A influência pythonesca na série é assumida pela humorista Tina Fey, figura de proa do SNL, citada na Entertainment Weekly: "Os sketches com conclusão são sobrevalorizados. A sua característica-chave era fazer algo enquanto tinha piada, e depois simplesmente parar e partir para outra coisa."

Quando o nojento dá para rir. E se for com boa música... bem-vindos a Family Guy

Seth McFarlane, o génio por trás da série de animação Family Guy - cujo talento vocal lhe permite interpretar mais de uma dúzia de personagens diferentes -, assumiu, numa entrevista em 2012, que a ideia de combinar momentos de humor com música de alta qualidade lhe foi mostrada pelos Python: "O filme O Sentido da Vida [de 1983] vem-me à cabeça, e o meu exemplo preferido é [a canção] Every Sperm Is Sacred. É especialmente bem escrita, é musicalmente legítima, a orquestração é fantástica..."

Mas há mais pontos de contacto. Muitos mais.

- Há as referências explícitas - quando Meg, a jovem da família, é posta de castigo a ver, amarrada à cadeira, "as 178 horas de cenas sem piada dos Monthy Python" ("Eu sou uma rapariga, eu nem sequer dos sketches com piada dos Monthy Python gosto", diz ela);

- Há as homenagens, como o separador das senhoras idosas a bater palmas, num filme a preto e branco, usado recorrentemente no Flying Circus e repetido pelo menos uma vez em Family Guy;

- E há as cenas "inspiradas": quem não se lembra do sketch de Mr. Creosote de O Sentido da Vida - o homem muito obeso interpretado por Terry Jones que vai comer, comer, comer ao restaurante para de seguida vomitar?

Compare-se com a cena de Family Guy em que o patriarca, Peter Griffin, desafia os restantes membros da família a beber purgante de modo a que "o último a vomitar fica com a última fatia de tarde de maçã". Igualmente nojento, mas também de ir às lágrimas de tanto rir.

As pessoas não são estúpidas. Pelo menos as que veem Python... ou o Daily Show

Programas de grande popularidade que ironizam ou satirizam a atualidade noticiosa, como o The Daily Show ou o Late Show with Stephen Colbert, só funcionam porque assumem que as pessoas que os veem são cultas e bem informadas. De outra forma, não compreenderiam nem metade das "piadas".

Isso mesmo fizeram primeiro os Python. Um bom exemplo é o Jogo de Futebol dos Filósofos, entre os pensadores da Antiguidade e os alemães. Arquimedes, Sócrates, Hegel, Nietzche, Marx e Kant, arbitrados por Confúcio, com São Tomás de Aquino e Santo Agostinho como juízes de linha. Martinho Lutero é o treinador alemão. E também lá está Franz Beckenbauer, internacional alemão, a "surpresa da convocatória"...

Outro caso óbvio é o sketch sobre a "inquisição espanhola", em que Michael Palin, Terry Jones e Terry Gilliam interrompem a cena vestidos de cardeais afirmando: "Ninguém está à espera da inquisição espanhola." Parte do princípio de que todos os espectadores sabem o que foi o Tribunal do Santo Ofício e os seus horrores no século XV, em Espanha - e de que, tal como tudo, pode ser alvo de humor.

Nonsense e surrealismo muito copiados. E às vezes bem, como conseguiram em Big Train

Passou em Portugal na RTP2, na rubrica Britcom, e ganhou um nicho de audiência fiel. A série Big Train, de Arthur Mathews e Graham Linehan, de 1998, é tão pythonesca que poderia ter sido feita pelos próprios Monty Python. O formato era semelhante ao Flying Circus: meia hora de programa com vários sketches que subvertiam situações do quotidiano, pegando pelo seu lado surreal ou macabro.

Big Train foi, provavelmente, o melhor clone de Monty Python alguma vez feito. E, como muitas outras tentativas falhadas demonstraram sucessivas vezes, não é fácil consegui-lo.

Irreverência e uma franqueza brutal. Tipo Ricky Gervais

Na série The Office (2001), o humorista Ricky Gervais caricatura até ao absurdo a vida quotidiana de um escritório, interpretando a personagem do chefe que não tem talento ou competências para nada, nem noção das suas próprias limitações. Todos nós conhecemos (ou trabalhamos com...) alguém assim.

Gervais é atualmente o caso mais exemplar do humor, cuja franqueza chega a ser cruel. Seja em stand-up ou em séries, não se abstém de falar de nada (do facto de ser ateu à defesa dos animais), corta a direito nos seus argumentos enquanto nos faz rir... e pensar.

No final dos anos 1960, os Python tiveram os censores da BBC à perna devido a um sketch em que um homem diz que os seus hobbies são "golfe, estrangular pequenos animais e masturbação". Chamado ao gabinete do diretor da estação pública, Eric Idle teve de defender a inclusão da palavra "masturbação" no sketch. Fê-lo simplesmente assim: "Toda a gente se masturba. O senhor não se masturba?".

O sketch foi para o ar como planeado.

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